Terça-feira, Maio 15, 2007

Madrugada VermelhaMadrugada Vermelha

O mundo novo que conhecera na Colômbia fora mais que uma simples expedição, a fragilidade da vida humana foi por demais evidente. Agora, quase um ano corrido, o suor e a dor desvaneciam-se com as memórias desses momentos, mas algo de abrupto me tinha acontecido.
Assim que o cruzeiro atracou na costa Colombiana começou ali um longo calvário. Não mais tomei contacto com a minha antiga existência, fora arrancado da liberdade por agentes federais naquele mesmo porto e mais tarde arrastado para uma cela minúscula durante três dias. Não estava sozinho nesta etapa da minha vida, a Patrícia partilhava a cela com a Mara e Emiliana e eu estava com os meus amigos.
Os guardas colombianos abandonaram o caso, tinham chegado dois tipos à esquadra para falarem comigo e com a Patrícia. Bem vestidos e penteados pela mãe, apresentaram-se como elementos do governo português e que estariam ali para tratarem da nossa situação. Não chegámos a passar nova noite naquela esquadra, fomos recambiados para o Consulado de Portugal, onde certamente seria deportado para o controle das forças portuguesas. Não sabia do que era propriamente acusado, a minha culpa era a cumplicidade com a Patrícia, estava destinado a provar da sua sorte.
Os detalhes da minha captura eram demasiado vagos, relacionavam a minha presença na Colômbia com as mortes na ilha das estátuas em terracota. Não haviam provas, nem testemunhas vivas do que realmente se havia passado naquele lugar remoto, os argumentos que serviam de acusação pareciam mais desculpas para uma detenção forçada.
A noite passada no Consulado foi agradável, após horas de interrogatórios durante aqueles dias. Os dois homens vestidos de preto jantaram connosco no salão da majestosa mansão, na presença do cônsul. O jantar foi longo, Patrícia estava impaciente, olhava constantemente em seu redor, suspeito que tentaria descobrir uma brecha na segurança e fugir como bem se habituara. Eu não tinha essa confiança e tentava desfrutar calmamente da primeira refeição decente desde que saí de Portugal. O assunto da nossa captura surgiu no fim do banquete, estávamos a ser demasiado bem tratados para simples marginais apanhados na América Latina, os dois tipos estavam ali para nos libertarem das garras da justiça colombiana, mas essa liberdade teria um preço. A Mara e a Emiliana, tal como os rapazes, subiram aos quartos, foi então que se prosseguiu a conversa e veio a lume o verdadeiro motivo da nossa deslocação para ali. Cada um deles trazia todo o nosso processo de vida, toda a documentação que se possa imaginar existir sobre uma pessoa, os seus hábitos, algumas fotografias, os seus relacionamentos... tudo, tudo estava arquivado numa simples pasta que cada um deles religiosamente guardava. Não seria possível que fossem simples funcionários públicos do nosso governo, ninguém anda na rua com a vida inteira de outra pessoa, muito menos se daria ao trabalho de viajar dez horas de avião para tirarem alguém de uma modesta prisão. Um deles, o que abriu o meu processo, apresentou-se na prisão como Carlos Mendes, não tinha forma de comprovar se era realmente esse o seu nome, mas também pouca diferença faria. Falou durante alguns minutos e nada me pareceu com nexo, estava a escutar palavras que na minha cabeça não faziam qualquer sentido, uma conversa demasiado formal, pouco conteúdo... no entanto, eles pareciam saber tudo sobre nós, nós nada deles.
João, estes gajos são do SIS. Pensavas que eram anjos da guarda?
Acorda.
– recordo-me claramente da Patrícia me alertar.
Questionava-me na altura que fariam agentes do Serviço de Informações de Segurança , apesar do seu raio de acção ser bastante alargado, estranhamente equacionava ter algo a ver comigo.
Eles não continuaram com os rodeios, foram directos ao assunto e isso seria então algo que estaria interessado em ouvir. Foi-nos apresentada uma proposta, no entender deles, algo simples e que evitaria uma prisão prolongada em solo estrangeiro. As acusações contra nós seriam todas retiradas, os nossos amigos voltariam em segurança para Portugal e tudo não passaria de uma triste memória. O que nos ofereciam era um contrato de servidão institucional, seriamos remunerados, treinados e colocados meses mais tarde em liberdade operacional, como se estivéssemos a ser recrutados para algo que pudesse acontecer. Os traços dessa liberdade não seriam ali discutidos, era uma proposta que me parecia oca, tão vaga em explicações, tão abrangente a aspectos obscuros e uma porta aberta para um mundo desconhecido que seriamos forçados a viver.
Não tive grande escolha, apesar de estar a assinar, o que me parecia, um contrato em branco, o revés da medalha era satisfatório, pelo menos viveria longe de uma prisão imunda.
A assinatura naquele papel que mudaria a minha vida, levou com ela a minha liberdade mental, foi o momento que cortei com todos os meus laços emocionais. Entreguei todos os meus objectos pessoais àqueles homens, não me despedi dos meus amigos e nessa mesma noite, eu e a Patrícia, fomos levados para um Aeroporto militar.
Não chegámos a pisar solo português, da América do Sul voámos para o norte de África num avião particular, nada fazia sentido, tudo parecia um longo pesadelo sem fim anunciado ou beliscão que me acordasse.
Cheguei encarapuçado ao nosso último destino, estava assim desde que naquele país aterrei. Tinha chegado ao local que chamaria de casa durante os próximos dez meses, o meu Universo ficava reduzido a um posto de campanha em pleno deserto, um antigo forte de batalha utilizado pela Legião Estrangeira. Os legionários há muito que abandonaram aquelas ruínas, algo mais sofisticado tinha dado lugar onde outrora foram travadas batalhas de espada em punho. Não se avistavam os fatos cremes e os chapéus de banda, homens vestidos com fatos pretos tinham tomado os seus lugares, as débeis paredes pedregosas sobre as areias do deserto serviam apenas de fachada, o forte real eram bem abaixo da superfície, levando mais de um minuto de elevador a alcançar.
Exausto da longa viagem, escutava a voz da Patrícia a meu lado, como se esticasse o braço e conseguisse tocar-lhe. Mal conseguia abrir os olhos, a luz forte sobre nós ofuscava e o cansaço apoderava-se do discernimento. Patrícia estava diferente, parecia assustada, as suas palavras de desagrado, horas antes, tinham dado lugar a uma estranha expressão de medo no seu rosto, como se tivesse visto um fantasma.
Que se passa? – perguntei-lhe.
Nada respondeu, continuou a olhar fixamente na direcção de um homem ao canto da sala, um sujeito com aspecto sinistro que remexia numa rasurada folha de papel vezes sem conta.
Começava ali a segunda parte do nosso compromisso, após a aceitação dos termos em branco impostos e passado carta branca das nossas vidas, seria naquele momento que se iniciava o nosso treino. Foram tempos difíceis, uma realidade para a qual não estava minimamente preparado. Estava longe de quem gostava, seria sempre com algum sofrimento que recordava aqueles meses de isolamento, são lágrimas que choro em silêncio. Acabava-se a merda da história do mundo girar, sempre o fez, não precisa que alguém o repetisse constantemente em tudo o que é frase. Sempre continuará... Mas para mim deixara de o fazer, a minha vida era uma sombra do que um dia foi, a minha mente era reciclada para uma nova ideologia, o meu corpo era moldado para um novo ser. No entanto, há coisas que nunca mudam, a criação da vida, o estilo das coisas, o jeito de viver e para muitos a maneira de amar. Fechava-se um velho ciclo sob as areias daquele deserto, o mundo continuava certamente a girar, para alguns. Tenta-se recolher pequenos pedaços de nós desfeitos no exausto e ardido antro da livre e desmedida entrega da nossa existência aos caprichos de alguém, o mundo continua a girar. Nos duros e prolongados meses, reconfortava-me com lembranças de quem em outros lados deixei, consegue-se levantar um pouco o animo para mais tarde se cair em desalento, continua a girar, sofre-se cá dentro, e este não pára.
Foram os piores meses da minha vida, os mais cansativos fisicamente, desastrosos a nível emocional, no entanto estimulantes. O calvário tinha chegado ao fim, foi uma experiência de vida que não repetiria, mas um ensinamento bem estruturado para o resto de uma vida.

Voava para Portugal, imaginando o mar, sentado num assento de avião. Lembrando-me das areias quentes de um Verão tropical, olhei para lá do horizonte e recordava a casa deixada para trás. Retrocedo dez meses, a água batia no casco de um barco, o mar estava bravio, duas caras amigas me acompanhavam, tantas outras me olhavam. Tudo escureceu, foi assim há dez meses, não sei como foi possível deixar tudo o que sucedeu acontecer.
O olhar de menino extinguia-se velozmente nesta chegada e com nova percepção a este mundo exterior retornava, nascia para a sociedade um ser de sentimentos temperados pelo calor do deserto africano e pelas mentes dementes que o impulsionaram a cortar com a afectividade e delicadeza de expressão. Era agora uma alma perdida num mar de esquecidos. O tempo passou, deixou-nos mazelas, os corpos doridos, os sentimentos feridos.
Chegava finalmente a casa, o trajecto do aeroporto tinha sido recordado com nostalgia, alguma felicidade por novamente ver tais paisagens. O Sol pairava sobre a cabeça, era diferente do que à força me habituara, tão distante como o outro, a este reconhecia os traços e quereria ver nascer num novo dia.
Era manhã de Sábado, batia levemente na porta após um ano em cativeiro, não tinha avisado ninguém que iria regressar a casa. A minha mãe abriu a porta, chorava e apalpava-me o rosto, tentava reconhecer os traços de menino no seu filho, estavam tapados por uma barba de desleixo, o cabelo despenteado e um sentimento de frieza que não me era habitual. Não verti uma lágrima, um sentimento, uma saudade sequer.
Durante este ano de ausência, mantivera os meus pais na sombra, tinha sido forçado durante o cativeiro a inventar constantes mentiras, das quais eles se encarregavam de fazer atravessar o Mediterrâneo, para lhes despistar a curiosidade pelos sítios onde supostamente vagueava e as suas crescentes preocupações. Num dia bebia café num barco sobre as gélidas águas do Senna, na semana seguinte fugia até à praça das estátuas em Praga ou perdia-me num dos muitos bares de Amsterdão. Nas suas mentes e dos que me rodeavam, eu estava numas emocionantes e demoradas expedições pela Europa, a trabalho, sem data de regresso. Essa era outro ponto que fora deixado ao cuidado de quem me acolhia, estava oficialmente empregado como consultor na Fundação Nacional de Belas Artes, um nome de fachada para outros tantos funcionários que por aquele forte em solo africano haviam passado e agora vagueavam inertes por esse mundo fora.
Cedo me habituara às mentiras, com o passar das semanas, a necessidade de enganar estava enraizada na minha maneira de agir, surgia naturalmente como se uma parte de mim não mais quisesse regressar àquele antigo mundo.
Passei uma semana a tentar restabelecer-me ao passado desligado, custava mais do que alguma vez pudesse imaginar, agora que estava diante do reencontro com antigos laços criados, a minha mente dava a cada detalhe uma importância diferente, a cada pessoa um significado menor. Indiferente a esses desejos e lembranças de outrora, haviam inúmeros pontos que teria de tomar em consideração para que a minha reinserção pudesse ser concluída.
Encontrei-me com a Mara e Emiliana numa esplanada junto ao Tejo, adivinhava-se uma bela tarde de Sol. Estavam surpresas por me verem e desagradas por nada lhes dizer durante quase um ano sem ser apenas um vago telefonema naquela manhã. Elas e os rapazes tinham voltado para Portugal num voo comercial na tarde seguinte à minha partida da Colômbia, foram bem tratados como prometido e, oficialmente, a sua triste passagem por aquele país não passava duma atribulada lembrança turística. Quiserem saber tudo, o que me acontecera, por onde tinha andado, que contasse o que em verdade nunca lhes poderia contar. O novo emprego improvisado como consultor serviu para a ocasião, alguma ostentação da minha parte no carro e fato vistoso enquadravam-se perfeitamente na personagem que me haviam criado e àquelas preciosidades havia mostrado. Fizemos um pacto, nada do que foi vivido naquele pais sairia de lá, ficaria para sempre esquecido nas nossas mentes.
Connosco à mesa juntou-se a Débora, o seu rosto belo inalterado e o corpo bem delineado eram momentos do passado que recordava com satisfação e neste presente de reflexão eram alicerces sólidos para uma melhor reunião com o que em tempos numa vida toda deixei. Estava bonita como sempre, ela que outrora em mim por caminhos escuros vagueou, em sítios não seguros me tocou, algumas das minhas loucuras escutou, algumas das minhas ternuras provou. A sua falta foi notada durante os meses de cativeiro, era agora sentida.
De tudo e de nada se conversou, a tarde passou em passo acelerado. Fiquei de me encontrar com a Mara na manhã seguinte, segundo ela, tínhamos compras. Aceitei a custo, uma manhã passada entre lojas não seria o que mais poderia desejar, mas para compensar a longa ausência acedi ao seu pedido. As marcações em agenda não se ficavam por ali, tinha combinado com a Débora uma saída para aquela noite. Não tinha ainda frequentado qualquer dos locais onde antigamente tanto do meu tempo perdia e naquelas noites parte da minha existência vivia. Estava a dar os primeiros passos numa aproximação ao que em tempos foi de facto a minha vida, encontrara-me com algumas das pessoas que queria e a algum sítio bonito naquela noite certamente iria.
O que parecia um filme perfeito deixava subitamente de o parecer. Recebi uma mensagem no telemóvel dado pela Fundação, curta e discreta.
Doca de Alcântara – Armazém H – 2300.
Tinha sido solto no mundo real com um objectivo, sabia que a minha sofrida liberdade teria um preço, era então que o momento de o começar a pagar chegava. Na verdade aquele local fazia parte da minha anterior existência, mais uma casa junto ao Tejo que bem conhecia, não era mais que o Blues Café nas Docas. Talvez a Patrícia também aparecesse, ela tinha sido libertada antes de mim e soube que estaria em Portugal.
Deixei a minha amiga em casa, com a promessa que mais tarde ali passaria para a buscar. O nosso destino para aquela noite estava involuntariamente traçado, o tempo de intervalo seria curto.
A hora marcada aproximava-se, os bares começavam a ganhar vida, os carros amontoavam-se nos locais públicos. Era uma correria de pessoas que não estava acostumado, fugiam dos seus carros para uma noite que os acolhia, nada em troca pedia, um mundo novo de emoções lhes oferecia. Cheguei acompanhado para uma ocasião que exigiu uma presença de mim sozinho, sem estar preocupado, peguei com leveza pela mão da minha amiga e estava na hora de encarar o que atrás daquela mensagem trazia.
Aprumei o colarinho do smoking e dirigi-me para a porta. Os seguranças nada disseram, afastaram-se da porta e era uma nova realidade que se abria naquela noite para mim. O som atrás das cortinas estava ainda no seu início, o bar estava aberto e as primeiras bebidas já tinham sido pedidas. A pouca afluência sentida naquela hora redecorava o Blues como um calmo e relaxante local de lazer, longe de loucura e excitação que se adivinhava para as horas seguintes. Todas as caras eram marcadas, novos hábitos forçosamente ensinados tomavam conta dos meus sentidos, as janelas eram contadas, as portas estudadas. Um novo ser adormecido em mim estava a ser despertado com uma simples evidência que algo se passaria naquela noite depois das onze.
Contava poucos minutos para a hora marcada, recebi uma nova mensagem no telemóvel.
WC dos Homens, vem sozinho.
Dou um último gole na bebida, passo a mão pelo cabelo da doce Débora e ausento-me do bar. Encaminho-me para a casa de banho, passei as cortinas e sou abordado por uma cara conhecida. As apresentações eram escusadas, Carlos Mendes era o mesmo agente que me havia tirado da Colômbia e por meia dúzia visitou-me no forte em África para se inteirar da minha evolução. Tinha sido atraído àquele local, fomos para a cave da discoteca, eram passos dados no desconhecido, de todos os locais que ali pisara dentro, aquele nunca fora sequer imaginado. A música calara-se, as vozes na entrada deram lugar a um silêncio comprometedor, um misto de medo e excitação, não sabia o que me esperava por detrás da porta que agora se abria. Tinha sido levado a uma sala, as luzes estavam acesas e outra cara conhecida estava no seu interior. A Patrícia sempre tinha comparecido, não a via desde a estadia na Argélia e não tinha havido qualquer tentativo de um contactar o outro desde que de lá tínhamos saído, apesar disso, senti-me um pouco mais confortável. Estava um outro tipo na sala, bem vestido e engravatado, abria vagarosamente uma pasta sobre a mesa de reuniões. Não havia sofás naquela sala, como em tantas outras de discotecas. Esta era mais séria, as luzes claras e um computador portátil sobre a mesa davam um ar mais sóbrio.
Esta era a primeira chamada ao activo desde a conclusão do treino, estava ansioso, sem saber o que dali esperar e mil e uma coisas imaginar. A reunião prosseguiu, o ecrã do portátil servia de modo para a apresentação do que se assemelharia a uma missão, a minha primeira. Foram apresentadas oito fotografias, incluindo entre elas duas caras que não me eram nada estranhas, Patrícia parecia conhecê-los a todos. Senti um ligeiro arrepio pelo corpo, duas daquelas caras não só me eram familiares como as conhecia bem, eram os falecidos Heitor e Miguel, da antiga Agência da Patrícia. Os restantes pertenceriam supostamente à restante célula, da qual a Patrícia fez parte em tempos, e que agora estava novamente activa. O tipo todo engravatado afastava-se do teclado e Carlos Mendes passava a apresentar os objectivos que dali esperava ver cumpridos, sem entrar em grandes detalhes, exibindo e falando apenas do estritamente necessário. A minha mente assimilava aquelas palavras de uma forma que não estava habituada, parecia que a minha consciência tinha ficado junto ao bar a beber um copo com a Débora e o meu corpo robotizado ali estivesse a escutar cada ordem dada.
A missão não seria propriamente algo que me viesse a orgulhar de cumprir, os objectivos eram claros, todos aqueles nomes teriam de pertencer futuramente a um simples obituário de jornal, sem que volta ou alternativa pudesse ser dada. Estavam em causa assuntos de segurança nacional, dizia o outro tipo engravatado que nada durante toda a apresentação disse. Para mim nada disso fazia sentido, muito menos me interessava, mas notava que algo dentro de mim queria completar aquelas tarefas, como se aqueles alvos estivessem já executados por vontade. Não sabia que se passava comigo, era um sentimento ambíguo, teria a consciência fragilizada ou seria fruto das drogas dadas durante treino no deserto causadoras de uma nova mentalidade moldada ao capricho de assassinos frios e calculistas. A Patrícia teria de me auxiliar, a localização e manipulação dos alvos ficaria por sua conta e risco, dada a sua anterior ligação, apesar de momentaneamente ténue, com todos os nomes sorteados naquela noite.
Não poderia nem queria comprometer a missão, sob pena de ao falhar estar a atentar contra a minha própria vida ou dos que me rodeiam, essas coisas fariam muito mais sentido agora, no momento de todas as incertezas para se levar a cabo algo macabro e descabido de uma antiga vivência livre dessa dor.
A reunião não terminava sem uma última nota, Carlos mostrava-me pela última vez naquela noite uma fotografia, era um dos alvos, Cristina Vieira. Estaria presente naquela noite no Blues Café, arrastada para aquele lugar que agora me parecia sombrio por um telefonema da Patrícia. O modo da sua morte estava preparado, Patrícia começaria o trabalho sujo, eu só teria de assegurar que o plano não fosse alterado. Não havia mesmo volta a dar, a missão tinha sido iniciada e cabia-me levar a cabo dali para diante. Fui acompanhado pela Patrícia para o centro da pista, agora mais composta. A Débora desesperava junto ao bar, a sua expressão era menos sorridente, estava chateada comigo por a fazer esperar durante dez minutos sem uma explicação. Teria de a compensar e com a vida de outra pessoa terminar, esperava-se uma noite atarefada e não sabia por qual das missões começar.
Patrícia tinha-se misturado com a multidão que ia compondo cada lugar vago na discoteca, esperava o nosso primeiro alvo. Não dispunha de qualquer arma evidente, o local não era propriamente isolado, milhares de olhares serviam de audiência a uma execução não por mim programada. As novas sensações que ia descobrindo não me eram familiares, o medo tinha ficado à porta daquela sala na cave, as incertezas deixadas junto de um portátil e uma nova postura era agora saliente na minha presença.
Débora levou-me para dançar, foi então que vi a Patrícia acompanhada pela rapariga que momentos antes fazia capa de revista na secção dos alvos que já deveriam estar mortos e enterrados. Patrícia estava sem dúvida a fazer o seu trabalho, apesar se friamente conduzir outra pessoa a um passo da sua morte, encarregava-se também de a fazer esquecer com cada último momento da sua curta restante experiência de vida, adulterando-lhe a bebida com cocaína.
O tempo ia passando, a minha hora de entrar em acção não estaria muito longe, dei duas passagens pela casa de banho, continuavam as duas junto ao bar aquecendo os seus corpos com licores, pareciam estar a colocar a conversa e a bebida em dia.
Estávamos naquela discoteca há mais de três horas, aproveitei uma ida da Débora à casa de banho, e dirigi-me na direcção das duas velhas conhecidas, de copo em mão. Apresentei-me como qualquer anormal faria numa discoteca daquelas, ofereci-me para pagar uma bebida às meninas e estava lançado o primeiro passo na construção de uma destruição naquela noite. Patrícia fazia o seu papel, mostrava-se disponível e cooperava discretamente, arrastava a jovem Cristina para uma sorte doentia. Avistei ao longe a Débora procurando por mim, talvez tivesse sido má ideia tê-la trazido comigo, não haveria como alterar isso. Patrícia sussurrava-me ao ouvido, Cristina parecia eufórica, o efeito da mistura estava a fazer efeito. O passo seguinte seria levá-la para fora dali e em qualquer outro lugar concluir o desfecho anunciado. Decidi dar mais uma volta pela discoteca, deixei o copo meio cheio pelo chão e fui ao bar buscar duas bebidas. Dancei um pouco mais com a Débora, a postura fria era abalada por uma ligeira sensação no estômago, um aperto no vazio que não sabia explicar. Abandonei uma vez mais a bela acompanhante naquela pista, fui a correr para a casa de banho, o bacardi misturado com toda aquela adrenalina deu-me a volta à barriga. Os estragos pareciam grandes, tinha as tripas em alvoroço. Permaneci fechado dentro daquelas quatro paredes aromatizadas com toda a essência de uma noite ao ar livre. Os ponteiros do relógio avançavam, não estava com vontade nenhuma de me levantar da sanita, parecia confortável e um óptimo local para passar um serão. Senti-me adormecer, os olhos pesavam, as mãos estavam caídas pelos joelhos, a cabeça tombava sem direcção. Não senti despertar, mas acordava certamente. De olhos abertos e movimentos revitalizados, vagueava em pleno deserto africano, completamente exausto e desidratado. Aninhava os meus pés na areia, estava quente, escutava um mar imaginário a poucos passos de mim e avistava uma miragem, por entre a neblina, uma fonte ao longe no areal. Caminhei até lá, a fonte secara e criara um lago, não tinha peixes, nem folhas ou pedrinhas, a sua água era um espelho vazio e nele via quem era, nada surgia, o menino de outros tempos deixara de existir. Pensei que enlouquecera, onde estava a confortável sanita de há instantes atrás, ou o cheiro desagradável do que expressava cá para fora... Estavam mesmo ali, o barulho da música voltava, os pés calçados contorciam-se nos sapatos. Corri para fora daquele pequeno tormento, foi então que tive enfrentar o meu desafio. Cristina atravessava as cortinas, descia para uma das casas de banho, vinha em pouco desequilibrada e gotas de suor escorriam pela sua face, tinha as capacidades cognitivas afectadas, e facilmente se deixou levar nos meus braços para a porta da casa de banho das senhoras. Beijei os seus lábios, ela tentava retribuir o beijo e o seu corpo subia um pouco mais de temperatura. Esperei que a última rapariga saísse de lá, sem ninguém mais a servir de audiência, entrei com a Cristina num cubículo livre, servia perfeitamente. Pedi-lhe que trancasse o fecho da pequena porta, os seus lábios estavam desidratados, a sua respiração era demasiado ofegante e o seu coração parecia estar a entrar em arritmia cardíaca. Não precisei de qualquer esforço para que a vida daquela jovem terminasse, a droga faria o resto do trabalho sujo e limitei-me a levar o seu corpo ao limite do seu esforço. A minha mão descia para dentro da sua saia, estimulava a pobre Cristina no que seria a sua última corria para um último fôlego. A sua excitação aumentava em flecha, o calor do seu corpo tornava-se em vapor e foi então que os espasmos começaram, as dificuldades respiratórias seguiram-se e o seu coração finalmente parou.
Esperei que a casa de banho voltasse a ficar vazia, a porta do cubículo permaneceria trancada por dentro, coloquei o casado do fato por cima da divisória e saltei sem deixar qualquer rasto da minha presença naquele local mal afortunado.
Fui para a festa como se nada mais que uma dor de barriga me tivesse importunado, Débora continuava a dançar na pista e a Patrícia encaminhava-se para a saída. O trabalho para a minha noite estava concluído, não sabia o que sentir ou pensar, era o vazio que me ocupava a mente naquele momento, peguei na Débora e saímos também.
Dali até chegar minha casa foi num instante, deixei primeiro a minha fiel acompanhante em casa, sem beijo ou afecto forçado, o calor do meu corpo tinha-me abandonado no momento que a Cristina se desligou deste mundo.
A frieza de ocasião transformou o resto da noite numa eternidade difícil de atravessar. Algumas memórias recentes assolavam-me a passividade de um sono madrugador. Não ficara indiferente ao que se passara, àquela vida prematuramente ceifada. Com a elevada dose de adrenalina que me correu pelas veias, não tive tempo para pensar naquele alvo como pessoa, como sendo a filha de alguém. Era simplesmente um nome assinalado numa folha de instruções. Não sentia remorsos, sequer pena pela dor infligida. O que estava feito não poderia ser desfeito, mas sentia pela primeira vez que talvez todo aquele esforço tivesse sido em vão, como se a situação não justificasse necessariamente aquele desfecho, frio e sombrio.
Faltavam cinco nomes a serem eliminados, após a morte de mais um deles depois do Heitor e o seu irmão Miguel, certamente iriam desconfiar desta recente morte e que algo de anormal poderia estar a acontecer no seio da sua organização. Não pensava neles como cinco pessoas que teria de eliminar, mas que era imperativo despachar-me, antes que aquelas vidas me escapassem de vez.
Iria receber informações na manhã seguinte sobre as restantes pessoas abater, estava impaciente, não conseguia pregar olho com tanta ansiedade. Vesti-me à pressa, peguei nas chaves do carro e fui novamente para a rua. Conduzi pelo Barreiro, a lado nenhum fui dar, via apenas as horas passar. Estacionei o carro junto à praia, parei para escutar o mar, as coisas que ele me disse. Fiquei parado naquele cais, apenas ouvindo, foi por demais o que fui sentindo. Tinha saudades do que era, nada mais me lembrava de sentir. Após tanto tempo de ausência, há coisas que se perdem pelos momentos, outras que se aprumam e se mostram no momento.
O amanhecer pouco tardou, algumas gaivotas sobrevoavam. Não fugi desta vez, o primeiro barco da manhã ao longe navegava, eu apenas ali passeava. Soltei-me e acabei por me perder na vista por Lisboa, longe de por onde horas antes vagueava. Gostava do que então deste lado via, sonhava com o pouco que sentia, eram dos momentos de lá que me esquecia. Fiquei ali feito menino, brincava com as luzes e as cores.
Entrei por casa com os raios de Sol do novo dia, este chegava e iluminava o quarto sem pedir licença, repetia o mesmo ritual desde há uns dias, não tinha como dormir. Liguei o portátil na expectativa de receber alguma informação nova e comecei a carregar o ficheiro. O tocar da campainha fez a minha mente dispersar-se por momentos e afastar a minha ansiedade daquele ecrã de computador. Era a Mara, vinha sorridente logo pela manhã. Apanhou-me com a roupa do dia anterior ainda por despir, com tantas coisas pelo meio tinha-me esquecido do que combináramos na tarde anterior.
João, estás com um aspecto de boémio... Ainda agora acordaste e já estás assim?
Ainda era de manhã e a menina já estava com piadas parvas. Pedi-lhe que aguardasse um pouco no quarto, a casa nova que me fora atribuída estava pouco mobilada e o seu recheio resumia-se a uma cama e televisão. Tomei um duche, tentava limpar do corpo as marcas da noite anterior, não saíam, estavam escondidas onde um lavar de chuveiro nunca conseguiria apagar, bem entranhadas numa mente que se adulterava velozmente e se tornava numa sombra do que em tempos foi.
Quando regressei, a Mara deitada sobre a cama e olhava fixamente para o ecrã do computador. Com o tocar da campainha nem me lembrei que tinha colocado os dados a carregarem para o disco, uma distracção estúpida.
Conheces a minha irmã?
Penso que não, é gira? – respondi.
Ela faz anos hoje, vens comigo à festa dela.
Na verdade, não fazia a mínima ideia de quem fosse a sua irmã, de todas as vezes que saímos nunca a tínhamos convidado. Peguei no portátil, dei uma vista de olhos pelo que tinha carregado e a festa de anos da irmã da Mara teria de ficar para o próximo ano, naquela noite teria de ir a uma outra festa de aniversário, mas com uma presente diferente. Os cinco elementos, três rapazes e duas raparigas, uma delas a aniversariante, iriam estar nessa mesma noite todos reunidos num restaurante em Lisboa. A morte da Cristina Vieira ainda não tinha sido divulgada e talvez fosse a altura ideal para se arrumar este assunto de uma vez por todas.
Anda caramelo, vamos no meu carro. – apressava-me ela.
Esqueço esses assuntos por um momento, vou com a Mara às compras, afinal sempre precisava de roupa. os meus gostos tinham-se alterado, a roupa confortável e de ocasião dos tempos académicos dera lugar a tecidos caros que vestiam um indivíduo snobe e bem arranjado que não saía para a rua sem a sua adaptação a uma nova realidade estar bem definida. Os fatos Armani, os sapatos Miguel Vieira, as camisas pretas... adereços que outrora desprezava, faziam agora parte integrante da minha vida. Mara estranhava de onde tinha surgido o meu avultado poder de compra repentino.
Eram quase horas de almoço, Mara telefonou para a irmã e pediu-lhe que fosse almoçar connosco no Fórum. A jovem rapariga não tardou a chegar, de longe tinha o bom aspecto da irmã, o seu caminhar tornava-se único na minha cabeça, as pessoas em redor tornavam-se em sombras e dava mais atenção a uma expressão de menina que não me parecia totalmente desconhecida. Talvez o cabelo estivesse diferente, agora os olhos, as expressões do rosto e os seus lábios já tinham sido marcados por mim, nalgum outro lugar qualquer.
Cátia, este é o meu amigo João que te falei. – apresentava-nos a Mara.
Fiquei paralisado, a respiração alterou-se...
Cátia?! A sua semelhança incrível com alguém que detalhadamente observara e agora o nome. Disse que tinha de ir à casa de banho, afastei-me das duas jovens e longe dos seus olhares telefonei à Patrícia.
Estou? Patrícia... Porque não me disseste que a Cátia era irmã da Mara?
Ela hesitou em responder...
Não era relevante. Faz o teu trabalho.
Até logo.
– terminou, desligando a chamada.
Voltei para junto da companhia das meninas, estava menos nervoso e com a cara refrescada. A Cátia, pelo que se revelava, não era uma simples desconhecida, uma jovem bonita que via de primeira vez. O seu nome e fotografia tinham sido divulgados na noite anterior e a festa de anos à qual teria de ir nesta noite seria a dela.
Tento disfarçar o meu estado extasiado e confirmo a minha presença na sua festa para aquela noite. Mas ainda era de manhã e estava com uma fome desgraçada, tínhamos um almoço pela frente e uma oportunidade de conhecer melhor aquele que seria o mais novo membro de uma célula clandestina que supostamente ameaçava a segurança de muita gente. Nos seus recém-chegados 19 anos, mais me parecia uma rapariga de escola, parecia-me difícil que aquela doce expressão se revelasse numa mulher fria e calculista como vinha descrito no seu processo. Parecia frágil, as aparências poderiam iludir. No entanto, fiquei com dúvidas. Eram muitas, como se quisesse terminar a missão, como se tudo o que me fora impingido fosse falso e estas pessoas estivessem a morrer sem uma razão.
As palavras de outros perseguiam-me, esses tantos outros que me ditam o tempo, me controlam os segundos, me sugam os momentos. Era assim o meu viver, contando o tempo do meu ser. Soltava devaneios em silêncio, pedia ao mundo que me acalmasse. Queria desfocar as cores da fotografia que vi naquele ecrã, queria que fosse outra pessoa, queria que houvesse uma razão, queria tirar o brilho que aquele momento não teve... torná-la mais artificial, mostrando a visão que tive daquele momento, turvo na minha mente, desfocado de toda uma realidade. Mas não o conseguia, era a mesma amiga de hoje, de um curto amanhã talvez.
Mal falei durante o almoço, escutava as palavras da Cátia numa última tentativa quase desesperada de perceber o que se passava na sua cabeça e se iria levar a minha missão a cabo. O almoço foi subitamente interrompido por um telefonema, alguém dava a triste noticia à aniversariante da morte da Cristina. Ficou abalada, verteu uma lágrima.
As compras terminaram, o almoço teve o seu fim. Mara levou-me a casa.
Giro o pulso, observo a paisagem simples e descuidada de uma via rápida. Tudo gira, nenhum momento se perde para respirar, o relógio não pára, os carros não abrandam, as árvores não sossegam, as nuvens não descolam. Perguntei cinicamente à Mara quem era a tal Cristina, ao que me respondeu sem certezas, mas que se lembrava apenas dela como uma das amigas da irmã, uma colega de faculdade.
A viagem parecia nunca mais terminar, continuava a remoer no mesmo pensamento. Mara deixou-me em casa, a nova postura de frieza era abalada por um sentimento antigo, por uma necessidade de proteger aquela frágil vida. A Patrícia iria estar presente naquela festa, uma equipa de exteriores aguardaria qualquer sinal e a conclusão do plano serias levada a cabo noutra localização, longe de uma multidão de espectadores.
O jantar estava marcado para o Esqueci-me, um restaurante pequeno e bastante agradável junto ao Restelo. As cada vez mais curtas horas que o antecediam foram passadas em reflexão, nem o Carlos Mendes nem a Patrícia não me haviam dito como o plano seria executado naquela noite, apenas que seria naquele espaço, não tinha forma de o evitar de se iniciar. Recebi as plantas de todo o estabelecimento, conhecia o restaurante de algumas noites lá passadas entre copos de bacardi. Decorei facilmente os cantos à casa, no seu interior estariam apenas dois funcionários, o Lemos e o Carlos. Das seis mesas de jantar, metade estariam ocupadas por nós e nenhuma das outras ocupadas, alguém se deu a um grande trabalho a preparar o terreno, fazendo uma marcação simultânea para as restantes vagas.
Mara foi com a irmã para Lisboa, no meu carro levei o Alexandre e o Gonçalo, também eles convidados. as dúvidas voltavam á carga, tentava lutar contra o que me corria pela cabeça, queria fugir, mas não me deixava levar.
Rapazes, eu não vos contei propriamente o que andei a fazer durante estes dez meses fora de Portugal. - desabafei.
Queria continuar a conversa, contar-lhes todos os detalhes, mas a iniciativa desvaneceu-se. Uma força interior maior fez com que os meus lábios se selassem. As cores do ambiente transformaram-se em cinzentos quando aquelas palavras disse, ofuscavam-se neste meu parecer. Queria que o Gonçalo e o Alexandre tivessem a minha visão das coisas, um auto-retrato do meu intimo, a falta de alegria do meu ser. Naquela noite não sabia quem iria ser, ainda estava para perceber, mas algo teria de acontecer.
Pedi-lhes que confiassem em mim, fizessem o que lhes pedisse sem hesitarem, em nome dos bons velhos tempos. Eles não percebiam o teor das minhas palavras, pensavam que enlouquecera de vez, mas teria de os cativar a acreditarem em mim. Sabia que algo de grave iria acontecer no interior do restaurante naquela noite e quando fosse o momento, estes dois teriam de estar longe dali, não suportaria ter de viver com a perda das suas vidas em consciência. Eles não ficaram nada convencidos, infelizmente não poderia ser mais claro com eles, teriam simplesmente de esperar o inesperado e acreditar em mim.
Estava perdido num caminho que era a sombra de uma dúvida...
Esse caminho levou-me ao Esqueci-me como destino, ainda vazio e acolhedor quando lá cheguei, quase por ninguém esperei. Entrei com dois amigos, a casa era nossa, estava colorida demais para o meu estado de espírito, tanta luz odiei, tentei-me isolar num cantinho lá escondido. Sabia que dali não escaparia, o ambiente engolia quem nele se deixasse absorver.
No restaurante estavam alguns convidados sentados, alguns amigos em comum. Os rapazes e a Mara faziam a minha ponte de ligação com as restantes pessoas sentadas à mesa. Haviam outras celebridades à força naquele pequeno Patrícia chegava e cumprimentava quem se propusera aniquilar, os seus lábios quentes escondiam uma fria e vil predadora que naquela noite se mostraria. Estava determinado em não deixar que a sua vontade fosse avante, ela precisaria de mim para os eliminar aos cinco e seria aí que revelaria as minhas verdadeiras intenções.
Chegavam as sobremesas e nada se tinha passado, Patrícia levantou-se da mesa e fez-me sinal que a acompanhasse.
Alexandre, toma as chaves do meu carro.
Então, que se passa? – perguntava ele.
Lembras-te do que falámos no carro? Pois, está algo para acontecer.
O Gonçalo estava atento, a sua expressão deixara de estar sorridente e abava a cabeça em sinal de consentimento, no entanto, tinha quase a certeza que não estava a perceber nada do que lhes dizia e abanava a cabeça apenas para que me calasse até que a maluqueira passasse.
Alexandre, vai com o Gonçalo lá para fora. Entrem no carro e não saiam de lá até eu dizer.
Eles não se levantaram de imediato, estavam impávidos e serenos, atentos às minhas palavras mas inaptos de movimentos. Seria assim tão difícil que me dessem ouvidos por uma vez que fosse. Bem, talvez tivesse que lhes espetar com um garfo na perna para que acordassem para uma realidade que se aproximava cada vez mais veloz da deles a cada segundo que passava.
Mexam-se! – falei um pouco mais alto, apertando as chaves do Audi na mão do Alexandre.
Levantaram-se então dos seus lugares, deram um pouco nas vistas por saírem juntos, mas a mesa estava servida, os copos ficando vazios e a falta das suas pouco faladores presenças no seio daqueles convidados seria um mal menor. Deixei que atravessassem a porta, subi do meu lugar e fui de encontro à Patrícia que me aguardava na casa de banho. Não seria pelas razões de outros tempos, uma corrida semelhante a outras ocasiões, uma rapidinha para arruinar a monotonia, desta vez o assunto era serio e nada de prazeroso. Fiz uma chamada para o telemóvel do Gonçalo, atendeu de imediato, pedi-lhe que em situação alguma, por muito estranho que lhe parecesse, nada dissesse, apenas escutasse o que se iria passar nos minutos seguintes. Coloquei o telemóvel no bolso do casaco e entrei na casa de banho.
As medidas tinham sido tomadas de antemão, muito antes de chegarmos ao restaurante. Patrícia tirava objectos de um saco de viagem colocado debaixo do lavatório. Ela parecia estar com pressa, colocou-me ao corrente da situação, só então. A iluminação seria cortada, as portas automáticas baixadas e uma bomba de gás seria lançada como engodo no curto espaço interior do restaurante. O efeito anestésico do gás dar-nos-ia tempo para transportarmos aquelas cinco pessoas para uma carrinha que aguardava nas traseiras e prosseguir para a segunda etapa do seu plano maquiavélico.
Queria impedir a Patrícia de colocar o plano em prática, mas estava parco em ideias, não havia maneira simpática de a deter naquele momento sem levantar a mínima suspeita da minha consciência pesada.
Calma, conta-me ao menos o que eles fizeram. Porque razão vão eles morrer?
Preciso de saber, depois ajudo-te no que quiseres. – insurgi-me.
Ela parecia não se interessar pelas minhas dúvidas. Peguei nos seus braços e lancei-a contra a parede, num gesto de redenção, beijei os seus lábios. A bela rapariga não reagiu da forma como esperava, retribuiu o beijo e numa explosão de desejo carnal, mordeu-me o lábio, afastando-me para o lado.
Logo! Agora temos um jogo para terminar. – dizia ela, ofegante.
Continuava a remexer no saco de viagem
Por favor, preciso mesmo de saber. – insisti.
As palavras custavam a ser arrancadas, mas acabou por ceder vendo a minha passividade diante da porta da casa de banho. Estava impaciente, queria despachar aquilo de uma vez por todas.
Eles fazem parte do projecto Niemitz.
Fiquei sem perceber muito mais, mas ela nada mais disse. A sua paciência para com o meu comportamento nada profissional parecia estar a esgotar-se, entregou-me bruscamente para as mãos uma máscara de gás e deu um sinal telefónico ao exterior para avançarem.
As luzes apagam-se, escutam-se alguns gritos no interior da sala de jantar, Patrícia agarra-me pelo braço e leva-me para lá. É lançada uma granada de gás, o efeito foi rapidamente assimilado pelos presentes, tosse, alguns vómitos e uma rápida perda de consciência foram os passos seguintes. Não havia tempo a perder, em menos de um minuto transportámos dali os cinco alvos.
A carrinha arrancou a toda a velocidade, uma Ford Transit com interior de carga atrás e apenas bancos na frente. Patrícia e o condutor seguiam na dianteira, eu tinha ficado atrás com os restantes cinco. A velocidade depressa regressou à de cruzeiro, a zona era populosa e não se poderiam arriscar a serem mandados para pela polícia. Eu também não poderia arriscar que desaparecêssemos do interior da civilização e nos refugiássemos nalgum recanto remoto. Ainda com o telemóvel no bolso, pedi ao Alexandre que nos seguisse.
Ainda falta muito? – gritei para os bancos da frente.
A carrinha era fechada entre habitáculos, não escutava nada do que a Patrícia e o condutor gritavam do outro lado. Pela janela a escuridão tomava conta da paisagem que caía sobre as árvores do Monsanto.
Estamos quase lá. – gritava a Patrícia do lado de lá.
Revistei as carteiras dos jovens capturados na expectativa de encontrar algo incriminatório ou simplesmente algo que me explicasse o teor de toda esta perseguição às suas vidas. Nada encontrei, nem remexendo nos objectos pessoais que cada um trazia no corpo, absolutamente nada. Havia apenas um única coisa que estas pessoas tinham em comum, eram todos estudantes na mesma faculdade, também a do Gonçalo.
Gonçalo, conheces algum projecto chamado Niemitz? – perguntei.
Claro que conheço, isso foi explorado na minha faculdade.
Pois, eu sei. Mas do que se trata?
É um software que descodifica qualquer sinal transmitido via satélite.
Então era aquela a razão de tanta confusão. Cátia e os seus amigos não eram nem de perto nem de longe os terroristas que me fizeram crer, eram simplesmente uns miúdos que tinham feito algo que certamente desagradara alguém importante, não poderia deixá-los morrer apenas por isso. Não poderia perder mais tempo, num acto desesperado, pedi-lhes que abalroassem a carrinha e nos fizessem sair para fora de estrada, seria a nossa única salvação ou morreríamos ao tentar. As encostas íngremes do Parque do Monsanto, as suas árvores junto à berma da estrada e o isolamento do local teriam de servir de fachada a uma fuga não planeada.
Está bem! Segura-te! - gritou o Alexandre do outro lado da linha.
Não tive tempo de pensar onde me abrigar, peguei no adormecido corpo da Cátia e aninhei-a nos meus braços. Escutei a aceleração potente de outro carro no exterior, aproximava-se com grande força pela traseira... O embate não se fez esperar! Os nossos corpos saltaram naquele furgão oco, o guinchar dos pneus no asfalto servia de sinfonia, os gritos na frente anunciavam uma dor alucinante que nos esperaria na encosta mais próxima.
A carrinha parou abruptamente, doía-me o corpo todo. Alguns amigos da Cátia sangravam, ela parecia-me bem. Uma das portas traseira da carrinha foi aberta, a outra parecia presa e toda retorcida. Do lado de fora, uma luz forte, alguns metros acima do nível onde me encontrava jogado, ofuscava-me a visão turva e perturbada pelo violento embate. Eram os faróis do meu carro, pelo menos ainda um, o outro parecia fundido.
O Alexandre e o Gonçalo forçaram a abertura do resto da porta, tiraram os cinco jovens, ainda adormecidos durante mais algumas horas pelo gás. Ajudaram-me a sair, coxeava da perna direita, segui-a uma dor nas costelas e a cabeça que queria rebentar. Fora isso, continuava vivo.
No banco da frente a realidade era mais sangrenta, Patrícia parecia-me apenas inconsciente, tinha alguns sinais vitais, apesar de ténues. O desconhecido condutor tivera uma sorte diferente, o seu corpo estava trespassado pelos ramos de uma árvore, a mesma que nos tinha amparado a queda numa qualquer encosta no Monsanto.
Os rapazes e a inofensiva Cátia estavam a salvo, amontoados no banco traseiro e na mala do meu amolgado carro. Não haveria tempo a perder, a qualquer momento poderia passar alguma pessoa. Apressei-os a fugirem e a irem a um Hospital. Que pedissem de imediato protecção policial, as suas vidas iria dar uma volta inesperada.
Alexandre continuava fora do carro, como se esperasse por mim.
Anda, não podes ficar aqui. – gritava ele.
Eu não poderia ir com eles, estaria a comprometer a minha vida se soubessem que tinha sido um dos responsáveis pela fuga de cinco alvos assinalados. Não seria apenas a minha vida ameaçada, também a de todos os que me rodeiam e que parecessem cúmplices aos olhos severos de quem procura respostas rápidas para soluções complicadas.
Fujam... Não sejam estúpidos, fujam! – insisti, exaltado.
O Alexandre tomou o volante do carro, estava a demorar uma eternidade para sair dali.
Que vais fazer quando perceberem que foste tu quem os salvou?
Não sabia como lhe responder, não tinha pensado tão longe, a única preocupação naquele momento seria salvar aquelas pobres vidas. Mas uma coisa seria certa, mesmo que fosse descoberto e morresse, levaria todos os que pudesse comigo.
Não me estragues o motor, voltarei para buscar o carro. – despedi-me, ironicamente.
Ele finalmente arrancou, tinha em mente que iriam conseguir safar-se. Não poderia estar sempre ali para os ajudar a viver, mas a esta madrugada sobreviveram, um novo dia iriam ver nascer. Saquei o telemóvel do bolso, por momento esquecera-me dele ali. Chamei uma ambulância e desci a encosta. Voltava à carrinha, Patrícia estava presa na porta do seu lado. Consegui que se desprendesse com algum esforço, as minhas forças esgotavam-se e a pancada sentida na cabeça durante o embate estava a inchar, ficava tonto e desnorteado. Arrastei a Patrícia para a proximidade da estrada e de um afastado candeeiro na berma. Não me sentia bem, agasalhei o seu corpo ensanguentado e encostei a sua cabeça no meu peito. Os segundos pareciam horas, a ajuda tardava em aparecer, senti-me adormecer, desconhecia o que estava para acontecer.

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

A nova história não sai, não consigo escrever uma palavra mais que seja. A chama da musa extinguiu-se, nenhuma outra tomou o seu lugar, aquele recanto sagrado em mim e que tantas forças e horas de imaginação me deu, está agora sem chama, sem paixão que me assole e devolva tantas e muitas palavras por escrever.

Então, entregue a uma sorte cruel, corri para um refugio.
Num rasgado papel escrevi palavras que sairam de forma dolorosa...


Mulheres bonitas há muitas, as que assemelham a sua beleza interior à aparência exterior, no entanto, são poucas. Tu pertences a esse grupo restrito, és uma dessas doçuras, pelo menos, aos meus olhos.
Não há palavras que possam descrever o que sinto por ti, é algo profundo, vem do meu íntimo e agita a minha vida. É algo carregado de um vasto sentimento de carinho, algo que me faz aproximar de ti, escutar a tua respiração e sentir o teu aroma.
Talvez seja paixão, não tenho a certeza, desde que te conheci passei a desconhecer essa palavra, certezas. Contigo tudo é diferente, é um sentimento novo para mim, nunca antes o senti por qualquer outra pessoa.
Porque fui eu gostar tanto de ti?
Recordo no brilho dos teus olhos o melhor que esta vida tem, no sabor dos teus lábios que existe perfeição e na ternura dos teus gestos que ainda há esperança.
Apetecia-me abraçar-te, ter-te agora junto de mim, talvez não seja possível. A vida por vezes prega-nos destas partidas.
Porque não te conheci anos antes?
Seria algo preparado pelo destino? Talvez.
Agora sinto que a minha janelinha se fechou, o meu mundo contigo acabou, algo nos separou. Só queria uma vez mais abraçar-te, sentir o teu cheiro e deixar-te partir, livre para viveres, longe de mim enfim.

Escutaste a minha alma, incendiaste onde tocaste e deixaste uma leve brisa de paixão por onde passaste. Repete os teus passos, não vejo a hora de te sentir novamente, tocando no meu íntimo e abrindo o meu coração.
Não sonho mais contigo, acordei e vi que continuavas ali a meu lado, naquela cama enorme. Tentei tocar-te, algo me impediu. O teu corpo caloroso dormia docemente, não tive coragem de importunar essa paz. Voltei então a adormecer, regressando ao mundo da fantasia, onde te poderia tocar sem te incomodar.
Que se passa comigo?
Vivo numa mentira, alimento-a com gosto e deixo-me perder na sua fantasia.
Seria isto que imaginei?
Afinal não acordei, tu dormindo a meu lado era um sonho. Esse mesmo sonho de que ainda não despertei, essa mentira que vou vivendo. A única verdade és tu, o teu corpo, o teu cheiro... são bem reais, mas distantes de mim.
Vives na minha imaginação, puxei-te da realidade e fechei-te num recanto só meu, onde te admiro quando quero. Não gostaria que fosse sempre assim, deixar-te gostar de mim seria a solução.
Que te afasta de mim?
Sou eu, bem sei.
Finalmente despertei, não estás aqui a meu lado dormindo.

Dá-me algo com que sonhar...

Terça-feira, Setembro 05, 2006

Cidade Proibida

Sentia-me óptimo, como se tivesse com uma grama e tal de coca nos cornos, fartei-me de dizer merda durante toda a noite, viver sem cessar, chateei quem naquela noite me acompanhou. Tenho pena, muita pena. Não fumei, não me droguei, mal bebi... Andei a cair nos vícios da monotonia. Naquele dia acordei diferente, sentia-me ainda mais parvo, gostava de como me sentia, adorava o que via, saboreava o que tocava. O dia estupidamente passado a trabalhar chegou ao fim, cheguei a casa de noite, o jantar por comer, lá o deixei arrefecer e corri para uma festa com a minha amiga Mara.
Saí para a rua, fui ter com amigos, tantos parvos eles como eu, todos brincámos, todos gozámos. Tinha o cabelo estupidamente arranjado, uma de muitas coisas estúpidas em mim, o vento soprava e criava em mim uma revelia estilista, ficava elitista. Velhinhas assustavam-se, atravessavam passeios, jovens voltavam a cara, sentiam-se incomodados. Sinceramente, caguei e gostei.
O reboliço da noite acabava, deixei a Mara em casa e subi para tomar um último copo. Caí com a Mara na cama, apesar de nada mais termos que amizade entre nós, dormi com ela na sua cama. Envolvi-me nos seus lençóis , sentia-me podre de bêbado, não esperava coisa boa. Não sabia se sonhava, se estava acordado, se morto. Vivia um mundo diferente, estava diante de estátuas, caíam sobre mim... Quis acordar!
Abri os olhos e estava subterrado, certamente não acordado.
Ficava sem oxigénio, estava a perder-me...
Acordei por fim, não dormia de verdade, fechava os olhos, enfim.
No sonho, troquei um olhar com algo desconhecido, nada de esclarecedor me contou, foi uma visão que nada de novo me despertou. Qual coisa generosa, qual coisa poderosa, nunca o bom se revela, esconde-se nos tempos que vamos vivendo, simplesmente vai aparecendo, fazendo o momento.
Ainda era de noite lá fora na rua, temia-se que longa.
No meu modo molengão, relaxado, descabido de responsabilidade, sensível aos sabores da vida e adocicado por uns lábios rosados, paro o que à minha volta gira, capto um momento meu assim.
Apetece-me cobrir... Sei lá, os montes de areia, gritar bem alto e dizer que sou assim. Estava coberto de argila, enterrado no meu próprio covil, inclinei a cabeça para o lado, nada vi, nada senti. Derramava uma lágrima em silêncio. Continuava bêbado, voltei a cair nas garras de uma noite de alucinação.
Acabou-me a merda da história do mundo girar, sempre o fez, não precisa que eu o repita constantemente em tudo o que é frase. Sempre continuará...
Há coisas que nunca mudam, a vida, o estilo das coisas, o jeito de viver e para muitos a maneira de amar. Fecha-se um novo ciclo, o mundo continua a girar, tenta-se recolher pequenos pedaços de nós desfeitos no exausto e ardido antro de paixão, o mundo continua a girar, consegue-se levantar para mais tarde se cair, continua a girar, sofre-se cá dentro, e este não pára.
Foi como condensar todo o mundo num só grito.
Torno a acordar, desta vez mais sóbrio e sem merda que pensar.
Não aguentava mais estar deitado, não deveríamos ter bebido tanto na noite anterior. A doce Mara voltava da casa de banho, tinha feito nova viagem para vomitar. Enquanto ela limpava a boca e esfregava os olhos, vesti as minhas roupas deixadas caídas no chão do seu quarto e despedi-me da minha amiga com um beijo na testa. Conduzi lentamente até casa, entrei silencioso e adormeci logo no sofá.
O dia foi passando, ia notando quando um olho ia abrindo de vez em quando. Acordei completamente quando o telemóvel tocou, era a Emiliana. Estava preocupada comigo, tinha-me visto abandonar a festa num estado lastimável. No entanto, sentia-me quase recuperado e pronto para outra, bem, quase.
Tinha que me despachar, havia novamente festa programada para aquela noite. Não teria de dizer boa noite a alguns merdas que não queria, era privada, com algum glamour e com um gosto especial. A Mara trabalhava para a imobiliária que tinha tomado conta da exploração de uma casa dentro do Castelo de Palmela, a mesma onde decorriam as quentes festas organizadas pelo falecido Miguel. Seria a última noite antes dos novos donos tomarem conta do espaço, faríamos lá a festa de despedida. A noite teria outros interesses associados para serem celebrados, o nosso amigo Mário estava completamente recuperado do tiro que levou na nalga, naquela mesma casa, e juntava-se a nós naquela noite. Mara levava uma amiga nova, chamada Débora e corriam rumores que era linda.
Como combinado, levei a Emiliana no carro comigo. Na chegada ao Castelo senti um arrepio, era a primeira vez que regressava àquele local após a batalha campal ocorrida dentro daquelas muralhas depois de uma festa de arromba e que teve como desfecho trágico a morte do Miguel e todos os acompanhantes no seu potente jipe que me perseguia. O pior ficava para trás, a noite era de festa e essas lembranças depressa foram esquecidas quando entrei no salão nobre e vi os meus amigos. Estávamos todos os cinco esperados naquela ocasião e duas raparigas servindo bebidas. Todos nos servíamos como queríamos, começava uma festa. Ficámos remetidos a uma pequena parte do Castelo, somente na casa rústica que o Miguel tinha alugada para as suas festas de culto. De copo na mão, sempre cheio, percorremos os quartos onde antes alguns de nós tinham partilhado aventuras e desenrolado cartadas no jogo de swing. Os tempos eram outros, essas aventuras não mais se passavam. Descemos para as caves, haviam dezenas de garrafas de bom vinho por abrir, os nossos olhos arregalaram-se e desejavam que fossem incluídos no banquete. O espaço era bonito, estava rusticamente bem decorado, ao fundo num dos cantos da adega, estava uma estátua que me parecia familiar. Não me recordava ao certo onde teria visto tal figura, aproximei-me e toquei no delicado objecto. Era uma estátua do meu tamanho de um guerreiro asiático feita em terracota. Estava impressionado com a sua magnificência e comecei a lembrar-me de onde tinha visto algo semelhante. A expressão asiática na face da figura, o mesmo formato da armadura e a posição de combate do guerreiro eram idênticas às que tinha visto no meu sonho embriagado.
Contei a todos o meu sonho, sorriam e gozavam discretamente.
Abrimos duas garrafas de vinho e continuámos a nossa festa na cave. Eu permanecia especulativo, estava inquieto, aquela figura medieval desviava-me a atenção. Havia algo de perturbador naquela estátua, o guerreiro não tinha uma arma na mão, em seu lugar possuía apenas um velho papel dobrado. Estava curioso, tentando não derrubar o artefacto, peguei no enrugado papel e vi a surpresa que nele escondia. Parecia um velho trapo, uma espécie de papiro antigo com um mapa desenhado. Não eram perceptíveis as localizações concisas daquelas indicações, nem em que ponto do mundo haveria algo semelhante ao que ali víamos desenhado, mas esconderia algo de importante, assim o parecia pela natureza e trato do papel. Alguém se tinha dado a bastante trabalho.

Mapa do Tesouro

Mara reconheceu a origem da estátua, o soldado em terracota que estava no nossa adega era um dos guerreiros de Xi’an que deveria estar junto do túmulo do seu imperador chinês. Era super valiosa de acordo com o seu detalhe e ainda bom estado de conservação, a nossa amiga não sabia porque razão teria ido parar perdida àquele local. Na base da estátua estava uma carta, era do irmão do Miguel, o mal afortunado e falecido Heitor. As palavras no papel contavam que a estátua era uma oferta para o seu irmão Miguel e, de acordo com o restante texto, parecia ter sido enviada na fase final da sua vida, pouco antes de ser capturado e se ter enforcado na prisão. Nela, avisava o seu irmão que estava sendo perseguido pela Agência e que pressentia que a sua vida estaria certamente ameaçada. Deixava-lhe então o seu maior tesouro, caso algo lhe acontecesse, fosse ele o primeiro a apoderar-se do seu espólio. Na carta não fazia referência ao que se tratava concretamente, apenas mencionava que existia outra peça do puzzle que lhe iria fazer entender a localização exacta do primeiro mapa que lhe enviara, estando guardada na sua casa de férias em Tenerife. A carta estava assinada com o nome Heitor e este deixava uma última nota de rodapé, Reflecte e flutua.
Por ironia do destino, Heitor não pode contar com a colaboração do seu irmão Miguel, também este havia sido assolado por uma morte trágica e quem iria tentar reclamar o seu tesouro seria quem directamente esteve envolvido na destruição da sua família. Surgia de imediato o interesse pela descoberta, teria de convencer os meus amigos a embarcarem nesta aventura comigo, mas não foi necessário grande esforço. A excitação era tanta que fazíamos planos para organizar uma exploração em busca de um tesouro que desconhecíamos o que continha ou sequer se existia.
Aquele mapa era uma herança do Heitor, sem mais ninguém para o reclamar, empurrava-nos directamente para a ilha de Tenerife em busca da outra peça do puzzle que nos faltava e assim descobrir onde estaria tal riqueza. Nessa mesma noite planeámos a viagem, precisávamos de dinheiro, a Mara ficava encarregue de tentar vender a estátua e assim financiar a nossa expedição.
O problema estava que não sabíamos onde era a casa do Heitor, o seu nome não aparecia nas listas telefónicas de Tenerife e a ilha era enorme demais para procurar uma agulha num palheiro. Só havia uma pessoa que talvez soubesse algo que nos pudesse ajudar, não estava certo que o faria ou fosse a melhor alternativa mas de momento seria a única possível. Na manhã seguinte, enviei um email para a Patrícia explicando a situação, esta era a única forma encontrada para contactarmos. Depois de almoço recebi a sua resposta, ela sabia da existência do mapa que possuía e desconfiava que esconderia algo valioso, tão importante ao ponto do Heitor ter abandonado a Agência e isso levado à sua morte prematura. Ela indicou-me a morada da casa do Heitor em Tenerife, esta pertencia à sua filha após a sua morte na cela de prisão. Seguíamos quatro pessoa para Tenerife, Mara não nos pode acompanhar. Eu e o Mário tratámos da logística e as meninas fizeram as malas. Iríamos ficar alojados num hotel em Puerto de la Cruz, na parte norte da Ilha, a poucos quilómetros da casa do Heitor. Partimos na nossa aventura quatro dias depois.
Tudo parecia calmo na nossa chegada às Canárias, viam-se imensos turistas, bastantes guias e o calor era insuportável. Nesse mesmo dia alugámos um carro e descobrimos a casa, era uma pequena mansão em plena zona montanhosa, com vista para o mar. não parecia guardada, haviam poucas casas na vizinhança e a zona era sossegada. Regressámos àquela zona no final do dia para levantar menos suspeitas, sem avistar vizinhos, tomámos a casa de assalto. Tinha o alarme ligado, teríamos de ser rápidos antes que dessem conta que havia algo de errado na casa que seguravam. Cortei a alimentação da pequena central de alarme, a bateria não reagiu, como esperado, estaria estraga após meses sem qualquer funcionalidade. Não que soubesse alguma coisa sobre assaltos a casas, mas a electrónica era universal. Entrámos silenciosos, partindo um pequeno vidro na porta, vasculhámos toda a casa. Nada, não encontrávamos absolutamente que se assemelhasse a um mapa. Nenhum papel nos mostrava o que procurávamos, talvez estivéssemos a procurar nos sítios errados, talvez procurássemos por algo errado. Começámos a mostrar sinais de cansaço, perdíamos a paciência, o alarme não tinha disparado mas instalava-se entre nós um clima de dúvida e inquietação acerca de toda a viagem. O nervosismo foi crescendo, ficava chateado com a situação e um pequeno pisa papeis em cima do piano levou com a minha ira. Peque no pequeno objecto de pedra de descarreguei a minha impaciência contra um espelho que se encontrava numa das paredes da sala, sobre a lareira. Nem vi os cacos de vidro caírem no chão, sabia o que tinha feito, sentei-me de imediato no sofá.
Olha, aquela tábua... – dizia a Emiliana.
Mário aproximou-se dela, a principio não liguei, mas levantei-me de imediato quando a Débora se cercou deles e começaram a rir. A base do espelho que tinha partido era uma madeira em forma de concha com algo cravado na sua superfície. Retomava algum gosto pela expedição, retirámos os restantes pedaços de vidro da base e conseguimos ver na totalidade o que tínhamos descoberto. Era aquela a nova pista, uma velha concha de madeira, não maior que uma bola de futebol. Incidindo a luz sobre as gravuras, decifrámos que clareza que se tratava da Colômbia, víamos assinalada a capital Bogotá e uma linha traçada para Cali, na região de Valle del Cauca. A linha não parava naquela zona, seguia até um ponto cravado junto à costa, em pleno Oceano Pacifico no seguimento do rio Naya. Seria para esse ponto, possivelmente a Ilha desenhada no papiro enrolado que estava na mão do guerreiro em terracota, que teríamos de seguir.
Regressámos em seguida ao hotel, pouco passava da hora habitual de jantar. A agência de viagens no hotel ainda estava operacional e marcámos de imediato a nossa viagem para a Colômbia, aquela seria a nossa última noite em Tenerife.
O Mário e a Emiliana estavam enérgicos e excitados, ainda foram sair para a noite. Passavam-me tantas outras coisas pela cabeça que não divertimento em bares e discotecas, estava entusiasmado com a descoberta mas as incertezas de que poderíamos alcançar algo eram diminutas, uma longa viagem até à Colômbia, todos os perigos inerentes àquele país e a custosa travessia de uma região de florestas densas em penhascos enormes e passando ao lado de uma guerra civil não eram pontos fortes a nosso favor. Fiquei pelo hotel, a Débora fez-me companhia ao jantar. Tinha ficado uma noite agradável para nós, jantámos numa varanda quase sobre o mar. As luzes das velas notavam-se mediante a fraca luz artificial, o bom serviço do restaurante e delicioso sabor da comida deixavam-nos satisfeitos e saciados. O ambiente era caloroso e bebemos um pouco demais, trocámos o vinho pelo bacardi e as nossas emoções ganhavam outras expressões. Nenhuma palavra quente trocámos, os nossos olhos queriam dizer tanto, a impaciência e os movimentos repetidos das nossas mãos mostravam muito mais. Nada dizíamos, no que seria quem pensávamos.
O jantar tinha terminado, subimos calados no elevador, caminhámos em passos lentos para os nossos quartos. Continuávamos em silêncio, despedi-me da Débora com um simples beijo na face, os lábios demoravam a descolar da sua pele macia. Os desejos eram outros, mas nada mais se passou. Não queria, não poderia. Desconhecia o que se passava na cabeça dela, senti por momentos o sabor a desilusão na sua expressão. A Débora abriu a porta do quarto e fechou-a atrás de si sem se despedir, fui para o meu, a meia dúzia de passos daquela porta.
Antes de rodar completamente a maçaneta da porta do meu quarto, senti o desejo crescer, a necessidade de me aproximar da Débora e molhar os meus lábios nos seus, sentir o calor do seu corpo. Tornei a fechar aquela porta, não era ali que me traria felicidade naquela noite. Corri como um louco, não mais que quatro metros, bati na madeira da sua porta e no segundo toque a porta abriu-se, Débora aparecia diante de mim, aceitava-me junto de si. Entrei lentamente no seu quarto, não falávamos, olhávamos fixamente nos olhos um do outro, as minhas mãos estavam inertes, eram arrastadas pelo meu corpo e esperavam um sinal de desejo para tomarem conta do momento de paixão. A porta atrás de nós fechava-se, a bela mulher colou o seu corpo no meu, estava feita a faísca. Débora estava quente, o seu corpo fervia. Despiu-me a camisa partindo alguns botões, sentia nas suas mãos sobre mim o calor aumentar. A sua boca acercou-se do meu peito e desceu lentamente para a cintura, beijando e chupando cada pedaço meu que os seus lábios encontrassem. Permaneci de pé encostado a uma parede, estava completamente imóvel, dominado por aquela mulher. Deixava que ela seguisse livremente todos os nossos instintos, baixou-me as calças sem as desapertar e mordeu-me o corpo através dos boxers, excitando-me com o seu calor, pedindo que fosse a minha vez de continuar o jogo. Puxei pelo seu cabelo, queria provar os seus lábios, saborear o calor da sua boca. Estavam doces, conservavam ainda o sabor do bacardi. Débora queria brincar um pouco mais, mordeu-me os lábios com alguma violência, a pequena dor que senti foi rapidamente esquecida pelo calor húmido da sua língua. Virou costas e afastou-se, vagueando quase nua pelo quarto escuro provocando-me com o seu sensual caminhar, caindo depois sobre a cama, aguardando pelo meu corpo, querendo o meu calor. Trocámos uns beijos calorosos e algumas carícias. A bela menina estava tensa, massajei as suas costas, comecei calmamente pelos ombros, humedecendo a sua pele com os meus lábios, antes de passar com o calor das mãos. O seu corpo reagiu de imediato, libertando um calor imenso, começando ela a suspirar a cada toque mais provocante que lhe ia dando.
A última peça de roupa que cobria o seu corpo levou horas para sair, em toda a sua pele toquei e acarinhei. Perdia-me constantemente no seu peito e descia sem rumo pelo seu corpo, massajava as suas pernas e no calor dos seus lábios me reencontrava. Estávamos bem, sem a pressa inicial, o amor fluía e o desejo controlava os nossos movimentos.
O tempo avançava, a noite segui o seu percurso habitual e uma leve brisa marítima entrava sorrateira pela varanda do quarto, refrescando os nossos corpos exaustos. Fizemos amor, o tempo deixara de ser importante, sentimos que acabámos quando os nossos corpos se sentiram saciados e o nosso desejo passou de carnal a apreciar o belo momento calmo que desfrutávamos, quisemos adormecer ali bem juntos, enrolados um no outro.
Tomámos um duche em seguida, ainda com as toalhas enroladas, procurámos o vento suave que corria no nosso balcão de varanda, partilhando uma cadeira uma cadeira e todo um céu estrelado que nos servia de absolvição. Foi bom, foi doce, soube a calor de Verão.
Adormecemos naquela varanda virada para o mar, os nossos corpos despidos procuravam aquecer entre si, a temperatura tinha baixado na rua. O novo dia vinha a caminho, o Sol começava a nascer lá ao fundo no mar, ainda bem longe sobre o horizonte. Bocejei, a bela Débora continuava no seu sono sem que nada a importunasse. Os nossos braços estavam agarrados nos meus, aninhava a sua cabeça no meu peito e naquele recanto se deixava ficar.
Não mais fechei os olhos, era um momento bom demais para desperdiçar sonhando quando o poderia viver ao vivo. Entre o barulho das ondas que escutava e me embalava, ouvi outro por trás de nós. A porta do quarto fechava-se, era a Emiliana que tinha entrado. Chegava da noite, regressava sozinha, deveria ter largado o Mário no nosso quarto, mas pela hora tardia, não havia de lá saído sem diversão. A rapariga entrou e nada nos disse, foi á varanda, olhou-nos de perto e tornou a entrar no interior do quarto. Caiu como que inanimada na cama onde antes havíamos feito amor. Parecia cansada, depressa fechou os olhos e adormeceu.
Aquele seria o nosso último dia em Tenerife, tínhamos o mapa que tanto queríamos e as passagens para o outro Continente estavam marcadas para a tarde que se seguia. Acordámos quase em cima da hora de almoço, aproveitámos as poucas horas que nos restavam da estadia como se fossem férias e passeámos pela praia antes que o táxi nos viesse buscar para o Aeroporto. A areia preta das cinzas vulcânicas serviu-nos de sala de espera, apanhávamos os nossos últimos raios de Sol naquela ilha paradisíaca.
O táxi chegava por fim, no final daquela tarde, voámos entre capitais fazendo escala por Madrid. A travessia foi longa, mas na manhã do dia seguinte aterrávamos em Bogotá.
O clima era bastante húmido, suávamos por todos os poros. Nada conhecíamos da cidade, a confusão era enorme, esperávamos por um táxi na porta do Aeroporto e a nossa vez nunca mais parecia chegar. Era tudo tão diferente do que estávamos habituados, as pessoas, os costumes e toda aquela azáfama e turbilhão urbano que não nos dava descanso.
Fomos para o primeiro hotel que o taxista nos recomendou, tínhamos que descansar e planear como atravessar cerca de quinhentos quilómetros naquele caos social. Grande parte da viagem seria feita por comboio, até Cali, depois teríamos de nos sujeitar a uma longa viagem de autocarro por montanhas agrestes. Quando descêssemos da camioneta, esperávamos um dolorosa caminhada, que não se esperava nada fácil, até alcançarmos a baía assinalada no mapa e de lá vermos o mar e a nossa ilha do tesouro.
Após o jantar, as meninas subiram aos quartos para dormirem. Saio para a noite com o Mário, queríamos conhecer um pouco da noite da cidade que nos acolhia. Entrámos no primeiro bar sem bêbados na porta que descobrimos, bebemos dois copos de rum e seguimos para uma discoteca, seguindo um pequeno grupo de mulheres. A música estava forte, as bebidas vinham chegando, o ambiente ficava ao rubro. Uma bela senhora aproximou-se de nós, bem vestida e com uma cara linda. Meteu-se connosco, brincou primeiro com o Mário e virando-se depois para mim. Mordeu-me a orelha com a ponta dos dentes, logo depois de se apresentar, o seu corpo roçou na minha cintura e os seus dedos enrolaram-se no meu cabelo solto. Deixava-me levar pelo tom da música, o sensual dançar do seu corpo enchia-me de excitação, beijei-lhe carinhosamente o pescoço, pedia ardentemente pelo caloroso sentir dos seus toques.
Aquela música acabava, trocada por uma outra mais calma. Ficámos parados no meio da multidão.
Te quiero. – sussurrou ela no meu ouvido.
Escutava o seu espanhol num tom melodioso, a sua voz era quente.
Ven a mi... Te quiero seducir. Dame tu cuerpo.. – acrescentou, agarrando forte na minha braguilha e fazendo a sua mão entrar lentamente depois de a desapertar. Fiquei louco de desejo, completamente rendido àquela colombiana. Começava a gostar daquele país, nem tudo parecia mau.
Mas o seu propósito era diferente do meu, passadas as apresentações calorosas e os jogos de cintura, a bela mulher insurgiu-se com uma proposta, perguntando-me quanto pagaria por uma noite com ela. Sorriu em seguida, desconfiei logo que havia uma contrapartida para uma aproximação tão agressiva e nada natural, estando algo mais em jogo que simples prazer, o seu desejo pelo recheio da minha carteira era mais que evidente. Queria cona, talvez dela, mas nunca pagaria por ela.
A elegante prostituta facilmente descodificou a minha resposta e partiu para um novo alvo de ataque naquela noite. Tanto eu como o Mário estávamos bêbados, ficávamos saciados para aquela noite e regressámos ao hotel.
O outro dia começou bem cedo, mal dormimos e quando realmente despertámos já estávamos a bordo de um comboio a caminho de Cali, passando pelas montanhas a caminho do mar. a viagem tornou-se menos cansativa que o esperado, tínhamos um compartimente de vagão só para nós com apenas outro turista partilhando-o. Chamava-se Bruno e vivia em Lisboa, a sua cara não me era estranha, já o teria visto certamente em qualquer outro local que passara. No entanto, nada mais descobri. O rapaz era reservado e pouco falou durante toda a viagem. O baloiçar das velhas carruagens e as florestas vastas de perder de vista embalaram-nos num sono pesado, acordámos com um oficial militar mandando-nos levantar, tínhamos chegado a Cali. O Bruno não estava mais ali, o cabrão já tinha saído mas não nos acordou.
Cali não nos apresentava grande história, pouco das suas ruas vimos. Era quase de noite, corremos para o autocarro que nos aguardava bastantes ruas abaixo da estação de comboios. Não conseguia pregar olho no autocarro, era uma velha relíquia que havia certamente cruzado muitas guerras, os tiros de balas das milícias nos assentos desconfortáveis e o cheiro a gasóleo queimado, o suor que nos escorria pelo corpo, os putos que subiam às janelas pedindo dinheiro sempre que se atravessava uma aldeia no interior do vale e algumas galinhas que outros passageiros transportavam eram nossos companheiros de viagem. Custou muito o passar daquele tempo, olhando agora para a janela embaciada onde tinha a minha cabeça encostada, via a claridade tomar conta da floresta em redor, o Sol aparecia e um novo dia estava a nascer.
Finalmente a camioneta parou, não aguentávamos mais. Deixou-nos numa aldeia próxima do mar, avistámos de imediato o cume descrito no mapa encontrado em Tenerife. Comemos numa tasca na aldeia, levantámos suspeitas de imediato, o espaço era controlado por milícias, possivelmente traficantes de droga. Fizemos o papel típico de turistas, olharam para nós de cima abaixo, viram que não constituíamos ameaça e não colocaram qualquer entrave à nossa passagem pelo seu ponto de controlo.
A cadeia montanhosa estendia-se do vale da aldeia onde estávamos para o nosso ponto de destino, uma baía que se escondia atrás do cume presente no mapa. A pobre estrada de pedras e terra batida por onde o autocarro nos tinha trazido perdia-se no interior da densa floresta e teríamos de continuar a pé dali para a frente.
El Icod del Diablo, o canto do Diabo, era o cume montanhoso para onde nos dirigíamos. A baía estava atrás da sua encosta que dava para o mar, teríamos de o contornar, seria impossível para nós escalar o pedregoso cume. Parecia que tínhamos o nosso ponto de destino tão próximo, mas na realidade estávamos bastante longe. Desconhecíamos os perigos que encontraríamos ao longo da caminhada e a vasta vegetação eram factores suficientes para nos preocuparem.
Não havíamos dormido nada no velho autocarro, todas as valas e buracos foram sentidos, para além do medo e da incerteza que nos acompanhava a cada passo dado no desconhecido, também a constante dor nas costas estava bem presente. Tínhamos deixado a aldeia para trás naquela manhã e começado a caminhada com os primeiros raios de Sol, já este havia corrido todo um horizonte e iluminava a sua última hora naquele dia antes de se pôr. Chegámos de noite ao vale do Icod del Diablo, as lanternas eram fracas naquela noite de Lua nova e estávamos exaustos. Não havia tempo ou forças para montar um acampamento, qualquer movimento mais seria um sacrifico para os nossos corpos debilitados. Pousei a mochila, vagueei um pouco nas redondezas procurando um sitio onde pudesse cagar, continuava demasiado próxido deles. O chocolate deu-me a volta à barriga, tinha sido apenas o que comemos durante todo o dia de caminhado sob um intenso calor. Fui a correr para a mata cagar. Os estragos pareciam grandes, tinha as tripas em alvoroço. Estavam todos a poucos metros de mim, tentava ajeitar-me encostado a um tronco de árvore, aromatizando os seus ramos com toda a essência de uma noite ao ar livre. O tempo ia passando, não estava com vontade nenhuma de me levantar daquela posição, tinha gasto as últimas forças a cagar, parecia confortável e um óptimo local para passar um serão. Senti-me adormecer, os olhos pesavam, as mãos estavam caídas pelos joelhos, a cabeça tombava sem direcção. Não senti despertar, mas acordava certamente. De olhos abertos e movimentos revitalizados, sempre de lanterna na mão, iluminava a vegetação tentando avistar cobras e outros pequenos bichos que não eram para ali convidados. Nada de estranho surgia, deixei tombar a lanterna com o cansaço e algo reflectiu de uma árvore. Puxei imediatamente as calças para cima, sem me limpar. Corri, pouco, parei e voltei a iluminar o que me tinha assustado. Não me podia deixar domar daquela forma pelos meus medos, calmamente, aproximei-me e começava a ver alguns reflexos ganharem formas. Parecia-me algo familiar, continuei aproximando-me, ainda que a medo, quando finalmente me apercebi do que tinha diante de mim. Chamei o Mário e as meninas, vieram a correr, pensaram que me tivesse acontecido algo.
João, que foi?! – gritava o Mário, aproximando-se.
Olha, olha para ali. – disse eu, apontando na direcção de uma velha carcaça de avião.
Vasculhámos o aparelho, encontrámos ossadas de corpos na frente, fazia muito tempo que ali estavam. O avião era pequeno, no compartimento de cargas estavam alguns caixotes e as raízes das árvores que o abraçavam tomaram aquele lugar sinistrado como local onde cresceriam. A nossa curiosidade era bastante, desconfiávamos do que se tratavam aquelas caixas em madeira, não foi surpresa quando abrimos uma e vimos dezenas de sacos contendo pó branco.
Isto é cocaína! – exclamava o Mário, depois de provar o produto.
Como sabes, porra? – perguntei-lhe.
Ora João, velhos hábitos nunca se esquecem. Está pura... Isto vale milhões. – acrescentava.
Sabia que o Mário consumia, não o fez naquela viagem, mas em muitas ocasiões anteriores. As nossas mochilas de campismo estavam completamente cheias, mas ainda assim, ele conseguiu arranjar espaço na sua para arrebatar dois daqueles sacos, tal era o seu desejo pela coisa.
Abrimos outros caixotes, o que se desvendava era igual. Dispusemos algumas tábuas partidas sobre o chão lamacento da estrutura do avião e utilizámos uns sacos como almofada. Acordámos na manhã seguinte com a forte chuva que caía, o bater da torrente de água na estrutura do avião cedo nos despertou. Ficámos amedrontados, parecia que a frágil carcaça ia ruir a qualquer instante e seriamos arrastados pelas chuvadas floresta abaixo. Ficámos reticentes em dar um passo fora do nosso refugiu, mas fomos obrigados a partir à medida que a água entrava dentro do avião. O caminho pela frente parecia ainda mais longo, não havia tempo a perder. Aventurámo-nos no diluvio tropical, levámos mais dois dias e duas noites a alcançar e transpor o vale do Icod del Diablo, chegando por fim à baía. A descida para a praia foi demorada, a água começa a secar nos nossos cantis e as pernas tropeçavam entre passos falsos dados em rochas soltas que deslizavam encosta abaixo.
Era novamente de noite, no fim do quinto dia na Colômbia, não mais sentíamos os mosquitos nem as picadas constantes no corpo, a água lamacenta sabia a néctar e a única fruta que comíamos eram um manjar de deuses. O frio chegava com a noite e as nossas roupas encharcadas em suor tornavam-se incómodas, precisávamos de aquecer, estávamos perdidos naquela baía deserta, no meio de nada. O Mário saiu com a Débora para recolherem paus e troncos que nos aguentassem uma fogueira, fiquei com a Emiliana e uma lanterna no centro do nosso pequeno acampamento rudemente montado.
Levavam algum tempo, havia pouco claridade e não sabíamos o que se escondia para lá daquela praia. Longos minutos depois, regressava o Mário para junto de nós, estranhámos vir sozinho. Perguntei-lhe pela Débora, ele não sabia dela. Tinha se afastado dela para mijar colado a uns arbustos quando a vira pela última vez, apanhado paus para um saco de plástico e seguindo na nossa direcção.
Não sabíamos da Débora, tinha vindo na direcção da praia mas nunca havia chegado de novo perto de nós. A nossa amiga estava desaparecida, ainda era prematuro, mas temíamos dezenas de coisas más que lhe pudessem acontecer. Procurámos a noite toda, nada, nem um sinal encontrámos do seu rasto. O céu estrelado clareava com o aproximar da manhã, a noite estava de partida e também nós teríamos de regressar ao acampamento.
Chegámos exaustos, perdemos o rasto dos nossos passos por diversas vezes e foi complicado retomar o caminho certo. Não tivemos tempo para descansar, o ambiente em redor das nossas tendas estava diferente, a sua disposição parecia ter sido alterada e as nossas coisas remexidas. Pousámos as pesadas mochilas de campismo na areia, reparei que a lona lateral da nossa tenda tinha sido rasgada, era um corte perfeito de cima a baixo. Os nossos sacos-cama estavam abertos e furados, alguém tinha forçado a entrada com uma faca, no entanto, o pouco que havíamos deixado dentro da tenda permanecia no seu interior apesar de destruído.
Foda-se! Que merda é esta? – gritava o pobre Mário.
Temia que fosse obra das milícias que patrulhavam a região e também tivessem levado a nossa amiga. O coração apertava, nenhum tesouro no mundo valeria uma perda tão grande nas nossas vidas. Ficámos desolados.
A Emiliana chorava, entrava e saia da tenda vezes sem conta, retornava a entrar e deitava-se sobre o amontoado de sacos-cama revirados. A sua impaciência deu frutos, a doce rapariga encostou a cabeça na pilha de tecidos e sentiu algo rijo debaixo da sua cabeça. Tememos que fosse um bicho, levantámos os sacos-cama com cuidado e deparámos com algo estranho mas que nos indicaria algo de novo. Era um bilhete escrito numa manga de camisola com uma faca espetada, algo que nos havia fugido da atenção momentos antes. Reconhecemos de imediato a peça de vestuário, era da nossa amiga Débora. Ficámos aterrorizados, não estávamos sozinhos.
Mário leu o que dizia, em voz alta...

Tenho a vossa amiga.
Desvenda o resto do mapa ou ela morre.
Estou de olho em ti, não me desiludas.

Patrícia xxx


Fiquei sem reacção, devo ter ficado pálido, completamente incrédulo. Desconfiei das milícias colombianos e traficantes de droga e no fim era a pessoa que menos imaginava, a minha velha conhecida Patrícia. Tinha cometido uma falha grave ao pedir-lhe ajuda para localizar a casa do Heitor em Tenerife. Sabia que ela não seria de confiança, já tantas provas me havia dado no passado, ficou entusiasmada com a possibilidade de eu realmente estar na pista correcta e quis ser ela a reclamar o trofeu. As cosias tinham chegado a um ponto critico, agora, mais que um estúpido tesouro, era a vida da minha amiga que estava em jogo.
Quem é esta Patrícia? – perguntava a Emiliana.
Tive de lhes contar toda a história, os detalhes eram tantos e tão complexos que era completamente dia quando terminei a minha versão, connosco ali sentados na tenda.
Porra, e tu conheces esta gaja?! – o Mário revoltava-se.
Era evidente o que a Patrícia queria, os nosso passos devem ter sido seguidos desde o momento que iniciámos a expedição, logo após o meu email para ela. A Débora era sua refém, servia como moeda de troca para o que pudéssemos encontrar no fim do caminho traçado, queria lhe fizéssemos o trabalho sujo e no fim aparecia para recolher o achado.
Desconhecia que mistério tão grande aquelas duas partes de mapa escondia, mas acabava de se tornar indispensável para a continuidade das nossas vidas. Com o nascer do dia, da baía, avistámos a Ilha que perseguíamos. Teríamos de alcançá-la, não possuíamos um barco, o percurso teria de ser feito a nado. O mar parecia calmo, deixámos a tenda e os mantimentos para trás naquela praia, levávamos as mochilas com pouco peso para que a travessia fosse possível de se realizar. Com sorte, depois de passarmos a forte rebentação das ondas, as correntes nos levassem na direcção desejada.
Lançámo-nos ao mar, mas assim não acontecia. Estávamos há mais de uma hora dentro de água, nadávamos como podíamos, lutando contra a maré mas a travessia parecia interminável. Começávamos a ficar com a garganta desidratada da muita água salgada que tínhamos involuntariamente engolido.
Quase sem forças, fizemos um esforço final e conseguimos apanhar a corrente que nos levaria de encontro à rebentação das ondas numa das praias daquela Ilha. Sentimos terra firme debaixo dos nossos pés, não nadávamos mais, éramos simplesmente arrastados a reboque pela vontade do mar. estávamos mortos de cansaço, os nossos corpos exaustos foram levados pelas ondas até à areia da praia. Não nos levantámos, ali ficámos caídos, jogados fora das suas águas pelo mar e adormecemos.
Acordávamos novamente numa terra que não era nossa, após tantos despertares em tão poucas horas sentia-me mentalmente perdido, deslocado do tempo e das horas. A primeira coisa que fizemos foi procurar comida, tínhamos o estômago completamente vazia desde a noite anterior e já era final de tarde do dia seguinte. Juntámos alguma fruta, preferimos não nos aventurar para além da praia, deixar a vegetação para mais tarde, quando decifrássemos o resto do mapa em papiro que carregávamos, tentando localizar-nos naquela Ilha. A notícia não foi agradável, pelo desenho do litoral e os penhascos que nos rodeavam, tínhamos sido arrastados pela corrente para a parte norte da Ilha, tal como indicava a bússola. Teríamos de chegar ao centro da mesma, passando pelos penhascos que circundavam a praia, seguindo o denso planalto e encontrando a cascata. As indicações acabavam ali, o nosso destino final não nos escaparia por muito.
Ainda estávamos cansados, a comida era pouco para tanta fome. Criámos um pequeno ponto de descanso, sem tenda ou sacos de cama, usámos folhas caídas de palmeira para nos abrir do frio da noite que chegava.
Emiliana acordou-me a meio dessa noite, não conseguia adormecer e pediu-me que fosse com ela dar uma volta pela praia. O Mário dormia profundamente, nem deu conta que nos tivéssemos levantado. Fomos vagueando pela praia, sem necessidade de lanternas, apenas iluminados pela Lua crescendo e o seu reflexo nas águas límpidas daquele paraíso.
Que se passa Emiliana? – perguntei.
Nada, apetecia-me passear, só isso.
Parei junto da beira mar para apreciar o plâncton brilhar na água, era lindo.
A bela rapariga parou a sua caminhada e cercou-se de mim.
João, achas que te ignoro? – perguntava ela.
Não...
Fez-se silencio nas nossas palavras, por momentos, esquecemos que a nossas últimas frases nunca tinham existo, não fazendo sentido naquele instante. A Lua continuava a brilhar no mar, o plâncton expelia as usas belas cores vivas e criava um espectáculo que nos entretinha.
O silêncio foi quebrado...
Mas tento. – acrescentava ela.
Não há razão para isso... – dizia eu.
Há, muita. Não consigo estar assim tão próxima de ti. – respondia ela imediatamente, encurtado o espaço entre os nossos corpos e agarrando-me com força na mão.
Olha, o mar está tão lindo.
Largou-me a mão e correu para dentro de água, segui os seus passos e mergulhámos vestidos. Quando regressámos à superfície, o plâncton afastava-se e criávamos o nosso próprio espectáculo. A troca de olhares levou aos beijos, estavam molhados, as caricias pelos corpos, as roupas que saiam coladas da nossa pele...
Acabámos na areia da praia, enrolados um no outro, fazendo amor e passando aquela noite juntos. Estávamos caídos, mortos de cansaço. A areia arrefecia com o entardecer da noite, a Lua continuava em cima no alto e as estrelas escutavam os nossos suspiros. Ali estavam dois amigos, abraçados, aquecendo os corpos numa noite fria.
O Mário acordou-nos na manhã seguinte, vagueei pela praia da noite anterior, completamente deserta. Aninhava os meus pés na areia, estava fria, escutava o mar a poucos passos de mim e avistava, por entre a neblina, o caminho que nos levaria a bom destino.
Seguimos a nossa sorte, depois de uma desgastaste escalada por um penhasco inclinado, chegámos ao vasto planalto mostrado no mapa, estávamos na direcção certa e sentíamos as esperanças de um bom desfecho aumentarem a cada passo decisivo que dávamos. Não podíamos acreditar no que tínhamos à nossa frente, todo o planalto estava transformado num longo e vasta plantação de coca. Poderíamos estar a ser observados, corremos na direcção da floresto o mais rápido que podemos.
O nosso destino glorioso era interrompido, rapidamente fomos cercados por um homem armado que nos obrigava a deitar imediatamente no chão, connosco ali tão próximo de entrarmos novamente na densidade da floresta. Era um traficante de droga e estávamos no seu campo de plantação de coca.
O velho Mário mostrava a sua mala ao mitra que nos cercava. O traficante ficou interessado no seu conteúdo, mexia e provava um dos sacos de coca que estavam na mala do nosso amigo. Seria aquela a nossa única hipótese de fuga, enquanto o Mário o distraía, levantei-me bruscamente e apanhei-lhe a arma. Não a conseguia sacar, estava presa em volta do seu braço e quase levava um tiro. A Emiliana apercebeu-se e deu com a sua mochila na cabeça do traficante, por pouco não me acertou também, o homem ficou algo combalido e caiu no chão depois de sentir novamente o peso da mochila sobre a sua cabeça.
Deixámos tudo para trás, malas e tudo mais. Os sacos de cocaína tinham dado os seus frutos. Tínhamos ganho algum tempo, não muito mas o suficiente. Escutávamos os disparos atrás de nós, não era apenas o outro homem correndo atrás de nós, as balas saiam de mais armas. Mais depressa chegávamos ao nosso local marcado, apenas temíamos que nos seguissem.
Sempre de mapa na mão e seguindo religiosamente os seus traços, estávamos próximo da cascata que nos mostraria o tesouro e desta vez seria também uma escapatória com vida. Apanhámos o curso do rio que descia das montanhas, os traficantes não mais disparavam os seus tiros de intimidação mas sabíamos que estariam por perto. Avistámos a longa queda de água, tivemos medo a principio, mas seria o salto mais importante das nossas vidas, um pouco a medo, recuámos. A Emiliana mostrou que levava aquilo a sério, despiu a camisola e deitou-a para os arbustos ao lado. Deu um passo na berma da encosta e saltou primeiro que nós naquelas águas agitadas. Veio à tona de água, chamou-nos para junto dela.
Saltámos, a queda era enorme e o impacto na água foi um pouco doloroso.
Caminhámos junto da queda de água, as rochas molhadas junto da encosta da cascata serviam-nos de trilho e descobrimos uma entrada na rocha. Estava escuro, tirámos as nossas lanternas de bolso, o único utensílio que sobrevivera a toda a expedição e iluminámos a gruta que se seguia àquela entrada molhada. As indicações do mapa acabam ali, dali para a frente estávamos por nossa conta.
Descemos a longa caverna que se escondia na cascata, não havia luz natural, seguíamos atentamente os passos que as nossas lanternas iluminavam. Páramos todos de caminhar, a gruta abria-se para uma câmara subterrânea. Era um local lindíssimo, não mais eram necessárias as lanternas acesas, no topo da câmara, e por entre o amontoado de rocha, estendia-se uma fenda para o exterior na qual a luz solar entrava. Deveria estar quase sobre nós, estávamos em início de tarde, os seus raios iluminavam o nosso tesouro. O interior da gruta fazia-nos relaxar e dar largas à imaginação, transportando-nos para uma história de aventuras e recheada de emoções fortes, tento apenas como limite a força da nossa imaginação. Tínhamos diante de nós o nosso tesouro, uma multidão de soldados de Xi’an feitos em terracota. Éramos senhores de um legado digno de um imperador chinês, mas teríamos de nos limitar a apreciá-lo dali, nunca o conseguiríamos transportar.

Interior da Gruta Contudo, nem tudo eram más noticias. Heitor tinha deixado algo mais no caminho para as estátuas, uma garrafa dentro de um cesto de barro aguardava quem fosse reclamar tais preciosidades. Abrimos a garrafa de rum, tinha mais de oitenta nos e deliciava o nosso espirito. Todos nos servimos, estávamos contentes, agora só nos faltaria recuperar o maior tesouro de todos, a nossa amiga Débora.

Ficámos radiantes, tão entretidos com o momento que viviamos, não mais nos lembrávamos da Patrícia e dos traficantes que nos persegiram. A nossa paz de espírito era abalada, sscutámos palmas de um dos topos da câmara, a poucos metros de nós. O nosso momento de magia era interrompido. Três pessoas aproximaram-se da claridade e deram-se a conhecer.
Bravo, bravo... – dizia uma das pessoas, era a Patrícia, batendo palmas.
Mas... Como nos seguiste até aqui a baixo? – perguntei, incrédulo.
Injectei-te um transmissor no braço quando dormias no comboio. – dizia a outra pessoa, mostrando-se completamente fora do escuro.
Ela tinha chegado até nós, seguindo os nosso passos. A Débora vinha com ela, estava de mãos amarradas atrás das costas e segurada pelo companheiro da Patrícia. Fiquei incrédulo, era aquele cromo que nunca falava e passou a viagem de comboio de Bogotá a Cali sem dizer mais que duas palavras. O Bruno pertencia à Agência, a sua viagem a bordo daquele vagão serviu para nos colocar um sinalizador enquanto dormiamos, cabrão.
O nosso momento a desfrutar a doce garrafa de rum tinha sido interrompido, mas agora chegava a vez do momento da Patrícia ser interrompido e de forma bem mais convincente. Os traficantes conseguiram descobrir-nos e atacavam agora a nossa posição. Eram quatro traficantes, abriam fogo sobre todos nós. Os consecutivos disparos de balas danificavam o tesouro e este desabava para as encostas da câmara que lhe serviu de esconderijo. Queríamos fugir dali, os traficantes envolviam-se numa troca acesa de tiros com a Patrícia e o Bruno, deixando-nos como que esquecidos entre as estátuas chinesas. Os mal preparados homens atacaram primeiro mas não iam resistindo à melhor preparação militar dos dois agentes especiais, caiu um deles, depois outro e agora sobravam apenas dois. Entraram em desespero, achando que as balas não lhes serviriam os propósitos, lançaram uma granada cada um contra a posição do Bruno, este conseguiu abrigar-se, mas foi projectado violentamente contra uma rocha e ficou a contorcer-se, gritando com cores. A estrutura da gruta tinha sido abalada, muitas das estátuas estavam completamente destruídas e uma parede da câmara subterrânea estava seriamente danificada. Ocorreu um pequeno desabamento e abre-se uma pequena fenda na rocha. Estávamos situados abaixo do nível do mar, se a imensa água no exterior proveniente da cascata entrasse o local ficaria inundado num curto instante.
A Débora tinha ficado abrigada, conseguia agora correr para junto de nós. Um dos traficantes viu a nossa amiga correr e aproximou-se de nós, cercando-nos e forçando uma luta. Estávamos cansados e feridos, as últimas forças que nos restavam eram gastas em pancada. A pequena abertura na rocha depressa se transformou numa fenda maior, criando um orifício para o exterior da câmara com a pressão da água sempre a aumentar e a querer romper por aquele recanto a dentro. O local começou a inundar, a água ia correndo com algum volume pela fenda na rocha, aquela gigante fortuna e página de história seria perdida para sempre.
A Patrícia conseguiu despachar um dos traficantes, o outro lutava comigo. Não estava a dar conta do assunto, com todos os outros feridos, não poderia baixar os braços, mas a mulher agente aproximou-se por trás e torceu-lhe o pescoço.
Patrícia não perdeu mais tempo comigo, correu para junto do seu companheiro. Tínhamos levado com pedaços de argila das estátuas desmoronadas, estávamos manchados de sangue por todo o corpo e tivemos de correr para a saída da gruta, de regresso à cascata, senão teríamos a mesma sorte que aquelas estátuas.
Patrícia não conseguia arrastar o Bruno dos escombros, estava cansada e ferida num dos braços. Sentiu-se pela primeira vez sozinha e sem o controlo da situação, no seu jeito arrogante, pediu-me ajuda e disse que nos tirava daquela Ilha a salvo. Algo me fez não acreditar nela, mas não ficaria ninguém para trás. O outro agente tinha uma fractura exposta na perna direita, não iria longe sem a nossa ajuda. Transportámos o seu companheiro para fora daquela gruta e atravessámos todos o campo de coca carregando aquele tipo. A descida para a praia foi complicada, o terreno era inclinado e repleto de rochas pontiagudas. Foi doloroso ver a sua cara de sofrimento sempre que tombava numa pedra mais saliente.
Seguimos o trajecto que tínhamos tomado na chegada à Ilha. Seguindo as indicações da Patrícia, destapámos uma lancha rápida escondida na praia, coberta pelas mesmas folhas de palmeira que tínhamos usado para passar a noite. Empurrámos o barco de volta ao mar, entrámos todos nele e saímos por mar daquela Ilha. Não seguíamos para a enseada de onde nos tínhamos feito ao mar e nadado até àquela Ilha, íamos na direcção oposta, para pleno mar alto.
Hora depois sempre a acelerar na potente lancha, os gritos do Bruno tinham cessado, tinha desmaiado pelas fortes dores que sentia. Estávamos novamente com a costa à vista e ancorado perto de uma baía estava um enorme cruzeiro turístico. Estávamos de volta à civilizações, fosse aquilo que fosse. Patrícia parou o barco na proximidade do casco do enorme navio, algumas pessoas aperceberam-se que nos estávamos a aproximar e vinham ao convés espreitar o que fazíamos. Acenávamos na sua direcção, algo cai no mar, algumas das pessoas que nos acenavam, gritavam agora e chamavam por alguém. Foi tarde quando me apercebi do que se tinha passado, Patrícia estava de arma em punho e a pobre Emiliana lançada ao mar. Apontou-me a arma e ordenou-nos que saltássemos todos borda fora ou a nossa amiga ficaria ali sozinha.
Não havia tempo para medir forças, fizemos o que nos mandou e ela seguiu a toda a velocidade, levando o Bruno consigo, para bem longe dali, perdendo-se no horizonte.
Fomos recolhidos pela tripulação do cruzeiro. Passámos aquela noite no hospital do navio, nada mais sentíamos, estávamos anestesiados e todos a salvo. O perigo tinha ficado lá fora.

Segunda-feira, Junho 05, 2006

Perfume de Canela

O despertador tocou, acordava para um novo dia. O sabor da vida não era igual ao de antigamente, não estava amargurado, apenas aborrecido. Queria conhecer o mundo, saborear todas as culturas, deixar-me levar pelas suas loucuras e rituais, banhar-me nas águas de todos os seus mares. Andava um pouco à deriva, o meu rumo estava de momento estagnado, a emoção de outros tempos dera lugar a uma desagradável monotonia. Por outro lado, os meus amigos estavam em segurança, eu sentia-me em segurança, nenhum louco mais nos perseguia, o perigo desaparecera dos nossos dias. Ainda neste mesmo momento que recordo com saudade as fugas perdidas por mato fora, os amores corrompidos pela infidelidade, os doces lábios da Elsa e todos os licores que saboreei e no meu próprio fígado destilei, neste e noutro Continente.
Passara mais de um mês desde que tudo terminara, a vida retomara o rumo natural da monotonia. O fugaz perigo desaparecera comigo, o Zé e mais duas amigas numa cabana de caçadores perdida no meio de um bosque enquanto o último vestígio da memória sórdida do Heitor era finalmente apagado do destino da minha vida. Não lhe havia sido reservado grande sorte, o seu irmão Miguel morria em fuga à policia, de embate violente contra uma cabina de portagem da Ponte Vasco da Gama, destruindo por completo o seu jipe e a vida dos seus capangas, sem glória nem perdão. De certa forma pagou pelos seus crimes, tal como o seu irmão Heitor, terminando de forma prematura uma vida repleta de excessos e que se resumia agora, esquecidamente, a palavras de ocasião escritas numa lápide de adorno.
Eram quase sete da tarde, perdera-me a vaguear nu pela casa e esquecera-me por completo do que tinha combinado para aquela noite. Uma das amigas retidas na cabana, a Emiliana, mantivera o contacto permanente comigo e naquela noite iríamos à inauguração de uma discoteca junto da praia do Guincho. A Emiliana tinha arranjado convites para nós e para uma outra amiga que levaríamos.
Abri a torneira e deixei a água correr, aquele banho era sem duvida muito apreciado e desejado mas faltava algo, um pouco de cor. Enquanto a banheira enchia, servi-me de um copo de Porto, eram momentos daqueles que importavam, seria do sabor doce nos lábios que mais tarde recordaria, o corpo a aquecer, do novo animo que me tomava lugar. A água estava quente, acompanhado pela garrafa, mergulhei e por ali fiquei, suando e servindo-me do néctar.
O telefone tocou, abri os olhos como se tivesse acordado pela primeira vez naquele dia já longo, a garrafa de Porto vertia para o chão e um copo de cristal flutuava junto dos meus pés. Levantei-me em sobressalto, a água estava fria e o vinho não mais aquecia o meu espirito. O telemóvel tornava a tocar, embrulhei-me depressa numa toalha. Era a Emiliana.
Então? Não vens?! – perguntava ela.
Vou... Espera, que horas são?
Horas?! Já passa das dez, ficaste de aparecer na minha casa às nove.
Desculpa, devo ter adormecido.

E tinha mesmo adormecido, na banheira, enfrascando-me em vinho do Porto. Desliguei o telefone e tratei de me aprontar, a amiga da Emiliana já estava na sua casa e quando chegasse iríamos logo para a praia do Guincho.

As luzes, os carros finos da região, as betas da Quinta da Marinha e os seus papás faziam fila para entrarem no novo monumento ao bom gosto artístico e criativo da noite. Acabáramos de chegar à Nieuwe Maas, uma discoteca construída sobre as rochas cadentes para uma das praias ao lado do Guincho, estava linda, as cores violetas, as folhas verdejantes e o glamour tornavam o local atractivo e especial. A amiga da Emiliana vinha de tirar o fôlego a qualquer pobre transeunte, fiquei agradado com a surpresa. Facilmente, e estranhamente, passámos toda aquela fila de queques e meninos ricos com as chaves do Porsche do pai fora da algibeira, éramos chamados ao longe por um dos gorilas que seguravam a entrada da discoteca.
Mal entrámos no deslumbrante sitio, fomos abastecidos com champanhe que diversas assistentes serviam aos convidados. Uma amiga da Emiliana foi ter connosco, bastante atraente e com um corpo sensual. Menos volumosa que a Ana, mais elegante e explosiva. Chamava-se Mara, tinha a nossa idade.
Depois de alguns instantes a vaguear pela discoteca, parei junto do bar. A Emiliana e a amiga Ana ficaram nos sofás, a Mara seguiu-me, deveria precisar de uma bebida. A bela desconhecida sorria, nada dela sabia, apenas o corpo lhe tentava conhecer. O seu vestido curto e elegante deixava-me explorar visualmente grande parte da sua pele, imaginar o resto das suas formas escondidas. Fiquei estupidamente excitado, babava-me no bacardi que bebia e ela pedia uma vodka para ela.
Falávamos de tudo e de nada, a Emiliana continuava sentada no sofá, enquanto as bebidas chegavam sem contagem à nossa ponta de balcão. Não pagava nada, os meus pedidos eram aceites e não registado, talvez fosse cortesia da casa por estar ali sentado com uma rapariga tão bonita.
A doce Mara pediu uma nova rodada...
Estás a ver se me embebedas? – perguntei eu, sorrindo.
Eu?... Bem, talvez. – disse ela, retribuindo o sorriso.
Não esperava que fosse tão directa, peguei no copo e voltei a molhar os lábios no licor oferecido. A pequena tentação continuava ali sorrindo, com o seu copo na mão e ajeitando de vez em quando o seu delicioso decote. Já tinha lançado a primeira pedra na construção de um engate para aquela noite, não poderia ficar-me pelos alicerces e quis jogar forte.
Talvez seja o bacardi a falar, quem sabe, o meu coração, mas... tu és linda.
Ela sorriu.
Apetece-me levar-te para o banco de trás do meu carro e fazer amor contigo.
O sorriso na cara da Mara dissipou-se, os olhos da bela rapariga ficaram fixos nos meus, sem reacção. Desviei o olhar, peguei no copo e dei um forte gole no licor.
Interessante, o teu desejo. – reagiu ela.
Antes que eu pudesse dizer alguma barbaridade mais, a Mara pegou-me suavemente na mão e arrastou o meu corpo com ela.
Vem comigo, tenho uma ideia melhor.
Seguimos na direcção de uma porta fechada que dava para uma saída exterior. Antes de sairmos do bar, ela pediu uma garrafa de champanhe e dois copos. O barman piscou-lhe o olho, algo de estranho se passava.
Champanhe?
Ui, vivemos bem por estes lados.
– disse-lhe ironicamente, enquanto caminhávamos.
Ela nada disse, continuava a prender a minha mão e arrastava-me para a porta. Estava fechada, pronto, pensei que fossemos ficar por ali, mas a Mara tinha a chave que a abria e desvendou uma beleza imensa. Era uma pequena praia privada, fechámos a porta trás de nós, aquele local seria só nosso. As areias eram iluminadas por uma fraca luz de presença pendurada na parede da discoteca sobre a porta e as estrelas que nos serviam de tecto. Enterrámos os nossos pés naqueles sedimentos, caminhávamos de mãos dadas para mais perto do mar, a Lua e as ondas salgadas de embate nas rochas naturalmente dispostas faziam-nos companhia. Ali estávamos isolados de toda a confusão que nos perseguia minutos antes, tínhamos uma pequena praia privada só para os nossos caprichos.
Sentámo-nos na areia, o champanhe foi servido, continuava estupefacto com tal cenário criado, com o que a Mara tão facilmente havia feito e derretido com a sua maneira meiga de tirar as alças do seu vestido. O champanhe foi servido dentro dos copos mas apenas um gole foi saboreado, o restante repousava nas areias da praia, o desejo era intenso, os copos caíram tão facilmente como o vestido, ao primeiro beijo trocado. Pouco tempo depois, o mesmo havia deslizado por completo do seu corpo de pele de pêssego, umas finas cuecas lhe abrigavam do meu desejo louco e incessante que crescia a cada momento que passava, a cada toque nos seus seios, a cada onda que na praia rebentava, a cada beijo com os seus lábios trocado.
Fizemos amor, lentamente, intercalando suspiros com festas, beijos de paixão e palavras de galanteio. A porta da discoteca permanecia fechada e cerrada atrás de nós, a praia continuava a ser apenas nossas.
Tinha uma dúvida por esclarecer, como seria possível estar a viver aquele momento, naquele local. A Mara contou-me que era Relações Publicas da discoteca Nieuwe Maas, daí toda a facilidade na elaboração e execução do jogo de sedução que conduziu os nossos corpos àquele desfecho.
Acabámos por beber o resto do champanhe pela garrafa, dividindo goles com beijos e quando parecia estar nas últimas gotas, despejei lentamente o néctar sobre os seios da Mara e de lá bebi, passando e enrodilhando suavemente a língua naqueles montinhos quentes e húmidos.
O tempo foi passando, o champanhe esgotando, os nossos corpos abraçados o mar escutando.
Que queres mais para esta noite? – perguntava a doce Mara.
Não sei, minha querida. Surpreende-me.
A doce sedutora tinha algo mais em mente, vestiu o seu vestido e foi ao interior da discoteca. Pediu-me que esperasse por ela, que não fugisse para lugar algum. Pouco tempo depois regressou, vinha sorridente e trazia uma lanterna na mão. Acendeu-a e a apontou para umas rochas junto do mar, nada mais via a não ser água e pedra. Descalçou as suas sandálias e subiu um pouco do seu vestido justo ao corpo, agarrou-me da mão e entrámos no mar. seguimos junto às rochas, algumas conchas estalavam debaixo dos nossos pés, pensei que me levasse a dar um mergulho, mas segundos depois apontou a lanterna para uma entrada esculpida nas rochas.
A maré estava baixa, só assim conseguimos lá entrar. O espaço tinha no seu interior luz artificial, espreitando com insistência para dentro da caverna via-se uma luz verde fluorescente que iluminavam alguma coisa, no entanto, seria perfeitamente imperceptível para quem desconhecesse tal recanto. A menina sabia as rochas que pisava e os passos que dava, o mar ficava-se pela entrada da gruta, o caminho dali adiante estava acima do nível do mar. As paredes estreitas alargavam-se numa questão de poucos passos e abriam caminho para uma pequena câmara. Não mais era necessário a luz da lanterna, estavam dispostas pelas rochas algumas velas que a Mara se encarregava de acender e no tecto cavernoso estavam uma película verde luminosa. O acender do rastilho das últimas velas desvendou outra maravilha, uma pequena piscina natural, semelhante a um jakuzzi, formada no solo da gruta e enchida pela água do mar.
Desta vez não havia champanhe nem o glamour de uma noite passada ao luar, mas as velas de canela que nos iluminavam e aromatizavam o interior da gruta serviam de catalisador para mais uma troca de fluidos, uma cena de paixão. As nossas roupas molhadas depressa saíram dos nossos corpos suados, entrámos na piscina, a água estava fria mas depressa aqueceu com o nosso calor, trocámos caricias, explorámos desejos pouco desvendados.

A maré subia lá fora, o barulho das ondas nas rochas que nos abrigavam não interrompiam o nosso momento de sedução. Alguns lençóis de água formavam-se no chão pedregoso da nossa caverna, nada que nos preocupasse de momento, a maré ainda teria de subir mais um metro até nos tapar a saída e estragar a fantasia.
Escutámos chapinhar na água dentro da gruta, alguém vinha ter connosco. Era a Ana, a amiga que tinha vindo comigo e com a Emiliana. Estava linda, despira as calças de ganga para atravessar o mar que nos separava, vinha apenas com uma blusa vestida e umas cuecas brancas, agora transparentes pela água salgada.
Meninos, desculpem aparecer aqui... - dizia ela, olhando para todos os lados da caverna excepto para nós.
Nem sabia que lhe dizer, estava um pouco envergonhado por ela ter aparecido ali. A Mara também nada disse, não parecia constrangida e muito menos surpreendida.
Têm pouco tempo, daqui a uma hora a gruta deve estar inundada.
A minha mente perversa há muito que havia despido completamente a bela Ana, aquelas roupas molhadas jogadas às rochas e fantasiava com ela partilhando o nosso ninho de amor. Minha nossa, como esta rapariga era mesmo boa!
A Mara notou de imediato a brusca alteração do meu estado de espirito, as suas mãos delicadas voltaram a mergulhar na água da nossa piscina e estimularam os meus sentidos. A Ana tinha chegado com um aviso ao nosso esconderijo, agradavelmente descoberto, não parecia assustada, permanecia ali diante de nós, agora observando-nos. Mordeu o seu lábio, as usas mãos tinham caído para as suas coxas como se as massajassem, a sua língua humedeceu os lábios levemente... Foi o suficiente para fazer crescer em mim um desejo descomunal de a querer possuir, tomar o seu corpo no meu colo e explorar cada detalhe.
Tinha sido bem saciado pelo intenso calor da doce Mara, mas uma vontade diferente regia os meus sentidos. Beijei o pescoço da Mara, mordi a ponta da sua orelha e sussurrei-lhe ao ouvido que convidasse a Ana para se juntar a nós. Ela não precisou de falar, bastou uma troca de olhares e um sorriso entre elas para que a Ana despisse a sua blusa e retirasse lentamente as cuecas. Veio na nossa direcção, mergulhou sem pressas na água, estava fria para ela. Seguiram-se os beijos, o agradável tactear das minhas mãos nos seus seios e os seus lábios percorrendo o meu corpo. As velas continuavam acesas, a cera quente cheirava a canela, deitei cera líquida nos seus da Ana, ela adorou, suspirava com mais intensidade. Ela ficara quente, o seu calor tomara conta de nós três.
Perdemos a noção do tempo, estávamos satisfeitos, deleitados e com os nossos corpos exaustos. A água do mar tomava conta da nossa caverna, a maré aproximava-se rapidamente da cota máxima que poderíamos ainda habitar na gruta. Pegámos nas poucas roupas que leváramos ali para dentro, o resto estaria na praia e fomos depressa para a entrada daquele recanto encantado. Tínhamos água quase pelo nível do pescoço, eram uma zona sem rebentação de ondas, facilitando o caminho de regresso à civilização. O Sol começava a nascer, ainda subia lentamente pela margem do horizonte, despegando-se do mar e subindo para os céus. Os tons de laranja coloriam a nossa recém chegada manhã.
Voltámos à praia, onde tudo horas antes tinha começado. O percurso parecia mais curto, agora com pouco mais que apenas uma Lua nos indicando os passos a dar. Uma dezena de metros separavam-nos da entrada da gruta, local muito apetecido e de boas recordações recentes que ainda saboreávamos.
O Sol continuava a erguer-se, sentei-me na areia da praia, cheirava a suava brisa da manhã, via ao longe a beleza do nascer de um novo dia na companhia de duas elegantes mulheres. Foi bom, foi diferente, perdura a sensação.

Sábado, Fevereiro 25, 2006

A lágrima que cai

Acabara de enterrar um capitulo na minha vida, um amor que se desvanecera, uma missão que finalmente de mim se esquecera. Sete longos meses se passaram, de nada mais ouvira falar. Nem Patrícia, nem Heitor mais me atormentavam, este último vítima de toda a sua vivência. Toda uma vida deixou, quando na cela se enforcou. Um pacote de cigarros na mão, algumas lágrimas no chão, foi quanto ao mundo deixou, no momento que dele se afastou.
Sentia-me livre, despegado daquele breve e efémero passado. Tinha visto a morte diante dos meus olhos castanhos, amigos que se foram, traços de mim que se destruíram, sítios novos que conheci, algumas mulheres por quem me perdi, e no fim, um amor que em memória se transformou e um gosto amargo deixou.
A Elsa não mais fazia parte da minha vida, os incidentes foram demasiado fortes para ela. Pouco depois da noite da captura do Heitor, sempre que estávamos sozinhos, sentíamos uma sombra por trás, uma memória de algo macabro nos perseguia, alguém que ali não estava nos escutava, todo o medo que não suplantou um desejo carnal incessante. As intrigas, as mulheres pelo meio e todo o risco de mais uma vida de quem gostava se apagar foi demasiado forte. Não mais a via, porém, não a esquecia. Gostei dos tempos que juntos passámos, para ela algumas palavras pensei, de coragem só agora me reforcei. Era assim que o coração me apertava o sentimento, uma mágoa interior, um desejo enorme mas que sucumbia agora numa necessidade maior. Escuto o que dizem as palavras, mesmo quando não dizem nada.
Então assim foi, à distancia de uma memória, as palavras que pensei...

O amor passou,
Mas no rosto ficou
A expressão de quem amou
E sobretudo gostou

Tudo o resto que sobrou
São memórias de dor
Quem nem o amor
Nem ele, as mudou

Ouço música alegre
Mas no fim, entregue
Á eterna solidão
Típica de uma ilusão

Facilmente, irás ver
Que é fácil esquecer
O que alguém sofreu
Por um beijo teu


O mundo não acabou, dali uma nova vida começou. A Agência não me matou, por fim me largou, apenas o corpo e a mente me moldou. Tornou-me mais forte, não mais a dor sentia, o meu sangue gelara.
Nascia mais um dia, com este Sol de Fevereiro que pouco ilumina. Abri uma janela do quarto, o frio da rua acompanhou-me naquelas paredes. Soltei um suspiro, acordava naquela manhã sem um corpo quente a meu lado, sem uma voz doce para me despertar. Estava em celibato, numa imensa greve de fome que se arrastava por duas semanas. Não mais havia tocado numa mulher desde então, o meu corpo estava necessitado de alguém que me desse paixão.
Era Sábado, na véspera chegara tarde do trabalho, apetecia-me diversão, algo novo para usar, uma gaja ou outra para o desejo enganar. Há três meses que não falava com a Elsa, poucas vezes entretanto a vi. Algumas mulheres novas pelo meio conheci, nem todas comi, e em poucas o mesmo senti. A vida continuava, uma nova página se virava e para a descoberta me encaminhava. As aulas eram cada vez menos, pouca ou nenhuma paciência tinha para a faculdade, o trabalho pagava-me as contas.
Fazia-se tarde, liguei ao meu amigo Zé Luís. Combinámos uma saída para aquela noite, o gajo inicialmente desculpou-se, dizendo que tinha coisas combinadas, mas do nada voltou atrás, fazendo inclusive pressão para nos encontrarmos. Escolhemos um sítio diferente dos nossos ares habituais, iríamos naquela noite ao Bairro Alto.
Depressa o dia foi passando, a sua chama de luz de extinguindo.
Tinha estacionado o carro há momentos, caminhei sozinho pela rua, olhei para as estrelas e vi a Lua. Estava no centro da praça do Camões, deambulava fazendo tempo, contanto minutos dispersos, escutando estranhos, prestando atenção a pombos moribundos. Um candeeiro dormente servia agora de apoio, carregava a minha mágoa, os primeiros visitantes da vida boémia há muito que ali estavam, agora a eles me juntava.
Do meu banco de jardim vi o Zé chegar, de longe lhe acenei, vinha sozinho e bem arranjado.
Fomos de imediato para um bar, tinha de me afogar em bacardi, a vontade era tanta, o cansaço do quotidiano necessitava urgentemente de um banho de licores. De tudo e de nada falávamos, não via este gajo há quase um mês. As mulheres eram assunto sobre a mesa, as do passado, a dele actual e algumas mais jeitosas que entravam pela porta do Fluid.
Duas delas não nos passaram nada despercebidas, acenaram discretamente na nossa direcção quando entraram pelas portas. Deveriam ser conhecidas do meu amigo Zé, eu nunca antes tinha visto aqueles nacos de carne, com alguma pena minha. O que parecia ser bom demais para ser verdade não se chegou a concretizar, passaram junto da nossa mesa directamente para o bar, nada disseram, pouco se manifestaram. Daquela visão ficou apenas um sorriso comprometedor estampado na cara do meu amigo, como se muito quisesse dizer e nada de real tivesse para contar.
A parvoíce das nossas conversas continuou, reparava de vez em quando que as raparigas olhavam para a nossa mesa, trocavam conversas impossíveis de serem escutas, sorrisos despercebidos. Uma delas tinha os olhos verdes, reparava dali, brilhavam com o cristal do seu copo sempre cheio e o barulho das luzes. A outra rapariga, menos discreta, mais energética, acenava agora novamente na nossa direcção. Chamavam alguém, vinha de trás de mim.
Olá João. – escutei uma voz que não ouvia há bastante tempo.
Não reconheci a voz no momento, mas sabia que me era familiar. Foi então que ao virar-me vi uma menina querida, uma velha conhecida dos tempos acalorados passados nas areias de Valadero.
Rita?... – perguntei, não me lembrando de todo do seu nome.
Estás com bom aspecto, fico contente por ainda te lembrares de mim. – respondeu ela.
Sim! Como seria capaz de não me lembrar. – acrescentei, mentindo um pouco.
Na verdade, pouco me lembrava dela. Conhecera a Rita em Cuba, no meu tempo de clausura, apenas uma vez a tinha visto desde que tinha chegado a Portugal, num acalorado jantar que se prolongou noite fora. A menina vivia à conta da avultada mesada que os pais lhe davam para não terem de a aturar, passeava pelo mundo todo, conhecia gente nova, fodia com quem queria nos cinco continentes e voltava para casa com uma mala cheia de recordações e um sorriso nos lábios.
Estás linda. – tentava meter conversa.
Ela sorriu, posou a mala na mesa, mas nada disse. Fez-se um silêncio de cortar a respiração, o ritmo acelerado do coração era cada vez mais intenso, ela conseguiu pôr-me desconfortável e estupidamente sentia-me como um menino totalmente à mercê desta mulher.
Olha, as tuas amigas estão impacientes. – disse, num tom de constrangimento.
Sim, é melhor ir.
Adeus então, gosto em ver-te. – acrescentei.
Não te despeças já...
A noite ainda agora começou e pressinto que ainda nos vamos ver hoje.
Beijou-me calorosamente atrás da orelha, os seus lábios ferviam. Foi ter com as suas amigas, deixou em mim mais que uma lembrança remexida, como se de um longo sono tivesse acordado, sentia-me excitado.
O meu corpo não mais chorava por alguém que não estava presente, voltei costas a sentimentos que queria esquecidos, sentia-me perseguido por sensações das quais não conseguia fugir.
Anda, preciso de passar num sitio. – pedia-me o Zé.
Estávamos ali há cerca de meia hora, ainda só ia no meu terceiro bacardi da noite e continuava cheio de sede, para além disso, tinha chegado uma possível companhia para aquele serão nocturno e trazia em anexo mais duas beldades. A sua inquietação era evidente, como se tivesse de estar em algum lado a uma precisa hora marcada. Tudo se tornou mais claro após a chegada da Rita ao Fluid, era evidente que havia alguma ligação ali, por mais ténue que pudesse ser, aquele acenar inicial das meninas na chegada ao bar não era simplesmente fruto da minha imaginação.
Pronto, está bem. Deixa-me só acabar o copo. – consenti.
Dali depressa saímos, as belas mulheres ficavam para trás. O Zé nada disse para onde íamos, limitava-me a segui-lo. Caminhávamos de encontro ao escuro, nada nos indicava os passos a dar, uma luz ao fundo da rua nos iluminava os passos dormentes.
O bater dos contentores, o vento que soprava forte pelo chão varrendo folhas de Outono. Portas mal fechadas, estores entreabertos, sombras na escuridão do desconhecido, olhares dissimulados.
Um longo manto de incertezas nos acompanhavam. Tive um arrepio solitário na espinha, sentia o meu corpo congelado. Um súbito suspiro atrás de mim, uma rosa que cai na calçada fria daquela rua, uma luz que agora se apaga. Era um vendedor de rosas indiano que batia no farol de um carro, certamente embriagado, caiu com aparato na estrada de rodagem.
Mal apreciamos os contrastes do mundo que nos rodeia, pena, infelizmente. Uma velha taberna de Lisboa, uma empregada simpática que atende sem demora, alguns inebriados bebendo água, música clássica tocando de ambiente. Encontro um velho amigo de faculdade, caído no seu canto, sobre a fria calçada, contando histórias a mitras desgraçados. Sorrisos de ocasião, palmadas de gratidão, mais uma dose servida, mais uma vida fodida. O Zé também o conhecia, era o simpático Mário, velho colega finalista de faculdade. Como estava diferente, a barba carregada pesava-lhe na idade, os olhos esbugalhados não escondiam algumas noites sem dormir. Parecia um coitado, mal vestido, cabelo despenteado, no entanto, bem humorado. Alguns bagaços havia bebido, sentei-me no mesmo lancil com ele, há meses que não trocava dois dedos de conversa com este bandalho.
A conversa foi curta, parece que o Mário esperava pelo Zé.
A casa é ali aquela, batam à porta que está lá gente. – disse o Mário.
O Zé entendeu na perfeição o que havia escutado, eu mantinha-me na ignorância.
E tu vais lá estar hoje? – perguntou o Zé, olhando para o Mário.
Sim, claro. Hoje sou eu quem recebe as pessoas e organizo o sorteio. – respondeu.
O clima de mistério não se havia dispersado, continuava confuso como sempre e agora dois gajos que sabiam algo e eu de nada desconfiava. A minha curiosidade tornou-se insuportável, tanto para mim como para eles. O Mário despediu-se de nós, reforçou a ideia que estava muito atrasado e tinha urgentemente de ir. O Zé não se livrava de mim tão facilmente, foi então que parte de todo o mistério se desvendou... Contou-me que há cinco meses conhecera as duas raparigas bonitas que acompanhavam a minha amiga Rita, no Fluid . Nada me havia dito para não estragar a surpresa, íamos para uma festa privada, o Mário iria lá estar e elas três também. Precisávamos de fatos para a ocasião, era por isso que tínhamos ido ali ter com o Mário.
Estávamos diante de uma loja de artefactos e antiguidades, as luzes estavam apagadas, sem qualquer sinal de vida. O Zé bateu na porta de madeira, nada do outro lado se ouviu.
Vamos embora, não vês que está fechada? – disse.
Bateu novamente na dura porta...
O Mário disse que era aqui. – respondeu ele.
Olha lá, mas tu vens às compras a estas horas? – voltei a insistir.
Desta vez o Zé ignorou as minhas palavras e voltou a bater. A porta imediatamente se abriu, um rapaz alto nos recebeu e mandou entrar.
Chegámos junto de um balcão, as luzes continuavam apagadas, éramos iluminados pelos candeeiros da rua.
Então, já escolheu o costume? – perguntou a criatura.
Sim e embrulhe mais um. – respondeu o Zé.
Leva um amigo hoje?
É verdade, é o meu convidado de honra.
Nada disse até sairmos da loja, pegava num saco que o vendedor me tinha dado para a mão. Lá dentro estava um fato de abade. O Zé também trazia a mesma coisa consigo.
O meu olhar desconfiado fez o Zé ter a necessidade de dizer alguma coisa.
Vamos para uma festa, espero que gostes.
Festa?! Assim vestidos ainda acabamos num convento. – interrompi.
Digamos que não erraste por muito, mas estou certo que vais gostar. – acrescentou ele.
Caminhávamos agora para os carros, pela calçada instável do típico Bairro Alto.
Deixávamos para trás algumas visões de desgraças, alguns bêbados caídos, uns poucos drogados estendidos. Junto da nossa passagem, encontrámos o olhar atento da polícia, rebocava carros que impediam a via pública. A razão era a não passagem de uma ambulância, vinha recolher o pobre indiano que tinha sido atropelado momentos antes.
Por ironia do destino, era uma carreta funerária que impedia a passagem da ambulância, com sorte para o indiano seria a vez de chegada da ambulância, a carreta teria de esperar.
Olha, o carro funerário vai a ser rebocado. – apontei, mostrando ao Zé.
Foda-se, e o morto vai lá dentro?! – disse ele.
Olhei para o Zé, não sabia se ria ou chorava.
Não estúpido, deve ser de algum morador.
Não está lá ninguém dentro, não vês que não tem as luzes acesas.
Ele estava com vontade de embirrar com aquilo, talvez fosse do álcool ingerido, talvez fosse uma necessidade de me calar as perguntas antes feitas sobre o que me esperava naquela noite.
E para que é que um morto precisa de luz? – voltava ele a insistir nas perguntas de merda.
Agora fui eu que me recusei a responder, escondi um sorriso discreto com a palma da mão e seguimos caminho até ao estacionamento.
Cada um em seu carro, fui atrás dele, do Bairro viajámos até ao cimo de Palmela, onde uma festa privada nascia no interior das muralhas do seu belo Castelo.
Quem organizava a festa era um mistério para mim, não deveria ser para o Zé. Esta seria já a terceira festa do género que vinha, todas elas passadas dentro daquelas íngremes muralhas, chegávamos ao mundo da fantasia, era assim como ele as descrevia.
Reconheci de imediato o carro da Rita à chegada, o Mercedes CLK do papá continuava bem estimado. Estacionámos os nossos junto de todos os outros, numa entrada escondida do Castelo, mais modernizada e com cancela automática.
Nunca antes tinha entrado naquelas muralhas, era uma visão totalmente nova para mim.
Apenas um velhote nos aguardava no portão de entrada, indicou-nos o caminho através de umas escadas que desciam para um pátio e lá encontrámos uma das casas que circundam o Castelo. A Lua iluminava os nossos passos, o terreno era duro e cheio de pedras soltas, mas o Zé parecia conhecer os cantos à casa e depressa entrámos na refundida casa. Um certo cheiro a mofo estava presente no ar, do hall abria-se um extenso corredor pouco iluminado, uma luz vermelha nos chamava ao fundo. O Mário estava lá, veio ter connosco a meio do corredor.
Algo de estranho e sinistro se passava dentro daquelas paredes, para além do notório cheiro a mofo, as paredes estavam repletas de húmidade, a fraca iluminação... Crescia um nervoso miudinho dentro de mim, por momentos, a cada passo dado no vazio, arrependia-me de estar ali, de me ter entregue aos cuidados do meu amigo Zé.
Zé, alguma vez fui mau para ti? – perguntei.
Então, que foi?
Podias ter dito logo que me querias pregar uma partida... Eu ria-me na mesma.
– acrescentei.
Fez-se silêncio, apenas interrompido pelos nossos passos nas masmorras, os breves sorrisos do momento depressa se esbateram das faces quando o Mário abriu a porta que se seguia. Via então a primeira mulher desde que ali cheguei, se assim lhe poderia chamar, uma velhota com cara de duzentos anos, curvada sobre os joelhos. Assustei-me com tal horror, tinha o mordomo da família Addams no portão de entrada e agora a esposa num dos salões da mansão, tinha em mente que aquele pesadelo desdentado diante de mim me iria atormentar noite fora. Tentei não pensar mais naquilo, estávamos numa antecâmara do salão principal, ali iríamos trocar de roupa e colocar uns adereços, tudo previamente arranjado pelo Zé e Mário. A velha mulher limitou-se a pegar nas nossas roupas e lentamente se afastou de nós, estava apenas ali para receber os convidados e tratar de guardar as roupas. Estavam outras peças num armário e bengaleiro ao lado, alguns vestidos de senhora e chapéus de homem.
Sentia-me estranho na pele de um caracterizado padre Franciscano, vestido de frade e apenas com pensamentos de pecado na cabeça. Olhava para eles, ambos me pareciam bastante familiarizados com todo o processo, não falavam, apenas executavam. Que pancada havia dado a este cabrão para me trazer ali, a um local de culto privado, nem queria saber que mais espectáculo de tarados eclesiásticos me aguardava.
Anda, vem daí. – pediu-me o Zé, para os acompanhar.
Estou a ficar assustado... – disse, com ar intimidado.
Calma João, o melhor esconde-se atrás daquelas portas.
Não me conseguia acalmar, não sabia se era medo ou pura excitação. Talvez tenha sido isso a atrair toda aquela gente que ali depositou a roupa. Conseguia escutar algum barulho através das espessas paredes de pedra, vinha da direcção das grandes portas, uma batucada de tambor e um coro de alguém, intensificava-se lentamente.
Coloca a tua máscara, tens de estar apresentável. – acrescentou o Zé.
Bem, com tudo isto, espero que esteja ali uma gaja boa que se queira confessar. – dizia o Mário, antes de abrir a porta da câmara principal.
As portas abriram-se, era uma sala ampla de gala e glamour, com imensas luzes no tecto, centenas de velas desenhando símbolos no chão, incutiam uma bela leveza de olhar, um iluminado e bem decorado ambiente de ritual. Contava mais que dez pessoas naquele centro atractivo, eles vestidos de frade e mascarados, semelhantes a nós, nelas apenas uma fina tanga lhes cobria o corpo. Reconheci as duas amigas que estavam no Fluid com a Rita, o Zé foi ao encontro delas. Apresentou-me as lindas mulheres, Emiliana e Marta. O soar do tambor intensificou-se, os cânticos de fundo deram lugar a música calma e os convidados começaram a juntar-se num único ponto da vasta sala. Nada se bebia, nada se falava, formava-se então um círculo humano em redor de um pote enorme com algum líquido lá dentro.
Do outro lado do salão, um casal descia pelas escadas. O padre Franciscano que agora se juntava a nós era o anfitrião, confidenciava-me o Zé, era a minha amiga Rita que o acompanhava, vinham de mãos dadas. Vê-la ali deixou-me logo em êxtase, estava mais elegante que nunca, os muitos meses passados tinham sido generosos com ela. O círculo estava assim completo, o pote no meio e copos contados no chão para cada um se servir. A cara do anfitrião era-me tão familiar, de certeza que já o havia visto antes, só não sabia onde. As suas parecenças com alguém que tinha marcado a minha vida eram incríveis, quase um clone de alguém que não se encontra mais entre nós.
As minhas inquietações deram lugar a um breve tintilar de copos, o gosto agridoce da bebida sugeria vodka misturada com mel. O Zé e Mário beberam as suas bebidas quase de shot, as meninas iam com mais calma. Havia algo diferente naquela bebida, alguma coisa se fazia sentir nos lábios e o seu vapor chegava rapidamente ao cérebro.
Zé, que é isto? – perguntei.
A bebida dos deuses.
Já tinha ouvido aquela expressão anteriormente, em terras de Cuba, mas nunca no velho continente. O sabor, esse, nunca antes tinha provado. Saboreava agora suavemente nos lábios a doce mistura de um chá, uma bebida afrodisíaca.
Isto é chá de coca? – voltei a perguntar.
Sim. Gostas?
Até se bebe bem... Mas vou ficar todo fodido!
Relaxa, João. Hoje estás por minha conta.
Pois, é mesmo isso que me preocupa.
– concluí, voltando a molhar os lábios.
O meu corpo sentia-se vazio, tornei a baixar o copo e a enchê-lo de bebida. Aquele movimento repetiu-se, o meu estado tinha-se alterado, não mais pensava no medo que tivera quando entrei naquelas muralhas e nos seus recantos sombrios, na velha que nos acompanhou na troca de vestuário, no ridículo que me sentia com aquelas roupas de padre sobre o corpo.
Saboreava o meu chá, seria certamente o último, as luzes do tecto desligaram-se, apercebi-me então de toda a extensão das velas estrategicamente colocadas na sala. O meu velho amigo Mário saiu por momentos do nosso redor para ir buscar qualquer coisa, foi então que o anfitrião de todo aquele ritual aproveitou o espaço deixado e veio apresentar-se a mim, para ele um novo convidado. Chamava-se Miguel, apenas uma venda lhe cobria os olhos e as dúvidas acerca de onde tinha antes visto aquela cara eram mais evidentes que nunca, faltava apenas um elo de ligação com tudo o que estava a tentar pensar para chegar a alguma conclusão. O chá de coca assim não deixou, estava mais confuso que nunca, o meu corpo queria outro tipo de acção, não ter de pensar infinitamente de onde e quando tinha conhecido aquele gajo. Menti em dizer que era o último copo de bebida que ingeria, a tentação era mais forte que a própria bebida e ainda mais zonzo fiquei. No entanto, despertou em mim outros sentidos, aguçou sensações, adocicou paladares. Olhava para as duas amigas do Zé com outros olhos, um instinto mais carnal fez-me querer saltar para cima delas no momento sem olhar a olhares de assistência, despia-me de preconceitos, só faltava deixar cair o hábito de frade. A música de fundo entrava-me pela cabeça, vagueava noutro mundo, o licor da noite empurrava-me para paragens na memória.
O Mário chegava por fim, trazia uma bandeja com envelopes selados, uns brancos e outros pretos.
Acho que podemos iniciar o sorteio. – dizia ele, entusiasmado.
O pote foi virado do avesso, as últimas gotas da preciosa bebida ficaram assim perdidas no chão. Tornaram a virar o pesado balde de cerâmica na sua posição inicial e, ainda húmido do seu néctar, o Mário colocou todos os envelopes no seu fundo.
Atenção, juntem-se aqui. Vai começar! – exclamou o Miguel.
A primeira pessoa circundou o pote e retirou um envelope de cor branca, outras se seguiram e retiravam os envelopes por uma sequência indefinida de cores. Tinha chegado a minha vez, não sabia que cor tirar do pequeno monte de papel. O Mário chegou-se próximo de mim, apontou para os pretos e disse-me que o fosse buscar. Começava lentamente a perceber a lógica do acto, não que naquele estado conseguisse ter a percepção necessária para assimilar informação, o chá de coca tinha batido forte e duro, o meu cérebro estava em modo de suspensão para tudo o que divergisse de sexo e folia. Na mão de cada mulher estava um envelope branco, na de cada homem estavam os restantes pretos. Foi então que chegou o momento da abertura dos mesmos, o meu continha um cartão com o número cinco escrito em numeração romana, o Mário estava sempre a meu lado, nada deixava de me explicar, apesar de pouco ir escutando. Cada número correspondia a uma sala secundária do vasto Castelo, as pessoas que tivessem o mesmo número iriam para lá.
As tangas justas que as belas mulheres usavam, os nossos hábitos de frade sem roupa interior, um poderoso afrodisíaco servido de entrada e todo aquele ambiente propicio ao êxtase começavam a fazer sentido. Os convidados agrupavam-se com os seus homólogos pares. Vi a Marta chegar perto de mim...
Mostra-me o teu número. – disse ela.
Não tive reacção no instante, as suas mãos pegaram nas minhas e tirou-me o envelope da mão.
Olha, que sorte. Parece que nos vamos conhecer melhor.
Eu apenas a escutava, não sabia o que concretamente se passaria a seguir, mas tinha uma breve ideia e agradava-me... bastante. A sorte parecia ter sido minha amiga, quando então a Rita me agarrou na mão e levou com ela, a Marta acompanhava-nos.
Vamos para o nosso cantinho. Foi bom assim, gosto daquele quarto. – dizia a Rita.
Olhei para trás e não mais vi o Zé, certamente estaria bem entregue a alguma daquelas mulheres. O Mário ainda apanhava os envelopes do chão e arrumava os copos caídos, enquanto a Emiliana, a doce princesinha de olhos verdes, saía em sorte ao anfitrião da festa. Tinham já as máscaras tiradas, apenas o vi ao longe a caminho do seu número da sorte com a Emiliana, foi então que se fez uma fraca luz dentro da minha cabeça e tive a sensação de estar a olhar para o Heitor. Que chá tão forte era este, tinha visões de um defunto que jazia há mais de quatro meses acompanhando a bela Emiliana. Foi ela quem pela última vez vi antes da Marta fechar a porta do quarto. Assemelhava-se a uma suite num dos melhores hotéis, bem decorada, com uma cama enorme e espelhos em cima.
Elas pouca roupa traziam vestida, o meu hábito de frade começava a incomodar-me e a Rita depressa me tratou de ajudar. Fiquei nu diante delas, deitaram-me na cama e aconchegaram-se no meu corpo. Toda a força do afrodisíaco era evidente, sentia-me com mais tesão que nunca, com duas morenas espectaculares esfregando os seus corpos calorosos no meu.
Mas o meu corpo não estava aquecido de forma homogénea, estranhamente sentia uma leve brisa nos pés, era psicológico certamente, mas desconhecia tal efeito.
Rita... Tenho os pés frios. – disse-lhe ao ouvido.
A menina desceu com a língua pelo meu corpo, molhando cada pedaço, deixando um calor especial, parou nos meus pés. A Marta encostou a cabeça no meu peito, mordia os seus lábios e vinha beijar-me a boca. Conseguia ver as duas em acção pelo tecto espelhado, teria de dar para as duas ou seria uma grande desilusão. A Rita conhecia bem o meu corpo, a Marta tocava-lhe pela primeira vez, um ar de inocência ainda acompanhava os seus movimentos, era bom, sabia a ternura e a excitação era cada vez mais forte. Não me aguentava deitado de costas, virei-me sobre a Marta e desci lentamente com uma mão pelo seu corpo, aquecia intensamente a cada passagem na sua pele suave. A Rita subiu um pouco na cama, sentia-se afastada aos nossos pés. Os seus braços envolveram o meu pescoço e puxaram a minha cabeça para ela, queria beijar-me, chupar a minha língua... os seus braços faziam cada vez mais pressão no meu pescoço, as suas unhas arranhavam o meu peito sempre que me afastava. Gostava do calor e toque da Rita, mas eram os lábios e seios da Marta que tinham a minha atenção. Estavam rijinhos e redondinhos, pequenos mas bonitos, neles me perdi. A outra menina queria mais atenção para ela, desceu pelo meio peito, provocando-me e encostando a sua boca no pénis, primeiro lambeu e depois começou a chupar com toda a vontade. Quanto mais me contorcia, mais ela chupava, a Marta assistia calma, no seu cantinho da cama, junto dos meus lábios, enquanto a Rita chupava a verga vigorosamente, mais me contorcia e respirava descontroladamente, mais ela insistia... As minhas pernas tremeram, dobraram-se sob ela, agarrei-a pelos cabelos e vi-me na sua boca.
Parecia que tinha sido atropelado por um camião, sentia-me exausto, mas também notava que recuperava bruscamente. Segundos depois, estava novamente com o vigor de momentos antes, coloquei-me de joelhos na cama, puxei a Marta pelas pernas e acariciei a doce Rita que estava deitava junto a mim. Elas trocavam leves carícias, massajavam os seios e esperavam pelo toque dos meus lábios no clitóris. As meninas depressa começaram a soltar suaves gemidos, o calor era intenso naquele quarto. Fizemos amor durante muito tempo, não se sabia quem comia quem, quem dava prazer a quem, eu e elas estávamos ligados, apenas nos preocupávamos em tirar o máximo proveito da situação.
O efeito do chá afrodisíaco era potente e duradouro, mas o corpo começava a ressentir-se de todo o esforço apesar do cérebro não achar o mesmo. Estávamos cansados, era tempo de uma última brincadeira. A Marta estava saciada, deitou-se a meu lado na cama e encostou a sua cabeça no meu braço. A Rita queria diversão, levantou-se da cama e retirou dois lenços de uma gaveta ali perto. Amarrou-me as mãos, quase me cortava a circulação nos pulsos. Molhou o seu dedo na minha boca e foi descendo dos meus lábios até ao umbigo. Levantou-se bruscamente da cama e dirigiu-se para a porta do quarto...
Hei?! Então, espera! Onde vais? – insurgi-me.
Ela nada disse, continuou a andar e abriu a porta. O pior surgiu depois, estava alguém do outro lado da porta que se abria, era o Miguel, acompanhado por dois seguranças carregando o Zé e a Emiliana.
Foda-se! Que se passa?
Rita... tu?

Disparava perguntas em todas as direcções, ficavam sem resposta. O Zé sangrava da cara, deve ter sido arrancado à força do seu leito sexual. A bela Marta estava sem fala, levantou-se para ir acudir a amiga Emiliana e foi violentamente arremessada contra um sofá ao lado da cama, tombou e virou o sofá de pernas para o ar, ficando deitada debaixo dele.
Que merda vem a ser esta?! – gritava eu, preso na cama.
Não me conseguia soltar de qualquer maneira, permanecia deitado nu tentando-me virar, os meus pulsos estavam inchados de tão apertados estarem, os meus amigos feridos, uma raiva imensa crescia dentro de mim. O Miguel aproximou-se da beira da cama, chegou-se perto de mim e agarrou-me no pescoço.
Vou fazer com que sofras tanto como o meu irmão. – sussurrou ao meu ouvido.
Ah?! – disse, alarmado.
O Zé acordou da sua inconsciência na chegada ao quarto, não dizia coisa com coisa, encostou-se ao sofá voltado onde a Marta estava caída. Ajudou a levantá-la, um dos seguranças prontamente se dirigiu a eles e os intimidou a ficarem quietos. O outro segurança nada fazia, prendia o braço da Emiliana e a doce menina nada conseguia fazer, pouco tentava escapar, caía então no chão pouco ameno do quarto, ali ficava impávida e serena.
Tentava contorcer-me, não havia maneira de me soltar daquelas amarras improvisadas, Miguel estava a meu lado, sempre com um olhar superior, dialogando consigo próprio e para alguém imaginário. Miguel não falava para as paredes, no seu discurso eloquente, mencionara varias vezes o nome de Heitor e irmão, foi então que me apercebi da verdadeira extensão do sarilho que me havia metido. O anfitrião daquela festa tinha como principal inimigo quem entregou o seu irmão à Agência, mais tarde viria a suicidar-se enforcado na própria cela. Tinha sede de vingança, queria encontrar um possível culpado e castigá-lo ferozmente, tratou de montar um plano, atrair-me à sua toca, manipulando amigos meus, gajas que conhecia, ambientes onde vivia. O seu discurso era contra mim, o segurança que pegava na Emiliana, soltou-a, veio ter comigo e tirou-me a prisão dos pulsos. Fui encostado contra a parede, socado e esmurrado na cara, deitado ao chão e pontapeado sem parar. Cuspia sangue, engolia em seco, remexia na minha barriga e sentia um inchaço enorme, a noite não me estava a correr bem, Miguel e os seus capangas controlavam a situação.
Estava deitado no chão, via a porta do quarto aberta e alguém se aproximando. O hábito de frade tinha sido trocado pelas próprias roupas, o único gajo que usaria uma combinação tão foleira só poderia ser o velho Mário.
Mário, que fazes aqui? – perguntou um dos seguranças.
Ele nada disse, tinha uma mão atrás das costas, num acto de coragem e força bruta sem precedentes, lançou uma garrafa de champanhe que tinha na mão escondida atrás das costas e atingiu violentamente a cabeça de um dos capangas do Miguel. O pobre animal caiu estatelado no chão, sem reacção, sangrando de uma ferida aberta.
A Rita virou-se contra o Mário, O Zé aproveitou a confusão e agarrou o pescoço do outro gorila que faltava dominar. A Marta, ainda combalida do embate, ajudou o Mário e emaranhou-se numa luta com a Rita, as duas despidas, guerreando no chão frio do anterior ninho de sedução.
A Emiliana por fim acordou do seu sono momentâneo, caiu em cima da Rita e a pobre rapariga nada pode fazer contra as duas feras, sedentas de explicações. Havia ainda o Miguel para deitar abaixo, ele sacou de uma arma e disparou à queima roupa no pobre Mário, não conseguiu escapar do projéctil malicioso, mergulhou sobre os lençóis pretos da cama e os tingiu com o seu sangue. O meu amigo sangrava da barriga, gritava de dor, temia que o pior estivesse breve de acontecer.
Deitei fora as dores que sentia e agarrei o Miguel pelas costas, a sua arma continuava empunhada e disparava tiros soltos sem direcção escolhida, um deles atingiu o segurança que o Zé agarrava pelo pescoço, o tipo contorcia-se no chão. Consegui deitar a mão à arma dos crimes, sem olhar a impiedade, agarrei-lhe no pulso e torci-o até o escutar quebrar, fazia o Miguel sentir uma dor enorme, tinha o braço partido e acabara de perder completamente o controlo da situação.
Nada estava resolvido ou o perigo longe de nos voltar a encontrar, escutávamos constantemente pelos rádios dos seguranças o chamamento dos colegas, o tempo estava limitado até sermos descobertos. Pegámos no Mário pelos ombros, foi carregado corredores fora, chegámos depressa à sala onde havíamos trocado de roupa, ali estavam os nossos trajes de chegada àquele Inferno. Não havia tempo a perder, eles vinham mesmo atrás de nós. Fomos interrompidos por tiros de pistola, o Zé agarrou numas calças e num par de sapatos, consegui desprender o meu casaco do cabide e vestir as calças que ali tinha deixado.
O Mário, mais debilitado, foi atingido novamente, desta vez nas costas.
Fujam! Fujam... Eu fico bem... – gritava ele, caído sobre a pedra.
Os nossos rostos ficaram gelados, víamos um amigo de longa data cair sem esperanças no duro chão do Castelo, os seguranças corriam no seu alcance, nada mais havia a fazer.
Corram, seus parvos... – despedia-se o velho camarada.
Com sorte tinha a chave do carro no bolso das calças, as únicas entre nós. Ela lá estava, onde a havia deixado e saímos daquelas muralhas o mais rápido possível, rasgando a fundo, puxando por todos os cavalos do Audi, O pesadelo não estava terminado, olhei pelo espelho retrovisor e tinha na peugada um poderoso jipe BMW X5, parecia um tractor sobre o chão de calçada junto ao Castelo e predominante em Palmela. A fuga da casa do Inferno não estava fácil, iríamos ser alcançados de certeza.
Vinha a ser perseguido há já alguns minutos, o outro carro tentava constantemente abalroar o meu para fora da estrada. Seria nestas alturas que mais esperaria que a polícia aparecesse, nem um único sinal verde passámos, um traço contínuo respeitámos, mas de autoridades nada avistámos.
A estrada nacional para a Moita era rodeada de uma vasta mata, se pelo asfalto não nos safássemos, teríamos de arriscar a sorte na protecção dos arvoredos. Escutava tiros vindos na nossa direcção, as meninas estavam assustadas, cada vez menos metros de estrada nos separavam, o jipe encostava-se uma vez mais na minha lateral, o carro deslizava, quase perdia o controlo. Um dos tiros não se limitou a fazer barulho, atingiu um dos pneus e àquela velocidade saí disparado da faixa de rodagem.
O carro embateu de lado, quase em máxima rotação, num aglomerado de árvores junto à berma da estrada nacional, estávamos todos bem, depois de alguns peões e perda de tracção permanente no Audi, saímos do carro a correr, em direcção ao escuro da mata, fugindo do feroz jipe que havia travado e contornado a marcha em nosso alcance.
O meu carro estava atulhado em lama e pequenos arbustos, dali não sairia para lado algum, tínhamos de fugir dali e não perdemos tempo. As meninas corriam descalças pelo mato dentro, o medo era tanto que corriam sem dor, sem olhar para trás, sem rumo certo.
O passo de corrida cessou com o desconforto sentido nos pés pelas raízes de árvores e pequenas pedras encontradas pelo caminho, estávamos já bastante distantes do local do embate, não escutávamos homens em nossa perseguição.
Vagueávamos em direcção da Lua, pouco iluminava o nosso caminho ardiloso naquela noite. Avistámos uma construção em madeira ao fundo, junto de um pequeno lago.
A caminhada era custosa, os pés arrefeciam e doíam bastante, em poucos metros estávamos diante de uma cabana construída em madeira, parecia sem ninguém. A porta não chegou a ser arrombada, apenas estava encostada. Não tinha luz, água ou telefone, lá dentro fazia tanto frio como no seu exterior. Uma mesa velha de cozinha e um sofá eram as suas mobilas, teria de servir, não nos poderíamos queixar. Apesar do gelo que sentia nos ossos, o meu coração tinha baixado a pulsação, encontrava ali algum refugiu.
Parece que o pior já passou. – suspirei, nada descontraído.
As meninas também estavam assustadas e o Zé há algum tempo que tinha ido cagar, talvez tivesse caído pela sanita abaixo, no meio de tanta adrenalina e confusão, difícil seria distinguir onde estaria a merda. Emiliana e a Marta vagueavam junto das janelas, nuas e deliciosas, com arrepios nos seus corpos a tremelicar. Tirei o meu casaco e coloquei-o sobre os ombros gelados da Emiliana.
Toma, agasalha-te.
Obrigada, João.
– agradeceu, com um sorriso nos lábios trémulos.
O Zé regressou da casa de banho, vinha branco feito cal, muito teria cagado. Quase nada trazia vestido consigo, durante a fuga, apenas nas calças conseguiu agarrar. A Marta continuava completamente despida, sem que nada cobrisse um pedaço do seu corpo. Tentava aquecer-se, esfregando as mãos uma na outra, passando-as pelo corpo atlético, esperando que algum de nós fizesse o favor de a ajudar.
Nada assim aconteceu, estávamos todos demasiado assustados e intrigados com o que de mal poderia ainda acontecer naquela noite ao relento. A doce Marta continuava gelada, havia uma toalha sobre a única mesa de madeira existente naquela cabana, serviu para a aquecer, a noite esperava-se que fosse longa e muito fria.
O Sol na manhã seguinte despertou-nos, não havia sinal algum de arrombamento na frágil porta da cabana de madeira, os vidros estavam intactos e não parecia haver alguém nas redondezas. Fiz uma caminhada junto do local onde tínhamos dormido, havia um lago ao longe e dezenas de patos a chapinhar. Deveria ser por isso que ali estava a cabana, era uma zona de caça aos patos e durante toda a noite esperámos ser caçados como patos, dentro da toca dos caçadores.
Voltei para dentro, o Zé e a Marta ainda dormiam enroscados, tentando esquecer o frio que lhes invadia os ossos. A Emiliana já estava desperta, não havia café sobre a mesa e uma torrada quente a sair, mas a bonita rapariga fez-me companhia a comer o resto de um pacote de bolachas deixado ali esquecido, usava apenas o meu casaco sobre o seu corpo despido. Tinha a cara vermelha e as mãos quentes, o seu nariz encostou no meu e um primeiro beijo com sentimento trocámos. Foi bom, foi breve, ali aninhados ficámos.

Terça-feira, Setembro 06, 2005

Jardim de Perfumes

Acordei para um novo dia, poucos passados da minha chegada de Cuba. Tentava retomar o mundo que na minha terra deixei, as saudades eram enormes, os desejos maiores. O tempo parecia sempre escasso, tanto havia a fazer.
Estava sem carro, vendera o meu quando me desfiz de tudo o que me prendia a este país. Mantinha no corpo uma necessidade por velocidade, bem mais que a dos autocarros do Fidel ou dos barcos desportivos do Antony. Queria mais, queria algo meu. Apetecia-me novamente acelerar, não correr descalço rua fora, passei então pelo banco para me certificar que o dinheiro de Cuba já tinha chegado.
Liguei de imediato ao meu amigo Zé Luís, passámos em revista alguns stands. Aquele dinheiro não compraria um Ferrari, mas engracei por um modesto alemão. Fiquei-me pela loja da Audi, passei lá poucos dias depois para levantar o A4. sobre o assento do passageiro vinham quatro entradas para um desfile em Lisboa, de um criador de alta costura, na sexta-feira seguinte. Não era algo que me agradasse tanto quanto o furor que a vendedora fez ao me indicar os convites, mas as modelos de certeza que haveriam de compensar a ocasião. O Zé e o Rui que me acompanharam no levantamento do carro, aceitaram de imediato o convite, sobrava um.
João, porque não convidas a Elsa? – perguntou o Rui.
Fez-se algum silêncio no interior do carro, nem eu sabia porque não tinha pensado nela antes.
É melhor não, há muito tempo que não a vejo. Não sei como iria reagir. – desculpei-me.
Não sejas parvo, fala com ela. – insistiu ele.
Os dois dias que nos separavam do desfile passaram rapidamente, não tinha ainda telefonado à Elsa e resolvi não o fazer em cima da hora. O Zé antecipou-se e convidou uma amiga nossa, a Sónia. Parecia-me mal pensado, ela e a Elsa eram colegas de trabalho no mesmo hospital, o meu esquecimento forçado da Elsa poderia vir a ser mal interpretado.
Entretanto, o convite estava entregue e agora usado, o Zé fez questão que ela fosse, era a sua nova namorada. O desfile prosseguia como esperado, gente fina a trocar futilidade e mulheres boas passando roupa que não era delas.
O melhor veio depois, o jantar servido foi bem regado, não faltava de nada para quem se quisesse servir. Via-se de tudo por estes lados, mulheres lindas tentando trepar degraus numa jovem carreira e algumas celebridades limpavam o pó branco sobre os espelhos das mesas. Era algo decadente aos olhos virgens de quem a tudo isto tomava um primeiro contacto, refugiei-me então no bar do hotel Marriot, onde o bacardi e a cevada me eram muito familiares.
Passava das nove e meia da noite quando olhei novamente para o relógio, nada mais me era servido pelo bar.
Sónia, onde vamos agora? – perguntava o Zé.
Ela levou-nos rumo à Costa da Caparica, ao bar Pé Nu.
Deixei o Rui conduzir o meu carro, o segurança do hotel só me entregou as chaves depois de lhe garantir que não pegava no volante daquele carro. Desconfio que ele não estivesse muito preocupado comigo, mas estragar um carro daqueles seria um crime. Não insisti com ele, pareceu-me um gajo porreiro e pela primeira vez na vida dissera algo inteligente, havia de lhe dar algum crédito.
Depressa chegámos à Costa, o Rui estacionou cuidadosamente próximo da entrada do bar. Os ponteiros do relógio marcavam poucos minutos depois da dez, vínhamos abrir o bar. Sónia estava impaciente, esperava um amiga, não dizia a ninguém quem era. Tinha a certeza que eles dois sabiam, nunca antes os vira tão calmos e sossegados sabendo que viria gado novo se juntar ao grupo.
Acabámos por entrar no bar sem a amiga secreta, dela nem sinal, apenas a minha curiosidade.
Descalcei os sapatos, pisei docemente as areias daquela praia e encontrei o meu lugar numa espreguiçadeira. Novamente de copo na mão, curava o meu estado alcoolizado com imperial, acabaria por me fazer bem quando mais tarde a despejasse.
A noite permanecia quente, via o mar de onde estava sentado, bem perto de mim. O bar ia animando, a música tocava a gosto, o calor ia aumentando. Contudo, sentia um vazio enorme dentro de mim.
A casa estava agora mais composta, as meninas caminhavam sobre as areias húmidas daquela praia, passeavam a sua essência, deixavam o seu pólen no ar. Observava atentamente cada uma, dali bem sentado de imperial na mão e com grande excitação. Como as adorava ver desfilar, ali estavam as verdadeiras modelos do mundo que nos rodeia, dali as admirava e desejava.
Pedi outra imperial, deixei de parte o bacardi nas luzes da passarela, soltava o meu mundo entre copos de álcool, como se as suas portas fosse arrombando aos poucos.
Sónia veio ter comigo e trazia uma amiga consigo, finalmente chegara parecia bonita, ainda a via ao longe e completamente enevoado pelos vapores de outros sabores. Aproximaram-se, limpei os meus olhos carregados, esta misteriosa mulher uma mão me estendeu e com a outra o copo me afastou. Deveria ser um anjo, estaria eu assim tão bêbado que não vira logo quem seria ela, a doce Elsa. Continuava linda, há quatro meses que me despedira dela e não mais a vira, pouco antes de me escapar para Cuba.
Quando a tentei esquecer, deixei de saber amar, foi toda uma paixão que adormecera, um carinho que nunca desaparecera. Estava cada vez mais bela, tinha-se tratado bem, a sua doçura de menina permanecia intacta.
Ficámos em silêncio, a Sónia inventou uma desculpa e deixou-nos a sós.
Ainda te lembras de mim? – perguntei-lhe, passando a mão no seu braço.
Elsa sorriu, sentou-se a meu lado na longa cadeira.
Sim... do sabor dos teus lábios. – respondeu, timidamente.
Tens de deixar de dizer isso.
O quê, João?
Coisas que me dão vontade de te beijar.
Tu também.
– acrescentou ela de imediato.
Sentia o paladar da cerveja a fugir, outros aromas tomavam conta de mim.
Será que me consigo enganar a mim próprio cada vez que olho para ti e não digo que te amo?
Elsa voltou a sorrir.
É complicado resistir-te. – soltava-lhe estas palavras.
Tonto, não resistas então! – exclamou, aproximando-se um pouco mais.
O meu estado inebriado incapacitava-me alguns movimentos espontâneos, aguardei na expectativa pelo seu calor.
E tu, lembras-te de mim? – perguntou ela.
Sim, do calor do teu corpo...
Elsa interrompeu-me, as suas mãos agarraram nas minhas, os nossos pés descalços cruzavam-se na areia. Era inevitável, não havia quantidade de bacardi que me fizesse parar agora. Os nossos lábios juntaram-se.
E que mais te lembras, João? – insistia ela, brincando com a minha língua.
Recordo-me da tua boca...
Ia descendo lentamente os lábios pelo seu rosto.
Do teu pescoço... – sussurrava-lhe, depois de ali a beijar.
A minha cabeça entrava no seu decote.
Do teu peito.
As mãos macias da Elsa passavam no meu cabelo, o seu perfume fazia-me despertar sentidos adormecidos. Cheguei-me perto do seu rosto, passei a mão suavemente pelo seu peito redondo e a cabeça nos seus seios encostei. Ali ficámos, abraçados, esperando que algo nos perturbasse.
Que passaria nas cabeças de cada um naquele momento?
Seria necessário pensar-se em algo? Talvez sim, não me recordo.
O tempo foi passando, o bar acabara por fechar. Nada mais soubemos do Zé, Sónia e Rui até à hora que nos fomos embora. Parecia uma romaria de pessoas e carros naquele parque de estacionamento, voltei a pensar nas palavras do segurança do hotel Marriot, toda aquela parvoíce me ficara gravada na memória. Entreguei então as chaves à Elsa, ela havia trazido o seu carro, mas a Sónia fez o favor de pegar nele e levar o Rui e Zé a casa.
Cerca de duzentos metros de terra batida separavam o Pé Nu da estrada principal, dezenas de carros desviavam-se de buracos e pequenos desníveis na estrada. O ritmo era lento, Elsa conduzia com precaução.
Olha, ainda bem que te trouxe o carro...
Ali à frente para estar a polícia.
– disse ela, vendo melhor que eu o que se passava.
Metros mais à frente, também me parecia ver uma operação policial. Tinha os olhos ofuscados pelas luzes e com aquele grau de alcoolémia seria bem capaz de lhes rebentar a máquina.
Os carros abrandavam, mas não paravam. Os polícias observavam atentamente cada carro, como se algo procurassem, deixavam a caravana que vinha do bar, mas impunham um ritmo lento numa estrada já de si atribulada. Chegava a nossa vez, o polícia olhou e comentou algo com o colega...
Mandaram-nos encostar, todos os outros carros continuavam a circular, inclusive a Sónia que havia sido mandada encostar e rapidamente retomar a sua marcha. Elsa nada temia, não tinha bebido álcool, nada iria acusar.
Um dos polícias dirigiu-se à sua porta, o outro permaneceu encostado à minha. Estavam dois carros parados em frente, Mercedes classe E pretos com as luzes da brigada de trânsito.
Saia do carro, se faz favor. – disse um deles para a Elsa.
Ela saiu e soprou no balão. Pouco depois vinha o resultado, a menina ficou alarmada, o polícia pegou-lhe de imediato pelo braço e foi colocada dentro de um dos Mercedes. Saí rapidamente para saber o que se passava, o outro agente agarrou-me e meteu-me à força dentro do outro Mercedes. Trouxe consigo a máquina que havia ficado caída sobre o capot do meu carro, nela acusava quatro vezes do que o permitido por lei. Algo de muito errado se passava, Elsa não bebera uma única gota de álcool. Não tivemos qualquer reacção, éramos detidos sem razão. Os Mercedes arrancaram dali depressa, um dos agentes ficou para trás na posse do meu carro. Nada mais soube da Sónia e dos meus amigos, havia sido tudo tão rápido.
Tinha um gorro enfiado na cabeça, estranhos métodos policiais, escutava um som que me parecia familiar. Estávamos a atravessar a ponte sobre o Tejo, descortinava este ruído pelo forte passar das rodas dos carros sobre as faixas metálicas, centrais da ponte. O carro mais tarde parou, minutos depois, a agitação parecia grande, escutava várias vozes presentes na minha chegada.
Fui levado para uma sala iluminada, sentaram-me numa cadeira desconfortável e amarraram-me as mãos. Fiquei ali largado durante algum tempo, nada mais escutava para além da minha respiração ofegante. Senti alguém entrar na sala, uma porta se fechou em seguida. Tirou-me o gorro da cara, não queria acreditar no que os meus olhos viam.
Olá, João. – disse Patrícia.
Olá o caralho! Que faço aqui? – perguntei, irritado.
Tinha saudades, apeteceu-me ver-te.
Deixa-te de merdas, que queres?
– insisti.
Como estás? – desviava ela a conversa.
Fiquei enervado, depois de tudo o que se passou e o rumo que me fez levar, a minha ausência forçada em Cuba, o meu corte de relações com quem amava, após as portas do meu mundo trancar. Pensei que me tivesse finalmente visto livre de todos estes fantasmas do passado, desta mulher e do que ela representava, como me enganei.
Raptaste-me e à Elsa só para me dizeres isso?
Sim, só por isso.
– respondeu ela, cinicamente.
Foda-se, não tens telefones?
João, já reparaste no preço das chamadas? Assim é mais fácil falar contigo e preciso da tua ajuda.
Continuava sem perceber a razão de me terem levado para ali, estava preocupado, o álcool desde há muito que havia sido forçosamente destilado. Começava a suar, a tensão aumentava e temia pela minha segurança.
Patrícia desviou-se um pouco de mim e encostou-se ao espelho que abrangia toda uma parede daquela sala.
Laura, podes entrar. – disse alto.
Entrou uma bela mulher na sala, reconhecia aquela cara do desfile da tarde, estava misturada com os presentes. Pegou numa cadeira e chegou-se junto da minha. Tentei afastar-me, inclinando-me para trás, não havia muito por onde fugir.
Tem calma, não te vou fazer mal. – disse aquela mulher.
Patrícia saiu da sala, fiquei completamente entregue aos cuidados desta mulher diante mim, que tanto tinha de bela como assustadora. Senti alguns arrepios, a sua presença intimidava-me.
Ela levantou-se e virou a minha cadeira para o monitor que se encontrava atrás de mim.
Olha bem para o que te vou mostrar agora.
A segurança de quem gostas pode bem depender disso.
– alertou-me ela.
Pensei imediatamente na Elsa.
Não irei repetir, nem tu terás segundas oportunidades. – acrescentou.
Apareceu uma fotografia no monitor, Laura começou de imediato com a descrição do que pretendia. Ele chama-se Heitor, tem 30 anos e era um agente graduado da organização. O seu crime foi grave, copiou e vendeu uma lista com todos os nomes dos agentes activos na Europa e as suas localizações à Agência terrorista Magestic, a mesma responsável pela morte da Diana.
Tudo aquilo acontecera um ano antes, apenas há duas semanas se apurara quem o fizera.
Que tenho eu a ver com isso? – perguntei.
Sólida nas palavras, nem se dignou a desviar o olhar e responder-me. Entretanto, foi dizendo que ele conhecia todos os agentes da organização e os seus métodos. Queriam apanhá-lo vivo e apurar toda a extensão daquela grave fuga de informação.
Sim, e porquê eu?
Desta vez ela respondeu, disse-me que tinha sido ele um dos responsáveis pelo novo rumo que a minha vida agora levava, me tinha forçado a fugir para Cuba e pela morte prematura da minha amiga Diana, a irmã da Patrícia.
Além disso, a Patrícia engraçou contigo. – acrescentou ela.
O Heitor estava num complexo de luxo perto de Huelva, aparentemente bem recompensado pelo que tinha feito. Pedi-lhe que resolvessem eles toda aquela situação e me enviassem para casa com a Elsa, a agente nem quis escutar o resto das minhas palavras.
As coisas não funcionam assim. – dizia ela.
Aparecia agora a imagem de uma mansão enorme, no monitor.
O Heitor é muito inteligente, facilmente desconfiaria que alguma operação tinha sido montada e memorizou praticamente todas as caras desta organização. Infelizmente, precisamos de ti. – acrescentou ela.
Tentava encontrar justificações para não me mandarem para aquele cenário, não era nenhum terrorista, não tinha qualquer preparação para o apanhar e nem saberia por onde começar.
Eu não me preocuparia muito com isso, só precisas de pensar que tens de acabar a missão e recuperar a Elsa.
Laura jogava baixo, tocava-me num dos pontos fracos. Continuava com as suas palavras frias, mostrando-me algo que tinha obrigatoriamente de prestar atenção, algo que ali me levaria. Explicou-me que a Agência tinha recebido um alerta que o Heitor estaria presente na festa de aniversário do Sheik Rashid Al Maktoum a decorrer naquela mansão. Seria a oportunidade ideal para o capturarem, tudo estaria tratado, apenas teria de me misturar na festa, encontrar e trazer o Heitor até Lisboa, pela força se necessário.
Pronto, por hoje acabámos. – finalizava ela a palestra.
Aproximou-se da minha cadeira, onde me encontrava de mãos amarradas, injectou-me algo no braço. Senti-me adormecer.

Escutei um telemóvel a tocar, abri imediatamente os olhos, mas deixei acabar de tocar. Ainda me sentia incapaz de despertar, os braços estavam pesados e as pernas dormentes.
O telefone voltou a tocar, um Motorola ao lado da cama.
A tua missão começou. – escutava do outro lado da linha.
Não reconhecia aquela voz, depressa me deu as primeiras indicações.
Quando acabares, passa pela recepção.
Nada mais me disse, desligou a chamada.
Continuava deitado, olhava em redor e via o que me parecia ser um quarto de hotel.
As cortinas estavam corridas, no relógio do telemóvel marcava seis e vinte da tarde. Havia passado quase um dia a dormir, tinha o corpo dorido e a cabeça queria rebentar. Seguia sem pressas as indicações que me haviam sido dadas, estava um fato sobre uma cadeira e uns sapatos pretos ao lado. Dentro de um bolso do casaco encontrava-se a chave de um Porsche e a minha nova identificação no outro. Olhei ao espelho, a imagem agradou-me. O fato Armani, os sapatos Gucci e a chave de um Porsche facilmente seduzem o gosto de um homem.
Estava na hora de sair, abandonei o quarto e esperei na recepção. Nada me disseram, uma menina chegou ao balcão e apenas um envelope me entregou. Ali vinham novas instruções, fui então buscar o carro ao parque do hotel e acelerei para Islantilla, parecia perto pelo mapa que vinha no envelope.
Depressa cheguei perto da mansão onde decorria a festa, o nervosismo aumentava à medida que me fui aproximando. Parei o carro antes da entrada principal, via ao longe alguma movimentação naquele portão. Telefonei para o único número que estava na memória do telemóvel, a mesma voz que me despertou, atendia-me agora a chamada.
Tens um convite no porta-luvas. Entrega-o na entrada.
Nada mais me disse, desligou a chamada.
Cerca de cem metros me separavam daquela festa, seria agora o último momento para dissipar todas as dúvidas que me importunavam, esconder o medo intenso que me acompanhava. Voltei a ligar o motor do Porsche, gostava deste som.
Cheguei-me próximo do desconhecido, aqueles últimos metros foram feitos em marcha lenta, as mãos suavam, os pés tremiam. Uma menina aproximou-se do carro, fez cair o seu corpo sobre a pintura do Carrera, estendeu a mão, aguardava por algo. Entreguei-lhe o convite, ela leu e comunicou algo para os seus colegas. A segurança parecia apertada, apesar de discreta, continuava a tremer e o nervosismo não era facilmente escondido...
Mandou-me entrar. Suspirei, foi como um alívio, escutar aquelas palavras.
Entrei devagar, um pouco a medo, as portas do desconhecido tinham-se aberto. Contornei a fonte e parei junto à entrada da luxuosa mansão. Rapidamente um jovem veio ter comigo e pediu-me que lhe entregasse as chaves para estacionar o carro, parecia-me má troca, trocar aquelas chaves por uma simples chapa de metal.
Entrava num ambiente luxuoso onde mulheres lindas passeavam os seus corpos, cheios de jóias e outros adereços. Algumas deveriam ser acompanhantes contratadas, eram demasiado elegantes para andarem com estes tipos engravatados.
Andei alguns passos, tinha como objectivo inicial misturar-me com os convidados e procurar rapidamente o Heitor. O telemóvel voltava a tocar, desta vez era uma mensagem de imagem, nada vinha escrito, mas no visor mostrava quase uma cópia do que estava a ver ao longe. Era de um número não identificado, parecia uma fotografia quase tirada sobre mim, nela via mesma parede de fundo, o mesmo chapéu alto que uma mulher usava e no centro da imagem parecia-me estar quem procurava.
Tinha toda uma festa para atravessar, peguei num copo de champanhe e vagueei pelos convidados. Parecera-me ele na fotografia, tentava chegar até ela, mas há algum tempo que deixara de o ver.
Queria despachar isto, mas não sabia como o levar até Lisboa. Tudo me parecera demasiado complicado, mal planeado e estava um pouco amedrontado. Para complicar as coisas, alguém chocou comigo, fez o champanhe salpicar sobre o meu fato.
Desculpe!
Não faz mal.
– respondi de pronto, ainda de costas voltadas.
Acabei de me virar, essa pessoa ali continuara parada.
Português?! – dizia-me agora.
Parecia-me a pessoa da fotografia, era o Heitor, tinha quase a certeza. A minha mão tremeu, a minha expressão alterou-se e fiquei sem saber o que lhe responder. Ele continuava ali parado, à minha frente, talvez aguardando por uma palavra minha. Entretanto, chegou uma mulher junto de nós, o olhar dele desviou-se para lhe dedicar total atenção. Como era bela, pareciam conhecer-se, ela rapidamente lhe pegou pelo braço.
Heitor, é teu amigo? Bonito ele. – disse a jovem, num português perfeito.
Sim, penso que sim. Infelizmente não fala. – respondeu ele.
A presença daquela mulher fez-me relaxar um pouco, baixei o copo e senti-me capaz de dizer algo.
Peço desculpa, sim, sou português.
As palavras saiam intermitentes, mas perdia-me nos olhos escuros daquela mulher.
É a primeira vez que aqui venho, não contava que alguém me abordasse. – tentava mostrar alguma timidez, escondendo o intenso nervosismo que me corria nas veias.
Acontece, meu caro. Quando aqui entrei pela primeira vez também estava envergonhado, vagueando de copo na mão.
Confesso que estes snobs também me metiam medo e causavam embaraço, mas as mulheres deles sempre valeram a pena serem apreciadas.
Por isso, aqui continuo a vir.
– acrescentou Heitor, sorrindo depois.
Soltei um sorriso também, escondia parte dos meus nervos.
Cláudia, toma conta do rapaz. Vou ter com vocês mais tarde. – disse ele para a bela mulher.
Já agora, caro amigo, como te chamas?
Eu?
– perguntei, pensado se falava comigo.
Sim, tu. – ele sorria e acenava com o copo.
João. – disse timidamente.
Pronto, João. Vais com a minha secretária, ela mistura-te com o meio.
Cláudia pegou-me na mão, a sua pele sensível deslizou sobre a minha.
Gasta dinheiro, de certeza que te irás sentir melhor. – despediu-se Heitor.
Dali rapidamente saiu e dispersou-se pela festa. A sua assistente levava-me a passear, larguei o copo vazio numa bandeja e dediquei-lhe a minha atenção. Não sabia para onde me encaminhava, o que de mim pensava.
Vieste à procura de algo especial? – perguntou ela.
Não.
De alguém...?
– insistia comigo.
Também não, mas parece que encontrei. – respondi.
Estava muito mais calmo, todo aquele momento inicial de choque fazia parte do passado, tinha sido uma estranha surpresa, não havia planeado nada daquilo. Quem eu tanto procurava acabou por me encontrar, daquele instante salva-se esta irresistível mulher que agora me acompanha. Cláudia nada mais perguntou, a sua mão apertava a minha com mais força, os seus lábios pareciam mais atraentes.
Passeávamos calados entre os convidados, trocávamos sorrisos, alguns olhares discretos.
No entanto, a minha cabeça não se rendia ao momento, estava sendo levado por este sonho de mulher e apenas tentava encontrar uma maneira de levar o Heitor até Lisboa. Não me parecia mau tipo, foi agradável comigo e deixou-me ao cuidado da sua secretária. Pensava também na Elsa, continuava refém num recanto qualquer. Sabia que a única maneira de tudo isto acabar depressa e estar com ela seria levar quem vim buscar para Lisboa, entregá-lo à Agência, deixá-lo enfrentar a sua merecida sorte.
A elegante secretária parou de andar, voltou a pegar-me na mão.
Anda, sei do que tu precisas. – sussurrou-me ao ouvido.
Levou-me para uma sala à parte, outros pessoas encontravam-se lá dentro. Escutava-se música ambiente, alguns casais trocavam carícias, haviam quem somente se entregasse ao sabor de um licor.
Encontrámos o nosso lugar num dos sofás, Cláudia retirou do soutien um pequeno frasco. Parecia-me cocaína, colocou parte do produto nos seus lábios. Chamou-me a beijá-los, puxou pelo meu colarinho e colou os seus lábios nos meus. Senti algo de imediato, não somente o sabor da sua boca, o sangue fervilhava, algo me chegava rapidamente ao cérebro.
Afastou-me, humedeceu novamente os seus lábios e procurava agora o calor do meu pescoço. Assumia ela o ritmo, depressa os seus olhos se juntaram aos meus e lambeu-me dos lábios o resto de produto que lá ficara.
Sabes bem, gosto de ti. – disse ela.
Voltou a afastar-se do meu corpo, encostou-se calmamente no sofá. Pousou as suas elegantes pernas sobre o meu colo, os seus pés aqueciam cada pedaço de mim onde tocavam.
Era sem dúvida deslumbrante esta mulher, talvez a cocaína me tivesse deixado rapidamente rendido à Cláudia, estava literalmente a seus pés. Tinha esquecido o Heitor, a preocupação pela Elsa, de tudo mais o que me fizera ali chegar. Apenas pensava nesta mulher, no seu corpo, nos seus lábios quentes.
Cláudia deitou um pouco de cocaína sobre o seu peito, agora destapado, lindo e redondo. Não pensei duas vezes, nunca antes tinha consumido aquela merda, mas aquela a mulher mexia comigo. Há muito que deixara de controlar o sentido do meu corpo, os meus instintos estavam completamente entregues aos desejos e virtudes da Cláudia.
Lambi e chupei o seu mamilo, ela aquecia e ao passar da minha língua e os seus seios iam ficando mais rijos. Deu-me o outro seio a beijar, dispensei a cocaína, ela sorriu e deixou-me avançar pelo seu corpo.
Depressa me distraí, avistei o Heitor a entrar na sala, vinha bem acompanhado por uma loira. Acenou-me com um copo e vieram os dois na nossa direcção. Sentaram-se na outra ponta do sofá, Cláudia deu-lhe o resto do frasco, ele rapidamente o dividiu com a sua nova amiga.
Este não era o meu ambiente, não consumia drogas, não bebia champanhe, não chegava de Porsche a festas particulares, nunca me envolvera com esta gente, mas sentia-me seduzido por tudo, agradado com os caminhos menos claros e inconsistentes que pisava. Já não estava nervoso na presença do Heitor, a sua faceta de agente secreto era por mim esquecida, considerava-o como qualquer pessoa normal e deixava-me mais calmo.
João, a Cláudia tem tratado bem de ti? – perguntou ele.
Não precisei de responder nada, um sorriso estampado na minha cara foi bem claro.
Aproveita a noite, pode ser mágica. – finalizou o Heitor, voltando-se de seguida para a loira.
A intensidade das luzes baixou, avermelhadas e sem sombras.
As portas daquele pequeno espaço fecharam-se, não estavam mais que dez pessoas no seu interior, repartidas por quatro sofás. Apenas a iluminação do bar se mantinha, de lá saíram raparigas totalmente nuas servindo bebidas pelos presentes. Cláudia não parava de me estimular, começava a entrar em ansiedade, apetecia-me comer cada uma delas, as suas mãos vagueavam livremente pelo meu corpo. Muitas das nossas roupas estavam despidas, fora servido um licor afrodisíaco pelas meninas do bar, o calor aumentava sem parar. Cláudia não me dava descanso, sabia que a cada movimento seu me deixava mais excitado, com mais desejo por ela. Quis beijar todo o seu corpo, mantinha apenas a sua cueca vestida. A menina fervia, há muito que me rendera aos pormenores do seu corpo.
O Heitor foi para o chão com a sua amiga, aquele sofá ficou somente entregue a mim e àquela morena exótica que me deixava louco. Agora com as drogas de lado, os copos vazios, estávamos somente entregues aos desejos dos corpos. Empurrou-me para trás, queria ser ela a assumir o comando. Sentou-se no meu colo, deu-me chupões pelo peito, rasgou-me o resto da camisa que trazia vestida. Nada nos parava agora, o seu jeito agressivo excitava-me cada vez mais, o seu peito deslizava pelo meu rosto, as suas pernas apertavam-me a cintura, Cláudia dançava sobre mim. Não me aguentei quieto, peguei no seu corpo e lancei-a sobre o sofá, ela rapidamente se virou de costas. Arranquei do seu corpo a última peça que ainda o cobria, o desejo era mais que nunca, a excitação fazia-me fervilhar o sangue, não descansei enquanto não a penetrei fortemente por trás... os seus gemidos eram audíveis pelos cantos da pequena sala, dávamos o moto para toda aquela entretida assistência.
A música ambiente deixou de tocar na minha cabeça, todas as outras mulheres se tinham calado, apenas os seus gritos de prazer me acompanhavam. A presença de cocaína no meu organismo fez prolongar o inevitável. O calor daquela mulher aquecia cada pedaço de mim, a droga tinha-me dado uma sensação de força inesgotável, não desconfiava a que preço pagaria mais tarde.
Os suspiros finais haviam sido dados, os nossos corpos estavam encharcados em suor. Mal conseguia falar, tinha dificuldades em respirar. Cláudia chegou-se a mim, partilhávamos o sofá, aninhou-se no meu corpo e beijou-me os lábios, agora secos de exaustão.
Não me senti adormecer, despertei com o Heitor a mandar-me levantar.
Vesti um roupão que tinham trazido para mim, Cláudia descansava e ajeitava-se no sofá.
Vem comigo, precisamos de conversar. – disse o Heitor.
Deixámos as meninas no sofá, caminhámos pelos corredores da mansão e entrámos numa sala de sauna, o ambiente estava demasiado quente, sentia-me ofegante, pensei que fosse desfalecer.
Vamos, senta-te aqui. Isso já passa. – dizia ele.
Sentei-me a seu lado, sem o roupão, agora com uma toalha sobre o colo.
Não estou habituado a estas coisas. – disse eu, completamente exausto.
A quê, foder? – interpôs o Heitor, brincando.
Às drogas... – respondi.
Como te disse, isso passa. Bebe este chá, nem precisas de aquecer. – acrescentou.
Pouco tempo depois já me sentia melhor, ainda cansado mas mais desperto. A sauna ajudava a purificar o meu corpo, limpava pelo poros alguns abusos cometidos antes, todos aqueles excessos iam-se dissipando em claras gotas de suor.
João, temos de ir. Vai ficando tarde. – disse o Heitor.
Ir onde? – perguntei.
Isso deves tu saber, não me vieste buscar?
Não te percebo...
– respondi baixinho.
Percebes sim. Quero entregar-me, há muito tempo que fujo. – interrompeu-me.
Ele tinha-me apanhado desprevenido e com as defesas completamente em baixo.
Mas... Como sabias?! – perguntei, algo preocupado.
O anfitrião desta festa, à qual foste gentilmente feito convidado, é um grande amigo de longa data e devia-me um favor. – respondeu, remexendo na folha de jornal que lia.
Ele que me denunciou? – voltei a perguntar, desconfiado que havia sido tramado.
Heitor sorriu, deveria ter pena de todo o meu nervosismo.
Não, João. Tudo isto foi planeado, a Agência por vezes é demasiado previsível.
Voltou a remexer no seu jornal...
Aposto que toda aquela gente começou imediatamente a trabalhar quando o Sheik lhes informou que eu estaria presente na sua festa de aniversário. – acrescentou.
Heitor levantou-se, assustei-me e pensei que me fosse fazer algo, mas não. Pousou o jornal e foi buscar mais chá. Voltou ao seu lugar, sentou-se e retomou a leitura do jornal.
Reparei que és novo por estas aventuras. Qual é a tua história? – perguntou-me.
Contei-lhe então o que se passara na véspera, da abordagem da Agência, do meu estranho acordar em solo espanhol e o que me tinha levado a ir buscá-lo.
Não te preocupes, deve acabar depressa. – acalmou-me.
Aquelas palavras pareceram-me sinceras, queria acreditar que seriam.
Saímos da sauna, Cláudia esperava-nos, já restabelecida e vestida.
Cláudia, pega no meu carro e vai embora.
O momento chegou, talvez nos vejamos em breve.
– disse o Heitor, num jeito atarefado.
A despedida entre eles foi demorada. A mim, Cláudia apenas um beijo soltou, já no caminho para o parque do hotel.
Depressa chegámos ao carro e nos colocámos a caminho de Lisboa. A bela mulher dispersara-se noutro sentido, sem deixar rumo ou direcção.
Pronto, meu jovem, agora é contigo. Liga ao teu supervisor e diz-lhe que vamos a caminho. – acrescentou Heitor.
A estrada fugia debaixo de nós, a velocidade era elevada e o ambiente estava pesado, o silêncio era de tal forma envolvente que por diversas vezes me senti adormecer. Havia uma grande suavidade no ruído, apenas interrompida pelo poderoso motor do Porsche.
Sim, João. Conta-me lá o que vais pensando. – intrometeu-se o Heitor nas minhas dúvidas caladas.
Porque denunciaste meio mundo?
Pareceu-me uma pergunta delicada, de certeza que era um ponto sensível, julgo que ele se arrependeu um pouco de me pedir que lhe contasse o que ia na minha cabeça.
A agência Magestic tinha a minha filha na posse deles.
Filha? Pensava que nessa profissão não poderiam ter laços com ninguém. – interrompi.
João, vês demasiados filmes. Mal seria de mim se não tivesse alguém por quem lutar ou sequer viver.
Como se chama ela?
– perguntei.
Heitor emocionou-se, deixou cair algumas lágrimas pelo rosto pesado.
Então, que foi agora? – continuava a insistir com ele.
Chamava-se Teresa.
Chamava-se?!
Sim, morreu nas mãos da Magestic...
Parece que a lista não lhes chegava.
– disse o homem, desfeito em lágrimas.
Que correu mal?
É uma longa historia.
Heitor, tempo não nos falta, temos um longo caminho pela frente.
– voltava a insistir.
Ele nada disse entretanto, momentos depois começou a falar sem parar, soltando algumas lágrimas com o que me contava.
Durante a troca, eles confirmaram a lista. Sabiam que deveria conter 26 nomes...
Não desconfiava que eles soubessem dessa informação.

Reduzi a velocidade, queria escutar o resto que ele tinha para me dizer.
Coloquei todos os nomes, inclusive o meu, excepto um.
Alguém importante?
– perguntei.
Sim, muito. Os dados não bateram totalmente certo, já tinha a minha filha no carro comigo e a Cláudia ao volante.
Calculei. Era ela quem não contava na lista?
– voltei a questioná-lo.
Não, mas deixa-me continuar...
O homem secou as suas lágrimas, baixou o vidro e recostou-se melhor no assento.
Já tinha feito a minha parte, trazia a minha filha comigo. Entrei no carro e pedi à Cláudia que arrancasse.
Os tipos de imediato nos obrigaram a parar, saímos os dois do carro, a tensão era alta.
A minha menina tinha ficado no banco de trás, chorava sem parar.
– também o Heitor se emocionava.
Eles eram três, um permanecia dentro do veículo deles enquanto os outros estavam diante de nós.
Heitor contava a história, calmamente e algo perturbado, alongava-se nas pausas e um sentimento de arrependimento tomava conta das suas palavras. No entanto, continuava sem perceber como tudo tinha acabado em tragédia.
Um deles perguntou-me qual o nome que faltava.
Não lhe respondi, apenas acenava que nada mais sabia.
A partir desse momento senti que algo de errado se iria passar.
– apertava os punhos de raiva.
Não teve qualquer calma, ordenou ao outro tipo que disparasse sobre a Michele.
As palavras do Heitor vinham carregadas de dor.
O meu mundo tinha acabado ali. Saquei da arma e matei aqueles dois.
A Cláudia ainda tentou interceptar o outro agente que estava dentro do carro, mas os tiros de nada valeram. Conseguiu fugir e levou a lista que lhes tinha entregue.
Mas tentaste salvar a tua filha.
– intrometi-me então no que me contava
Não a salvei e eles ficaram com uma lista que coloca em periga dezenas de pessoas.
A mãe dela nunca me perdoou, ainda hoje me culpa de tudo o que aconteceu.
– acrescentou.
Então, como assim? – perguntei.
Heitor passou a mão pela face, visivelmente cansado e acusando os vícios da noite.
João, quem te mandou vir buscar-me?
A Patrícia e outra mulher.
Essa mulher chama-se Laura?
– voltou a perguntar-me.
Sim, julgo que sim.
Ele cortou o diálogo, queria que raciocinasse mas os excessos da noite continuavam a atrofiar-me a cabeça.
Ela pareceu-me bastante interessada em capturar-te.
Heitor sorriu depois de lhe dizer aquilo.
Acredito. – acrescentou.
É ela a mãe da tua filha?
Sim, a mulher que amei.
– respondeu, entre bocejos.
Ele calou-se, deixava-se levar pelo sono. Fechou os olhos, pensei que fosse adormecer. Ia-lhe perguntar tanta coisa mais, tinha achado aquilo demasiado intenso, apesar de dramático, mas continuava tanto por explicar...
Sim, era o nome dela que faltava naquela lista. – disse Heitor, sem abrir os olhos.
Não me dera sequer tempo de formular a pergunta, sabia que me havia desperto a curiosidade.
Mas porquê, Heitor?
Simples. Precisava de alguém que cuidasse da minha filha depois da minha morte.
Poderia não ter voltado a casa naquela noite.
– acrescentou.
Continuo sem perceber porque te vais entregar, eles não te vão perdoar. – insisti.
Sim, talvez. – respondeu ele, sem hesitação.
Regressava agora um sorriso à expressão do Heitor, como se planeasse algo.
A Laura sempre soube. – disse ele, passando uma mão na face.
Como assim? – perguntei.
Deixou-me fugir, inventou mil e uma missões para me manter longe. – acrescentou.
Ela disse-me que só tinham descoberto há duas semanas atrás. – interrompi.
A agência talvez, ela sabia desde o momento zero.
Gerava-se alguma confusão na minha cabeça...
Que achas que mudou entretanto? – perguntei.
Heitor levou mais tempo para responder, o sono havia tomado completamente conta de si.
Só há duas semanas ela soube que a Cláudia estava comigo na noite da troca e que éramos amantes.
Fiquei calado, encaixava então pequenas peças de um puzzle complexo e sem fim à vista. Laura queria-se vingar do marido, não por ser culpado da morte da sua filha mas porque andava metido com uma colega. Estranhas vidas desta gente estranha.
Pronto, agora deixa-me dormir. – finalizou Heitor.
Ele adormeceu momentos depois, mas as drogas daquela noite mantinham-me desperto. Faltava pouco para chegar a Lisboa. Liguei à Patrícia, disse-lhe onde estava e combinámos um encontro em Belém.
Cheguei meia hora depois ao local marcado, haviam dois carros parados junto ao rio e um deles fez-me sinais de luzes. Estacionei o Carrera entre os dois carros escuros, a Patrícia e a Laura saíram de um deles. Continuava sem ver a Elsa, pensei em arrancar e fugir dali, mas outro carro barrou-me a saída.
Saí então do Porsche, Heitor permaneceu lá dentro.
Não saberia como reagir, não havia qualquer sinal da minha Elsa e sentia a tensão aumentar.
Dois agentes afastaram-me do caminho e tiraram o Heitor do carro, ele não ofereceu resistência e facilmente se deixou levar para o interior de um dos Mercedes.
Do carro que me bloqueava a saída, abriu-se uma porta. Com o acender da luz interior reparei que era o meu, reconhecia agora aquelas curvas e as que se encontravam lá dentro. Elsa acenou-me da janela, o agente que conduzia o Audi acelerou e estacionou pouco mais à frente, desbloqueando a passagem do Porsche.
Elsa saio calmamente do carro, veio ter comigo e abraçámo-nos. Chorei quando novamente a senti nos meus braços e beijei os seus lábios. Quem conduzia o carro também de lá saiu, entregou-me as chaves e sentou-se no Porsche.
Patrícia acompanhou este agente, não me dirigiu a palavra, apenas um sorriso discreto. As portas daqueles três carros fechavam-se e saíram dali a toda a velocidade, infelizmente, não tanto como da minha vida. Continuava entregue aos braços da Elsa, nada mais me importava. Desconhecia a sorte do Heitor, do paradeiro da Cláudia ou o que aquelas duas agentes fariam de seguida. Tudo se esfumava com o barulho ao longe dos motores dos carros, para mim ali acabava. O meu jardim estava completo, tinha recuperado a minha flor mais preciosa.
Sentia-me cansado, Elsa conduziu o carro e levou-me para sua casa. Rapidamente caí na cama, ainda vestido, transportando os excessos daquela noite.
Fiquei aliviado de a ver bem, despiu calmamente a sua roupa e deitou-se a meu lado.
Trocámos um beijo, agora em sossego, adormecemos.

Sexta-feira, Março 25, 2005

Mar adentro

Vou escutando o mar, aqui sentado nestas quentes areias de Verão tropical, olho para lá do horizonte e recordo a casa deixada para trás. Retrocedo três meses, a água batia no casco de um barco, o mar estava bravio, duas caras amigas me acompanhavam, tantas outras me olhavam. Tudo escureceu, foi assim há três meses, não sei bem que depois aconteceu.
Acordei nesse mesmo dia, dentro de uma ambulância, uma enfermeira falava comigo, sentia-me drogado, distante dali. Voltei a adormecer, para mais tarde acordar, agora mais ali, psicologicamente presente, fisicamente abatido e emocionalmente desfeito. Tinha perdido uma amiga naquela tarde, a bela Diana morrera, jazia agora nas turbulentas águas do Atlântico. Tinha a companhia de outras adversidades, um navio destruído, corpos mutilados, foi assim que tudo acontecera, como tudo desaparecera. Susana e Daniela, tão sensuais, tão letais, eram agora duas agentes mortas, antes amigas, cruzaram o mesmo destino da minha verdadeira amiga Diana.
O mundo não acabara ali, continuava a girar e ninguém reparava.
Patrícia vira a irmã morrer, sem nada poder fazer, guardou para si o que sentia, fria mas doce, sentia nas suas palavras perdidas um turbilhão de emoções. Não mais a vi, naquela tarde tudo aconteceu, deixou-me partir, não me despedi. Tirou-me dali, fugiu com os seus, sentia nesta memória ainda vivida, a dor que me infligira, noutro dardo, outra solução que me fizera adormecer, mais uma vez sabia que iria desaparecer. Por ela, ali fui parar, por ela, dali me consegui largar.
Ficara caído, adormecido, nas areias de uma praia, distante desta de onde tudo recordo agora, abandonado à minha sorte, foi assim que tudo acontecera. Voltei à ambulância, esta recordação persistia, nada mais dali me lembrara para além de algumas palavras da enfermeira, eram soltas para mim, não as percebia, que me levavam a recordá-las eram ela, a enfermeira. Seria isso, enfermeira, doce tentação, a minha paixão, Elsa. Não era ela que me acompanhava e auxiliava naquela ambulância, também ela fora envolvida em tudo aquilo, fizera-me companhia momentos antes na praia, não nesta distante de onde tudo recordo.
Fomos resgatados do barco da Agência, salvos por outra Agência, que nos deixara ali jogados, abandonados e drogados, seguiamos agora para qualquer lugar, somente nesta recordação.
Horas mais tarde, acordei no Hospital, foi assim há tempos atrás, aqui estou eu nestas areias de Varadero, recordando a vida que deixei para trás. Procurei pela Elsa, estávamos despertos, tudo passara, tudo finalmente acabara. O tempo passou, deixou-nos mazelas, os corpos doridos, os sentimentos feridos.
Foi assim que tudo acontecera, três meses antes, vou recordando, o mar escutando e por estas memórias me levando. Abandonei aquela vida, fugi, quis correr, alto gritar e meio mundo abandonar. Acobardei-me com as evidências, vendi o carro, amealhei todos os meus fundos e aqui para Cuba me vim perder.
Não me arrependo, lamento o amor que deixei, o curso que abandonei, toda a vida que larguei. Tudo mais para trás deixei, apenas com a Elsa realmente me importei.
Por onde andaria ela agora? Sinceramente, não sei.
Vim para estes trópicos, há pouco mais de dois meses, desde então, as portas do meu mundo fechei. Fui bem acolhido por estes lados, cheguei feito pé descalço, sem rumo ou direcção, de futuro pendente, vivendo uma aventura. Arranjei trabalho num bar da praia, trabalhava para comer e beber, acabava sempre por foder.
Saltava constantemente de trabalho em trabalho, corria pensões, fodia multidões. Tudo demasiado depressa se passava, fugi dum inferno para me colocar noutro, sentia-me perdido, talvez abandonado. Numa destas noites, de fresca memória, há duas semanas antes apenas, deixara-me levar pela emoção, metera-me em confusão e dei por mim caído, esmurrado e largado, numa calçada da praia. Alguém me acudiu, as suas mãos do chão me levantaram e recolhi para uma casa. Não sabia para onde entrava, parecia uma discoteca, o som, as luzes e todo ambiente psicadélico passavam-me ao lado, vagueava naquele corredor, nos braços de alguém. Acomodei-me num sofá de escritório, só mais tarde reparei quem me recolheu das ruas, da chuva que caía lá fora, me salvava agora. Era uma bela mulher, cubana e trintona.
Passo a mão ao de leve na areia, parei de recordar, parei de sonhar, volto a escutar o mar, vejo somente as ondas tudo levar.
Levanto-me das areias desta praia, levantei-me daquele sofá, as memórias persistem, ajeito a roupa e arranjo-me para o trabalho, limpei a cara esmurrada da noite amarguradamente vivida e arranjei trabalho. Dirigia-me agora para aquele local, onde passado e presente se cruzavam, bem permanente na minha mente, bem debaixo dos meus pés. Entro de momento naquela discoteca, caras agora familiares me sorriam, a mesma porta de outrora se avizinha, o mesmo escritório me esperava. Lá estava Maria, a doce mulher que me salvara de uma noite passada ao relento. Acolhera-me no seu bar, comecei simplesmente servindo bebidas, mas após uma noite calorosa passada na conversa, neste mesmo escritório, trocando cumplicidades, olhares indiscretos e carícias... Não, nada de mais aconteceu, continuo servindo bebidas.
Maria geria este estabelecimento, propriedade do seu irmão Antony, um jovem putanheiro. Era uma discoteca bastante movimentada, aqui nesta praia plantada, demasiado vigiada, ferozmente policiada. Antony deveria ter os seus contactos, ligações obscuras, eu tudo desconhecia, de nada sabia.
A noite caíra, chegara da praia, neste dia de muito calor. Iniciava o meu trabalho, quando o Sol se punha, a noite nascia, para muitos o dia morria.
Era véspera de fim-de-semana, novos turistas chegavam à Ilha, outros tantos regressavam a casa, tantas caras renovadas, tantas sensações originadas. A noite corria como de costume, álcool escoado, muitos fígados estragados, alguns amores criados. Bastante gente nova por ali se encontrava, muita língua se escutava. Ouvi sons da minha terra, de todos os cantos ecoava, soube bem esta aproximação a casa, uma vez mais não me arrependia, mas sempre que esta língua ouvia, o forte calor do lar sentia. Segui aquelas palavras, recolhia copos atrás de quem as proferia, tocava em corpos por onde batia, um casal de portugueses via, novos, da minha idade. Eles pararam junto do meu bar, atravessei o balcão e atendi-os com gentileza.
Francisco e Ana Luísa, vinham com uma amiga de ferias, esperavam ainda por ela e ali se entretinham.
Olha Francisco, lá vem ela! – exclamou Ana Luísa.
No meio de tanta luz, entre tantas caras, nada reparei, ninguém vi. Virei costas, afastei-me e o meu trabalho continuei.
Olá, João.
Continuei de costas voltadas, o meu nome escutei.
Era ela, não podia acreditar, uma amiga que deixara três meses antes, prima da falecida Daniela, sim ela, a Filipa. Que faria ela por estes lados? De tanto sítio interessante para umas boas férias passar, teria logo de ser para onde me vim refugiar.
Fiquei sem palavras, algo desapontado, mas emocionado.
Não consegui conter em mim um turbilhão de emoções, relembrei o seu gosto, o seu toque, momentos bem passados em plena faculdade, deixei cair uma lágrima.
Doce loirinha, também dela fugi, a sua proximidade com a vil Daniela levou-me a não saber como reagir com ela, como agora, fiquei calado. As minhas palavras não saíam, a sua boca mexia, as suas saíam, mas não as ouvia. De repente, o som da discoteca regressou aos meus ouvidos, Filipa fazia-se novamente ouvir, tudo em mim acalmou.
Então, João, não me vens dar um beijo?
Escutava cada palavra, era uma emoção, não me mexia.
Acalmei, a paralisia deixava de se sentir, avancei para a minha amiga, fugida do meu mundo, mas nunca esquecida. Abracei o seu corpo, os nossos lábios afastaram-se das faces emocionadas de cada um e ali ficámos, assim agarrados, abraçados.
Que tens feito? – perguntava ela.
Continuava submerso em palavras, permanecia paralisado no calor do seu corpo.
Nada. – respondi vagamente.
A noite continuou, inventei uma desculpa e ausentei-me daquele balcão, fugi, novamente. Entrei no escritório da gerência, lá me sentei, estava nervoso, pensando na vida, que agora meio mundo sabia onde me encontrava, sim, do meu mundo.
A casa estava demasiado movimentada naquela noite, Maria mandou-me levantar daquele descanso mental e voltar ao activo, iria regressar não só para o bar, mas reencontrar o meu passado.
Filipa e o casal amigo permaneciam por perto, sorriu quando me viu chegar, não sabia como me expressar. Eles por ali ficaram, quase nada da noite aproveitaram. Falámos de tudo, falámos de nada, contámos experiências, matámos saudades.
O meu turno acabou, a calma ao meu mundo regressou. Saímos os quatro da discoteca, o casal voltou para o Hotel, Filipa insistiu ficar comigo a conversar.
Passeávamos pela beira-mar, as luzes desligadas da praia escondiam o que naquelas areias se passava, a vida que se criava, o amor que se fabricava.
Anda, vamos passear pela praia.
Sim? E até onde vamos? – perguntava Filipa.
Não sei, até onde queres ir?
João, isso é uma proposta indecente?! – Filipa sorria.
Sim, apetece-me fazer amor contigo. – disse-lhe, olhando nos seus olhos.
Filipa corou, baixou lentamente a cabeça e molhou os seus lábios com a língua.
Assim ficámos uns segundos, aguardando por um avanço de alguma das partes, os nossos olhares desviaram-se, olhávamos para a areia distante e alguns casais passeando junto ao mar.
A menina pegou-me na mão e levou-me ela a passear pela praia.
Descalçámos os sapatos, foram connosco nas mãos e afastámo-nos das luzes de Varadero. A areia estava húmida, não fria, confortável e acolhedora para os nossos corpos. Caímos no chão perdidos em beijos, rebolámos e então parámos... Fiquei a olhar deslumbrado para o reflexo que a Lua fazia no seu rosto, simplesmente lindo.
O seu cabelo loiro cobria-me as mãos, estas deslizavam para o seu pescoço, os meus lábios iam acompanhando todo o seu corpo... As roupas depressa nos abandonaram, os corpos deixaram de estar adormecidos, entravam agora em sintonia.
Fizemos amor, naquelas areias, por noite dentro. A temperatura baixara, o céu permanecia escuro, ninguém nos rodeava. Por ali terminara, mas não acabara, pegámos nas nossas roupas e acompanhei a Filipa ao seu Hotel.
Despedimo-nos à porta, ela entrou para o edifício e desapareceu pelos corredores, caminhei para longe, tinha a minha casinha alugada junto à praia...
Sem pensar, voltei então atrás e aproximei-me daquele ponto de despedida, Filipa esperava-me à porta, como se pressentisse que aquela noite não acabaria ali, deitada naquela cama sozinha.
Não acabou mesmo, subimos para o quarto, o casal amigo já dormia, tentámos não fazer muito barulho, mas o instinto carnal assim não o permitiu, deixámos que a leveza do acontecimento nos levasse.
Acordámos na manhã seguinte pela Ana Luísa, a bonita amiga da Filipa.
Estávamos destapados, os nossos corpos nus captavam todo o Sol daquele novo dia solarengo, igual a tantos outros. Filipa despertou e beijou-me o pescoço, estava de lado voltado para si, fez com que tivesse um doce acordar, depois de um pouco de vergonha sentida pelas palavras de gozo da sua amiga.
Encostei a mão no seu rosto...
Filipa, sinto-me deslocado da minha nova realidade.
Não sei se estou preparado para isto. – confessei-lhe.
Achas que vamos depressa demais? – perguntou ela.
Não sei... – sentia-me preso nas palavras.
Shhh... Cala-te e beija-me. – disse Filipa, chegando os seus lábios aos meus.
Beijei aquela boca, simplesmente irresistível, ali fiquei perdido.
Eram quase horas de almoço, tinha de passar pelo bar. Peguei nas minhas roupas e saí para a rua. Fugi daquele quarto, não havia alguma necessidade de me ausentar, tudo forcei para que houvesse. Uma vez mais fugi, não da Filipa, mas do que me fizera relembrar.
Maria sorria para mim, sabia que algo de novo me tinha acontecido, sabia da Filipa, sabia do que lhe contara, sabia agora o que se passara. Já antes lhe havia falado de casa, do que para trás deixara, de todo o mundo que abandonara... toda a minha vida, o meu passado. O seu instinto maternal era fenomenal, sem nunca ter tido filhos, tratava os seus colaboradores como jovens meninos, dava todo o seu carinho, assim aconteceu comigo.

Passou uma semana que a Filipa chegara a Cuba, houve algum romance entre nós, palavras de ocasião, sabores da minha terra, fluidos trocados, sentimentos misturados. A bela loira partia para Portugal no dia seguinte, levava o casal amigo consigo. Maria e Antony convidaram-me e aos meus amigos para um passeio de barco, uma despedida para eles, um conforto e atenção para mim.
Almoçámos todos juntos, saímos de barco pela costa, para conhecer todas aquelas paisagens, ver de longe as gentes daquela terra, conhecer todos os recantos que a suportam.
A viagem prolongou-se por tarde fora, o céu escuro chegava e a Lua baixava.
Filipa brincava comigo, tentava beijar-me, mordia-me as orelhas, passava de leve a língua no meu pescoço... sempre a afastava, ela sempre voltava.
Deu-me vontade da beijar, devorar aquele corpo acalorado, linda e apetitosa, não sabia como tanto me continha, num desejo tão ardente.
Que se passou connosco, Filipa? – interrompi-a numa das suas investidas.
Como assim, João?
Perdemos o nosso encanto, não achas? – perguntava-lhe.
Não te percebo. – abria ela a sua boca linda.
Falta-nos algo, não namoramos, não há carinho, falta toda aquela brincadeira que em tempos apreciámos...
Não escolhia as palavras, mal sabia o que lhe dizer.
Não digas isso, João. Gosto de ti, de brincar com o teu cabelo, enrolá-lo nos meus dedos, morder os teus lábios...
Adoro fazer amor contigo. – dizia Filipa.
Deixei que um pouco de calma regressasse à conversa, peguei numa bebida e saboreei um pouco do seu sumo.
É tudo tão pouco natural, minha doce amiga.
Gosto imenso de ti, mas ficamos por aqui.
– acrescentei.
Ana Luísa olhava discretamente para toda aquela cena, com uma expressão doce e enrolando os seus lábios. Francisco pouco se importava, levantou-se e foi beber outra lata de cerveja com o Antony, que por estas horas conduzia o barco num avançado estado de embriaguês.
A festa continuava, algumas emoções estavam em alta, as minhas em baixa, uma nostalgia enorme apoderava-se de mim, controlava o que pensava, seguia-me por onde andava. Filipa falava novamente comigo, Ana juntava-se às suas palavras.
Pedem-me para regressar, mas lá não quero voltar. Deixo-me esquecer daquelas palavras, prefiro ver ao longe o mar, imaginar o que para lá está e tento me distanciar.
Não, não quero voltar. – respondo, bruscamente, à Filipa.
A doce rapariga olhou-me nos olhos, sentia agora o peso da minha teimosia. Nada mais se falou, o assunto ficou por ali, voltámos aos cocktails deliciosamente preparados pelo Antony.
Escoávamos álcool como parvos, bebíamos sem controlo, a noite caía de vez, eram horas de regressar, tudo parecia nevoeiro à volta, não sabíamos onde iríamos acabar. Pensava nos gatos, sim, no que me fui lembrar. Queridos companheiros que lá deixei, naquela terra de problema, naqueles recantos de emoção. Por aqui fiquei, lá os deixei.
A viagem de regresso prosseguia, outros barcos apitavam, novos iates também ao porto regressavam, tantas outras festas se desenrolavam, eram gentes que nos falavam.
Oh não, tanto recordava, apenas um pensamento focava e tanto me lembrava, muito na minha cabeça se desenrolava, somente ali chegava... De tanto fugi, abandonei, larguei e corri, apenas dela me lembrava assim, foi então que vi, teria de voltar ali. Tudo se alterou, porque fui eu pensar nela...
Filipa, regresso contigo amanhã. – disse para a minha amiga, agora mais calmo.
Ela nada disse, deveria estar cansada das minhas indecisões, limitou-se a sorrir.
Chegámos a porto seguro, o mar permanecia calmo, a agitação vinha dos barcos, das festas que agora acabavam, de algumas que então começavam, de tudo o que víamos, de tudo o que se escondia.
Porque o tempo tem asas, fugi sem deixar destino ou direcção, de tudo o que vi nada me fez esquecer o que em tempos deixei.
O barco atracou, saltámos para terra, aquele belo sítio que me viu chegar, que agora se preparava para me ver partir. Despedi-me calorosamente de Maria, esta doce mulher largou uma pequena lágrima, pediu-me que pensasse, agarrou-me para que ficasse. Antony, mais descontraído e bastante alcoolizado, sorria e dizia-me que tudo correria bem, estaria ali uma casa sempre aberta. Entre soluços, pegou numa lata esquecida de cerveja e entregou-me amistosamente...
Vaya con Dios, mi amigo. – despedia-se ele.
Caíram-me as lágrimas no caminho de regresso à pensão onde tantas noites chegara embriagado, afortunado das noites quentes, triste de saudades distantes, tocado por calores tropicais... de tudo e mais alguma coisa que vivera nestas terras prestes a ser deixadas. Troquei tudo por um mar, aqui distante, senti nesta terra o calor do Sol, o frio da noite, o azul do mar e o prazer de tantos corpos. Sentia agora mais falta do que para trás deixara, das vidas levadas por quem gostava, dos amigos que deixara de ver sorrir, dos amores que nunca vira partir, das saudades que deixava surgir.
Cheguei ao meu cantinho de descanso, isolado da confusão da praia, longe do hotel da Filipa, sozinho e somente entregue a quatro paredes. Peguei no telefone, marquei um número que nunca esqueci...
Olá, Elsa.
Fez-se silêncio nos dois lados da linha.
João?! – perguntava Elsa.
Sim, meu docinho.
Apeteceu-me qualquer coisa, algo doce, algo teu. Não estavas.

O silêncio instalou-se novamente, aumentava a enorme distância que nos separava.
Espero aqui por ti, meu amor, repousado e já acomodado a olhar para ti de longe, nesta minha mente, vendo-te passar, mas sem nunca chegares. – acrescentei.
Porquê só agora, João? Tanto tempo deixaste passar...
Ela perguntava bem, não tinha resposta para lhe dar. Nem eu sabia porque deixara passar tanto tempo sem lhe falar, tantos meses de ausência, uma vida inteira de paixão se dissipava em poucas palavras...
Não sei, Elsa. Julgo ter saudades, penso que sim, será de algo.
Pensei em ti, mas não estavas.
– respondi, vagamente.
João, ainda gostas de mim?
Gostava dela, como sempre, como nunca, de uma maneira avassaladora.
Sim... Por tantas vezes me vi rodeado de outras mulheres e senti a tua falta, minha querida.
Quase sempre distante dali, perdendo-me a pensar em ti. – perdia-me agora nas palavras.
Elsa nada disse, ficou suspirando.
Volta, João... – disse ela, na sua voz doce.
Não contive em mim as lágrimas que tanto sequei durante estes meses todos, fiquei emocionado, escutar a sua voz deixou-me de rastos, sem reacção, não sabia que custaria tanto.
Elsa, porque acreditas tanto em mim?
Alguém tem de acreditar, meu querido.

Desligámos a chamada, sabia que a veria em breve. Nada lhe disse sobre o meu regresso.
Caí naquela cama onde dormia há semanas, não teve o mesmo sabor, sentia-me triste por tudo aquilo abandonar, mas queria retornar. Cansado e destroçado, deixei-me então adormecer, nada recordo dessa noite, algo veio ao meu encontro e foi aumentando, mais e mais, a escuridão. A manhã seguinte depressa surgiu, o negro visto durante toda a noite dava agora lugar às pobres cortinas do meu quarto, havia todo um mundo que acordava lá fora, toda uma vida que se iniciava, era a minha que ali acabava.
Fiz a minha mala, não tinha muito para lá colocar, apenas recordações a carregar.
O dia estava cinzento, sentia-me triste por partir, alegre por regressar, não sabia como me sentia, estava assim, sem saber bem para que fim.
Esta terra tocou-me, todas as suas gentes, todas as suas beldades, em boa sorte aqui vim ter.
Parto hoje para casa, uma vez já o foi, será que me aguarda? Será que alguém me espera?
Vou assim, Filipa diz-me que sim, vou vivendo emoções sem fim.
No Aeroporto, os aviões chegam e vão, não esperam pelas incertezas, não esperam por gente como eu. Tanta gente circula, as pessoas perdem os rostos, tornam-se mercadorias, viajam entre pontos, comportam-se como tontos. Incluo-me nesse grupo, estou perdido aqui, Filipa acompanha-me, Ana Luísa e o namorado vão descansando na sala de embarque, para onde nós vamos andando. Ali ficamos, assim estamos, a noite prolonga-se, o voo atrasa-se, a vontade de regressar acaba-se. Encosto no peito macio da Filipa, fecho os olhos e deixo-me adormecer.

Terça-feira, Novembro 09, 2004

Filhos da liberdade

Uma luz forte ofuscava-me a visão, doía-me um pouco do corpo, lembrava-me de ter sido posto a dormir, não sabia o que fazia ali ou sequer onde estava. A sensação de cansaço voltou a apoderar-se de mim, fechei novamente os olhos e a luz forte por cima de mim deixou de brilhar.
Voltei novamente a abrir os olhos, não sei quanto tempo depois de os fechar, a luz forte persistia sobre mim, mas o corpo ressentia-se menos do ardor que antes me atormentava. Continuava sem saber onde estava, que local seria aquele. Abri completamente os olhos e vi um gajo a meu lado, sentado numa cadeira, de pernas cruzadas, lendo um livro, possivelmente esperando que eu acordasse. Estava vestido de preto, tinha com ele um cartão de identificação no bolso do casaco.
Ah, já acordaste. – disse ele.
Onde estou? – perguntei eu de imediato.
Na ala hospitalar. Foi uma sorte teres sobrevivido, elas não foram nada meigas contigo.
Elas? Que se passou? – voltei a insistir.
Não te lembras? Há uma semana que te trouxeram da praia, vinhas em mau estado.
Não, não lembro... – respondi.
Mas começava de facto a lembrar-me de alguma coisa, afinal não tinham sido apenas sonhos que me preencheram a mente durante este tempo que ali passei, eram recordações do que me tinha antes colocado naquela cama.
Uma semana? Praia? – voltei a perguntar.
Sim, estávamos a ver que não voltarias a acordar.
A agente Susana daqui a pouco fala contigo. – disse ele.
Pequenas peças começam a juntar-se na minha cabeça, formando um puzzle, e iam recordando, aos poucos, cada momento que vivera desde que a Daniela me capturou, e mais tarde o envolvimento da Susana, os seus jogos doentios, e também das minhas amigas...
A Elsa?! – perguntei, um pouco apreensivo.
Ele aproximou-se da beira da minha cama, no seu cartão de identificação tinha escrito Carlos Silva.
A tua amiga... Também está connosco.
O gajo recuou e voltou a sentar-se na cadeira.
E a Diana? – insisti com o agente.
Também. – respondeu ele, sem adiantar mais pormenores.
O tipo entroncado retomou a sua leitura, entretanto aproximou-se uma cara que me era familiar, e infelizmente não me trazia boas recordações, tinha a Susana acabado de entrar no quarto.
Carlitos, a Daniela precisa de ti no gabinete dela. – dispensava ela o agente.
Está bem, vou lá ver o que se passa.
O gajo levantou-se e dirigiu-se para a porta de saída do quarto.
Susana, se gostares de brincadeiras a três sabes onde me encontrar. – disse ele, antes de sair, com um ar de gozo.
Sim, gosto. Eu, ele e o caralho dele. Agora sai e fecha a porta. – respondeu a Susana, sorrindo depois para mim.
Ficámos os dois sozinhos naquele quarto, ela aproximou-se da beira da minha cama e sentou-se nela.
João, sabes onde estás? – perguntou ela.
Não. Que me fizeram?!
Calma, calma...
– dizia ela, passando uma mão no meu rosto.
Estás a 50 milhas da costa, num antigo navio cargueiro, agora centro estratégico da Magestic SD6.
Se te portares bem, daqui a pouco tempo estarás lá fora e a trabalhar para nós.

Ela continuou com as suas carícias, fazendo descer uma mão para dentro do lençol.
Susana, quando é que te mentalizas que eu não quero nada desta merda. – começava a irritar-me.
Ela levantou-se da cama e pôs-se mais à vontade, tirou o casaco e desapertou a camisa. Chegou-se novamente à minha beira, levantou a saia e tirou as cuecas, entrou dentro da cama comigo e começou a massajar-me a gaita. Talvez pudesse jogar com isso para me safar dali, não evitei que ela me tocasse e deixei que ela fosse avançando como queria.
Eu tinha somente a bata do hospital vestida, sem roupa interior, ela sentou-se em cima da minha cintura e deixou-se penetrar. Enquanto ela ia balanceando e fodendo comigo, eu olhava para os lados, tentava encontrar ali alguma coisa que pudesse utilizar como arma contra ela. Nada me despertava a atenção, a não ser o tubinho do soro que estava espetado na minha mão.
Susana continuava a usar o meu corpo a seu belo prazer, escutava alguns gemidos seus, aproveitei para lhe perguntar pelas minhas amigas, ali também aprisionadas no navio. Disse-me que estavam no último piso do barco, certamente pensava que eu não fugiria daquela cama para lado nenhum. A sua excitação tomava conta de si, não a alertava para os perigos daquilo que estava a fazer, abracei-lhe as ancas e com a minha mão esquerda tirei cuidadosamente a agulha do soro de dentro da minha outra mão, gritei baixinho de dor, ela nem notou, deve ter pensado que era alguma expressão de prazer e continuou a balancear-se em cima de mim. Passaram imensas coisas pela minha cabeça, mas quando recordei o que eles tinham feito com a Elsa e mais tarde comigo, agarrei firmemente no tubo do soro e enrolei-o violentamente à volta do pescoço da Susana, munido de uma raiva imensa, apertei aquele fio até a asfixiar.
Susana não se deve ter apercebido do meu movimento brusco, quando se tentou libertar já era tarde demais e asfixiou poucos segundos depois. Possivelmente não estaria morta, mas não iria certamente atrás de mim.
Saltei da cama, tentei procurar as minhas roupas e algo que calçar, mas um ruidoso som de alarme tinha sido activado, seguido de uma voz computorizada...
Alerta! Alerta!
Navio sob ataque.
Todos aos seus lugares.
Inundação no casco do navio.

Não tive tempo para procurar as minhas roupas, sai do quarto apenas usando a bata branca que tinha acordado. Algumas pessoas corriam pelos corredores, ouviam-se tiros e o barco balanceava um pouco mais.
Desci pelas escadas de serviço ao piso que a Susana me falou, os corredores eram mais pobres que os dos pisos superiores, menos iluminados, semelhantes aos de um antigo navio de guerra. Não sabia para que lado havia de ir, dum lado tinha a entrada para a cozinha do navio e do outro pareciam pequenos camarotes, possivelmente seria lá onde estariam as minhas amigas. Tinha antes passado por diversos agentes, mas eram sobretudo simples trabalhadores, fugiam na direcção oposta à minha, deveriam estar tão preocupados com o que se estava a passar que nem deram por um maluco a correr de bata branca ao lado deles. As rajadas de tiros tinham-se intensificado, corri o mais que pude, queria fugir dali de qualquer maneira e sabia que o barco estava a meter água, o mais certo seria afundar-se. Curiosamente neste piso não se escutava o alarme nem a persistente voz que me acompanhou na descida dos outros compartimentos daquele navio, talvez fosse este compartimento estivesse estancado e sem comunicações para o resto do barco, isso também significava que quem aqui estivesse antes do navio ser assaltado, ainda se encontraria aqui e fazendo o seu trabalho normal.
O corredor não era muito longo, depressa cheguei à parte de trás do barco, onde estavam alguns camarotes. Os primeiros estavam vazios, noutros vi agentes mortos, baleados e imenso sangue espalhado pelas paredes e secretárias daquelas salas. Fiquei assustado, não fazia a mínima ideia do tinha estado ali a matar aqueles gajos, seriam certamente os responsáveis que antes haviam tomado o navio de assalto e que o queriam afundar. Escutei vozes que vinham da última sala do corredor, pareciam-me familiares, avançava agora cautelosamente, tentando não dar sinal da minha presença, a visão era sempre a mesma, camarote após camarote, pessoas mortas preenchiam o espaço.
Assim que me aproximei da porta, reconheci de imediato a voz da Diana, entrei no camarote e vi a minha pobre amiga ligada a um relógio e qualquer coisa cinzenta no seu colo, pareciam explosivos plásticos. Alguém se aproximou por trás de mim, estava à espera atrás da porta e atacou-me assim que entrei.
Acordei caído no chão, continuava a ver a Diana naquela situação de risco e a Patrícia de volta dela. A Patrícia?! Então tinha sido ela que limpara o sebo aos outros agentes no corredor e me metera inconsciente no chão por alguns momentos. Ela viu que voltei a mim, mas estava demasiado ocupada a tentar salvar a irmã e nem quis saber duma possível reacção minha. Os seus esforços eram inúteis, Diana parecia condenada. O cronómetro aproximava-se rapidamente do zero, Diana disse que tinha sido accionado vinte minutos antes. Alguém teria accionado os explosivos, possivelmente quando o navio tinha começado a afundar. Se a Diana estava em risco de ir pelos ares, talvez também a Elsa o estivesse, fiquei extremamente nervoso e apreensivo, a mulher que amava estava em risco de vida e eu não fazia ideia onde ela pudesse estar.
Diana apenas chorava e dizia à irmã que a perdoava, desconfiava que estaria condenada a passar ali o resto da sua vida, estes últimos quatro minutos que o cronómetro marcava. Num momento de sobriedade da sua parte, disse-me que a Elsa tinha sido levada para o piso inferior. Patrícia tentava desarmar a bomba, estava difícil, começava a desesperar.
O cronómetro entrou no derradeiro minuto, menos de sessenta segundos para uma vida terminar ali, as coisas não estavam favoráveis e pouco mais havia a fazer.
Corram! Não vêem que não há nada a fazer! – gritava a Diana.
Patrícia, chorando, mandava-a estar calada e tentava fazer o melhor que sabia. Era inútil, Patrícia ajoelhou-se diante da irmã e chorava por ela, sabia que iria morrer. Ficou ali paralisada, apenas chorando e agarrando na mão da Diana. Faltavam dez segundos para terminar a contagem, peguei no braço da Patrícia e arrastei-a para fora daquela sala, ela caiu no corredor e fechei a porta do camarote, estancando assim a onda de choque resultante da explosão.
Foram segundos de horror, Patrícia olhava para mim do chão, ouvimos por fim uma explosão.
Ela levantou-se primeiro que eu, quis ir abrir a porta do camarote, agarrei o seu corpo atlético e tentei travar as suas intenções, a visão que iria ter não seria nada bonita. Ela alterou-se, deixara de parecer a doce Patrícia de antes conhecera e lançou-me bruscamente contra a parede. Olhava para ela de perto, tentei impedi-la de abrir a porta novamente e desta vez ela não me afastou simplesmente do seu caminho, usou toda a sua raiva em mim, metendo-me violentamente no chão.
Patrícia abriu a porta que tinha selado, entrou e escutei-a chorar. Levantei-me, um pouco dorido, e entrei também. O corpo da Diana estava irreconhecível, completamente mutilado e espalhado por toda a sala, era uma visão desoladora e bastante emocionante.
A minha bela amiga estava destroçada pela morte da irmã, tentei reconfortá-la, mas ela mostrava-se enraivecida e queria caçar os responsáveis por aquilo. Ela sabia que a Elsa também estava aprisionada naquele navio e tentaria agora que a minha princesa não tivesse a mesma sorte trágica que a sua irmã tivera. Seguindo as últimas palavras da Diana, a Elsa teria sido levada para a parte inferior do navio.
Descemos as escadas de serviço e encontrámos água no chão, sabíamos que teríamos pouco tempo para salvar a nossa amiga, o navio estava a afundar rapidamente e caminhávamos agora com algumas poças de água no corredor.
Íamos na direcção da casa das máquinas, neste piso também não se escutava o ruidoso barulho do alarme, mas escutámos algo vindo de uma das poucas salas que víamos. Aproximámo-nos silenciosamente, pareciam gemidos. Patrícia chegou-se perto, a porta estava encostada, olhou para dentro da sala e sacou imediatamente da sua arma. Assim que ela abriu um pouco mais da porta, o som dos gemidos era mais intenso e facilmente se percebia que estavam ali duas pessoas a foderem.
João, espera aqui. – sussurrou ela.
Que viste? – perguntei, também falando muito baixo.
A Daniela e o Carlitos.
Eles estão a...?
Sim. Fica aqui. – finalizou ela.
Patrícia entrou sorrateiramente na sala, tinha-me mandado esperar, mas queria ver o que iria passar ali. Era uma arrecadação, pouco iluminada, ao fundo estava a Daniela sentada numa bancada e o outro agente a comê-la, não estavam completamente despidos mas estavam bastante entretidos, isso poderia dar-nos alguma vantagem. Certamente não teriam escutado o alarme do barco e não saberiam de nada do que se estava a passar nos pisos superiores.
Patrícia, possuída pela raiva e desejo de vingança pela morte da irmã, levantou-se do chão e avançou na direcção deles, disparou primeiro sobre a Daniela, atingindo a gaja no ombro. O Carlitos atirou uma peça de roupa para cima da Patrícia, o seu casaco de agente, e conseguiu conter parte da cólera da Patrícia, agarrou-a nos braços e debatiam-se agora pela posse da arma. Daniela sangrava do ombro, preparava-se para sacar a sua arma, perdida nalguma peça de roupa despida, tentei imobilizá-la, saltei para cima dela e rebolámos no chão frio da arrecadação. Não estava a ter a força necessária para a conter, ela ficou por cima de mim e tentava partir-me o braço, torcendo-o com todas as suas forças e eu debatendo-me para me libertar, enquanto com os seus pés, vasculhava nas suas roupas pela arma que tanto queria.
A Patrícia e o Carlitos lutavam, a arma tinha sido lançada para longe e usavam agora apenas a força dos seus corpos para se tentarem parar. A Daniela não conseguia encontrar a arma caída, continuava a apertar-me o braço, mas cedeu um pouco na força que fazia e consegui libertar-me. Alguma água tinha entrado já pelo compartimento, a arrecadação inundava-se rapidamente e nós os quatro continuávamos a debater-nos.
Patrícia conseguiu apanhar o pescoço do agente Carlitos e lançou aquele cabrão com todas as suas forças contra a parede, ele ficou meio inconsciente, depois com um movimento repentino, Patrícia agarrou-lhe novamente no pescoço e partiu-o. O gajo caiu imediatamente no chão, a água que havia entrado cobria grande parte do seu corpo. Debatia-me com a Daniela no chão e com a água submergindo grande parte dos nossos corpos, Patrícia veio em meu auxílio e afastou a Daniela de cima de mim. Esta caiu perto de algumas ferramentas, agarrou numa chave de fendas e bateu ferozmente na Patrícia, que acabou por cair a meu lado e bastante queixosa de uma costela.
A água continuava a subir rapidamente, levantei a cabeça da Patrícia do chão para ela não se afogar. Daniela não encontrou a sua arma e preferiu sair dali depressa a ter de me enfrentar, não corri atrás dela, tinha de manter a cabeça da Patrícia à tona de água. Ajudei a minha amiga a levantar-se, ela voltou a abrir os seus lindos olhos, Daniela já tinha escapado, fomos procurar a Elsa, era esse o nosso objectivo agora.
A casa das máquinas ficava a poucos metros dali, presa a um dos motores do navio estava a minha bela Elsa, inconsciente e com água pela cintura. Desamarrei as cordas que a prendiam, não tinha explosivos à sua volta, e imediatamente a carreguei ao colo. O nível da água continuava a aumentar rapidamente, conseguimos alcançar as escadas para o nível superior, estavam manchas de sangue no corrimão, a Daniela teria passado por aqui.
Agora sem água por perto, deitei a doce Elsa no corredor e a Patrícia deu-lhe qualquer coisa a cheirar, isso despertou-lhe os sentidos.
João?! – dizia ela, ainda combalida.
Sim, linda. Consegues andar?
Acho que sim.... – respondeu ela, mas parecia exausta.
Vamos, temos de alcançar o convés superior e sair daqui. – disse a Patrícia.
Subimos outro lance de escadas, o percurso até ao convés parecia interminável, começa a sentir cansaço no corpo e parte dele ia ficando dormente com o frio que sentia. Tinha apenas a bata branca que acordei vestida, descalço e pisando o chão gelado, iam-me faltando as forças para continuar.
Chegámos ao piso superior do navio, a torre de controlo era à nossa frente. Avistámos manchas de sangue, como não haviam corpos por perto, pensámos que seriam da Daniela. Começámos a sentir um intenso cheiro a gás assim que subimos aquelas escadas, teríamos ainda de atravessar um longo corredor inteiro até à torre de controlo do navio. Patrícia conseguiu identificar o gás, ser-nos-ia fatal se tentássemos atravessar todo o corredor sem qualquer bolsa de oxigénio.
Estávamos numa área de laboratórios, o quarto onde tinha acordado naquela noite ficava a poucos metros dali, Susana ainda deveria lá estar dentro, mas nada me faria voltar atrás para o confirmar. O gás fazia-se sentir cada vez mais, entrámos rapidamente para um dos laboratórios selados e esperámos que o potente sistema de ventilação nos ajudasse. Os laboratórios eram separados entre si por uma porta envidraçada, faziam um total de seis em cada lado do longo corredor, precisaríamos de os atravessar todos para chegar à entrada da torre de controlo. A Daniela teria passado ali, algumas manchas de sangue espalhadas pelo chão denunciavam a sua presença nas instalações, curiosamente seguiam na mesma direcção que nós. Atravessámos sala após sala, eram estanques e o cheiro a gás não se notava, estávamos então de fronte para a porta que nos dava acesso ao último laboratório que teríamos de passar. No seu interior, estavam cães enjaulados que ladravam ruidosamente, eram dobermans, ainda não tinham farejado o nosso cheiro, os laboratórios eram estanques, logo, estaria alguém naquele compartimento que os inquietava.
Patrícia preparou-se para a possibilidade da Daniela estar naquela sala, agarrou num bisturi e abriu cuidadosamente a porta que separa os laboratórios. A visibilidade dentro da sala era fraca, as luzes estavam fundidas, talvez propositadamente, não avistámos quaisquer movimentações dentro do laboratório para além dos cães nas jaulas. Avançámos com prudência, Patrícia foi na frente, armada com um bisturi... Demos três passos dentro do laboratório, mal víamos a porta que dava acesso para o corredor principal, vi algo que me pareceu uma sombra a deslocar-se e a Patrícia foi lançada contra a parede, essa sombra era a Daniela. Debatiam-se as duas, Daniela sangrava cada vez mais, Patrícia tentava cortá-la com o bisturi, levei a Elsa para junto da porta que dava para o corredor e aproximei-me das jaulas dos cães. Não sabia que fazer, se interferir na luta delas, ou tentar arranjar uma solução diferente, pedi à Elsa que abrisse a porta que nos tiraria dali e fui procurar as chaves que abririam as jaulas dos cães, seria arriscado libertá-los mas poderia ser que resultasse. Encontrei as chaves numa secretária, onde ao lado estava uma pessoa morta, baleada no peito, estaria certamente ali a trabalhar quando os amigos da Patrícia tomaram o navio de assalto. Foi uma sorte tê-las encontrado, mal se viam no meio de tão pouca luminosidade. Elsa já tinha aberto a porta do laboratório, as duas agentes ainda lutavam com todas as suas forças, fui então desbloquear os cadeados das jaulas dos cães. Os ferozes animais continuavam a ladrar, mas permaneciam dentro das jaulas, mandei a Elsa suster a respiração para evitar o gás lá fora e sair dali, corri para junto da Patrícia e arrastei-a pelo braço para longe da Daniela. Os cães começavam a sair das jaulas, saltavam para o chão do laboratório, atraídos pelo sangue da Daniela e começavam a cercar-se dela. Deu tempo para sairmos dali de dentro e fechar a porta do laboratório, Daniela ficou entregue ao apetite dos dobermans, enquanto a Patrícia abria a porta da torre de controlo, assisti ao ataque feroz e sem piedade dos cães à Daniela, esta pobre rapariga ficava totalmente triturada pelas poderosas mandíbulas destes animais. Não consegui ver mais, assim que a Patrícia abriu a porta da torre de controlo, corri lá para dentro, ainda sustendo a minha respiração e algo emocionado com a morte violenta da Daniela.
O barco tinha-se inclinado bastante, todos nós pressentíamos que o casco estava prestes a quebrar e acabaria por afundar o resto do navio. Patrícia tinha-nos levado até à torre de controlo, ponto mais alto do barco, ainda longe das águas agitadas do Atlântico. O tempo chuvoso não ajudava, ainda era de madrugada, mas conseguia ver através das janelas as ondas do oceano a destruírem aquele grande navio, já pouco restava dele, mais de metade estava submerso e lutávamos agora pela nossa sobrevivência, tentando chegar aos barcos de apoio que a Patrícia havia jurado estarem lá para nos salvarem.
Na torre de controlo estavam corpos de marinheiros estendidos no chão, ensopados no seu sangue agora coagulado. Patrícia abriu a escotilha que nos separava do convés e mandou-nos avançar. Senti algo em mim, qualquer coisa que me fez parar e agarrar a Elsa pelo braço.
João, que se passa? – perguntou-me a Elsa.
Fiquei paralisado por momentos, a chuva lá fora, o afundamento do barco e a rápida intervenção da Patrícia fez-me temer que algo de mal nos pudesse vir a acontecer assim que passássemos aquela porta.
Vamos, despachem-se! Não temos o dia todo. – insistia a Patrícia.
Calma, quem são esses teus amigos que nos esperam lá fora? – perguntei-lhe.
Amigos que nos vão tirar daqui. Se não te despachas, daqui a pouco estaremos a servir de alimento aos peixes.
Mas que amigos? Patrícia, diz-me quem são e porque fizeram isto tudo!
Temia que fugisse das garras da Magestic SD6 e me fosse meter na boca do lobo, outra agência qualquer que nada estaria interessada no meu bem estar, sendo eu apenas um meio para chegar a um fim desejado.
Peguei na arma de um dos marinheiros mortos, a coragem tomou conta dos meus movimentos e apontei-lhe a pistola friamente, na esperança que ela me esclarece o que realmente se estava a passar.
Ela não se mostrou intimidada e sacou da arma de outro marinheiro, apontando-a mesmo entre os meus olhos.
João, não me obrigues a usá-la. – disse ela.
Não... Parem com isto! – gritava a Elsa, começando a chorar.
Ficámos por momentos paralisados, eu já não queria que ela me contasse nada, via-me agora numa situação que não conseguiria controlar e só queria sair dali novamente. Patrícia tinha antes aberto a porta para o convés, possivelmente alertado pelo meu tom de voz, entrou um gajo na torre de controlo, todo vestido de preto e com um gorro enfiado na cabeça.
Is everything alright? – perguntou ele à Patrícia, apontando uma metralhadora na minha direcção.
Yes, it’s ok. We will be out in a minute. – respondeu ela, nunca desviando o olhar de mim.
Tudo ficava cada vez mais estranho para mim, os amigos que a Patrícia falara eram americanos e eu não fazia a mínima ideia que tinham vindo estes gajos fazer a bordo. O militar saiu da torre de controlo e foi para a chuva, esperando por nós lá fora. O metal do navio começava a ranger, iria afundar em breve e eu continuava paralisado, sem saber se ficava e morria afogado ou enfrentaria a minha sorte com estes tipos.
João, que pensas fazer? Não vou morrer aqui com vocês. – perguntava a Patrícia.
Eu continuava de arma em punho, apontada a ela, mas nunca tive a intenção de disparar. Elsa abraçou-me e encostou a sua cabeça no meu braço, distrai-me e a Patrícia aproveitou para me desarmar, sem grande esforço.
Estúpido, João! As armas funcionam melhor sem a patilha de segurança posta. – gritou ela.
Tinha sido parvo em confrontá-la daquela maneira, tão depressa me arrependi como saquei daquela arma.
O navio inclinou-se mais um pouco, a parte da frente deveria estar já completamente inundada e a situação começava a ficar caótica, peguei na mão da Elsa e corremos para o convés, seguindo a Patrícia. Tivemos de saltar para as águas geladas do Atlântico, estavam dois barcos pretos com formatos pouco vulgares nos esperando, nunca antes tinha visto barcos assim. Entrámos a bordo de um deles e fomos imediatamente agasalhados com cobertores, continuava a sentir um frio imenso e tremia bastante.
À medida que nos afastávamos a toda a velocidade, consegui espreitar por uma janela e avistar o grande navio sendo completamente consumido pelas águas agitadas. Pensei na Diana e não morte trágica que lhe calhou em sorte, olhei para a patrícia e pela primeira vez a vi chorar, ali estava ela encostada num assento e passando a mão pela cabeça, enxugando algumas lágrimas que lhe escorriam pelo lindo rosto.
Melhor sorte não tive a Daniela, morrer daquela maneira, nada inglória e a pobre Susana, perdida num quarto hospitalar de um cargueiro e sem grandes perspectivas de salvação. Onde estaria ela agora? Viva ou a caminho do fundo oceano Atlântico? Não sei. Que poderiam estas brilhantes raparigas ter sido se não tivessem enveredado por uma carreira de risco, isso nunca saberei, estragaram a sua oportunidade para fazerem algo neste mundo, levando consigo muitas outras vidas inocentes e que nada tinham a ver com os seus propósitos.
O frio que sentia no corpo era cada vez menos, os cobertores estavam a ajudar. Beijei a Elsa e levantei-me do meu assento, de encontro à Patrícia. Tentei reconfortá-la, seria grande a sua dor, a sua irmã estava morta e ela sentia parte da responsabilidade.
Abracei a Patrícia, cheguei aquela bela mulher junto do meu peito e tentei apaziguar a sua mágoa. Ela recompôs-se, talvez não quisesse mostrar a sua faceta mais sentimental nem relevar o frágil que ela era, sendo para mim sempre a doce Patrícia, escondida debaixo de uma máscara de mulher fatal, fria e calculista. Tentei que ela me esclarecesse as imensas dúvidas que em assolavam a cabeça, ela remetia-se ao silêncio, olhava simplesmente para mim.
Patrícia, que foste fazer naquele navio? E quem são estes homens?
Ela olhou novamente para mim, mas desta vez falou, talvez tenha sentido que era inútil permanecer calada.
Contou-me de maneira resumida, ainda enxugando as suas lágrimas, o que tinha feito desde o momento que se despediu de mim no hotel em Palma de Maiorca. Nesse dia seguinte, ela tinha partido para Nova Iorque e levado uma pequena comitiva de operacionais da Magestic SD6, a sua missão correu mal e tinham sido capturados por uma agência governamental americana. Apenas ela sobreviveu desse grupo, foi libertada mais tarde para ajudar a capturar uma célula da Magestic SD6, uma organização poderosa que tinha apenas como fim o lucro imediato proveniente da venda de armas e material de guerra em países do terceiro mundo.
Quando soube que a Diana tinha sido capturada pela sua antiga agência, participou de modo activo no desmantelamento da mesma e foi assim que tinham cercado o barco naquela noite.
O dia já tinha nascido, alguns raios de Sol iluminavam o interior deste pequeno e moderno transporte, que nos transportava para parte inserta. A Patrícia continuava a falar comigo, Elsa tinha-se chegado para junto de nós para se aquecer e ouvia ela também as palavras da Patrícia. Tínhamos que lhe estar gratos por nos ter salvo, mas quais seriam as repercussões disso? Para onde nos levavam agora e o que seria feito de nós? Eram tudo duvidas que nem a patrícia me sabia esclarecer, talvez os agentes do governo, que nos olhavam de lado e de arma na mão, nos soubessem dizer, mas desses nada saberíamos, permaneciam imóveis, observando-nos.
Patrícia, continuo sem perceber uma coisa...
Diz, João.
Porque se deram a tanto trabalho para me recrutarem? – perguntei.
Não sei bem, apenas segui uma missão que me mandaram. – argumentou ela.
Eu sabia que ela me escondia algo, talvez não quisesse desvendar agora.
Ela fez um sinal qualquer para um dos agentes governamentais e ele cercou-se de mim e a da doce Elsa, apontou uma pistola na sua direcção...
Desculpa, João. Tem de ser. – dizia a Patrícia.
Não tive qualquer reacção a não ser de espanto, ele disparou sobre a Elsa, não era uma bala, parecia um dardo, e depois sobre mim. Apaguei por completo, tudo se fez preto na minha cabeça.
Começo a saborear algo salgado na boca, escutava o mar, parecia a rebentação das ondas numa praia, olhei para o lado e vi a Elsa, estendida na areia, ainda dormindo. Era mesmo uma praia, estava um Sol forte sobre nós, não havia qualquer sinal da Patrícia e dos seus amigos americanos.
Acorda, linda. – insistia com ela, abanando o seu corpo.
Ela voltou a si alguns momentos depois, abraçámo-nos e trocámos alguns beijos, estávamos salvos, um pouco fracos enfim, mas livre do terror que tínhamos vivido nos últimos dias.
Não reconheci aquela praia, estávamos fracos demais para caminhar e deixámo-nos ficar ali naquela areia.
Abraçámos os nossos corpos, trocámos um beijo e voltámos a adormecer.

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

As teias da aranha

Sonhava maravilhosamente, recordando na perfeição cada pormenor da tarde anterior bem passada, o corpo da Elsa, o seu cheiro e o seu sabor. Fui subitamente acordado, a minha doce Elsa ainda dormia a meu lado, mas o telemóvel estava a tocar. Era o Alexandre, seria bom que este gajo tivesse uma boa desculpa para me acordar numa madrugada de segunda-feira.
Estou, que queres? – perguntei-lhe, ainda ensonado.
Epah, estou a foder! Estou a foder! – repetia-se ele.
Andaste a beber?
A foder! Tum tum tum, todo lá dentro!
– dizia o Alexandre, todo contente.
A sério? Fico feliz por ti, mas agora deixa-me dormir. Está bem? – começava a despachá-lo.
Estou a foder...
Desliguei a chamada sem que ele acabasse o que estava a dizer, desliguei a chamada e voltei a adormecer.
Os cinco dias seguintes foram preenchidos com aulas. Nessa semana, poucas vezes vi o Alexandre e o Luizinho na faculdade, eles andavam desaparecidos. Esperava que não tivesse nada a ver com o mistério criado no Domingo passado, na chegada ao Aeroporto.
Iria haver uma festa nesta sexta-feira de noite, na discoteca Kapital. Uma pequena comemoração para alunos do ISEL e seus convidados. Certamente os iria ver nessa festa, escutei-os durante a semana comentarem com entusiasmo a festa que se adivinhava, poderia então esclarecer com eles o que se estava a passar.
Cheguei a Lisboa, estacionei o carro em Santos e fui para a Kapital com a Elsa. Trouxe também o Alexandre de carro connosco, era quase meia-noite quando entrámos na discoteca. O Luizinho recusou a minha boleia e disse que chegaria mais tarde à festa, na companhia de uma amiga. Estava curioso para ver quem era, de um momento para o outro, tanto o Alexandre como o Luizinho, dois gajos encalhados, arranjaram amigas novas e ainda lhes saltavam para cima.
Insisti com o Alexandre para me contar tudo sobre a sua misteriosa amiga colorida e contei com a doçura da Elsa para o obrigar a falar. As minhas suspeitas confirmaram-se, a sua amiga da foda era a Daniela, só esperava que ela não se andasse a aproveitar do rapaz.
Estranhei ela não ter ido com ele à festa...
Alexandre, porque é que a Daniela não veio hoje contigo?
Eu era para não vir e disse-lhe ontem que não vinha. Mas há bocado apeteceu-me ir e liguei-te para me ires buscar.
E não lhe telefonas, afinal vieste à festa?
– perguntou-lhe a Elsa.
Não, a estas horas ela já deve estar a dormir...
Amanhã levanta-se cedo para o trabalho.
– justificou-se ele, engasgando-se com as palavras.
O assunto morreu por ali, entretanto, ligou-me a Diana. Não falava com ela desde a última fuga da sua irmã Patrícia.
João, estou a chegar agora. Onde estás?
A chegar?!
– não saberia onde.
Sim, vou só arrumar o carro. Estás já lá dentro? – perguntou ela.
Estou... mas...
Estava imenso barulho na discoteca, era difícil de me fazer perceber.
Não te oiço bem, mas pelo som parece que sim, até já. – finalizou a Diana, desligando depois a chamada.
Fiquei sem saber onde ela estava e não tive tempo de lhe explicar onde eu estava, mas fiquei com a impressão que ela sabia exactamente onde me encontrava. Estranho, não tínhamos combinado nada para aquela noite.
Minutos depois, entrava a Diana na Kapital e vinha ter connosco, a uns sofás.
Olá, João! Elsa, como estás? – cumprimentou-nos a Diana.
Fiquei contente de a ver na festa, mas não sabia como ela tinha vindo aqui parar.
Obrigado pelo convite de hoje, estava a precisar de me distrair. – disse ela.
Convite? Linda, deves estar a fazer confusão. – interrompi-a.
Sim, convite para estar aqui hoje. Falámos ao telefone esta tarde, como podes não te lembrar?! – acrescentou ela, sorrindo.
Diana, eu não falava contigo desde o mês passado.
Só podes estar a gozar, não é?
Não estou, a sério. Pergunta à Elsa, passámos a tarde juntos e não peguei no telemóvel.
É verdade Diana.
– esclareceu a Elsa, que estava calada até então.
Não estou a perceber nada... – começa a Diana a ficar intrigada, tal como nós.
Bebeu um gole de água e passou em revista no seu telemóvel as últimas chamadas feitas.
Se não foste tu quem falou comigo esta tarde, então quem foi? – acrescentou ela.
De facto era muito estranho, Diana disse-me que essa pessoa tinha a voz igual à minha e fez a maior questão que ela viesse a esta festa, infelizmente a chamada tinha sido feita de um número anónimo.
A festa foi ficando mais concorrido, instantes depois chegava o Luizinho à festa. Perguntei-lhe pela nova amiga, ele disse-me que ela estava no bar com a prima e que vinham ter connosco dentro de pouco tempo.
Trazes logo duas? Muito bem, andas a aprender com o pai. – disse eu, sorrindo.
Ele ficou todo contente e corou ainda mais quando viu as suas amigas aproximarem-se. Não poderia ser! As amigas deste parvo eram a Daniela e a Filipa. Que fariam elas aqui? A Filipa era prima da Daniela? Que confusão, desconhecia agora onde as novidades iriam parar.
O Alexandre voltou da casa de banho e viu o Luizinho agarrado à Daniela, eles não sabiam que ele tinha vindo a esta festa comigo e gerou-se uma enorme discussão. Este sentiu-se traído, ainda por cima por um dos seus melhores amigos. Os gajos pegaram-se à porrada e vieram dois gorilas, disfarçados de seguranças de discoteca, que os meteram na rua. Muita sorte tiveram eles de não terem levado porrada dos seguranças, mas como as coisas acalmaram mal se sentiram postos fora da Kapital, os seguranças cagaram neles.
A Daniela sentiu-se um pouco culpada pela situação e convidou-nos a todos para irmos passar o resto da noite a casa dela, em Cascais. Poderia ser que as coisas se resolvessem a bem entre o Alexandre e o Luizinho, fomos então todos para lá.
A Filipa veio no meu carro, também a Diana aproveitou a boleia e deixou o seu carro perto da Kapital. O Alexandre e o Luizinho foram no carro da Daniela, assim iam falando e resolvendo as coisas. A Filipa não sabia o que me dizer, possivelmente a Daniela não lhe disse que eu estaria naquela festa.
Filipa, no Sábado passado, alguém te pediu que me ligares? – perguntei-lhe directamente.
João... – não disse mais nada.
Podes contar, isto não sai daqui. – voltei a insistir com ela.
A Elsa apercebeu-se que se tinha passado qualquer coisa, mas não disse nada na altura.
Sim. – respondeu a Filipa, a muito custo.
Ela é mesmo tua prima?
Sim, é filha do irmão da minha mãe. – não disse mais nada até Cascais.
Chegámos à casa da Daniela meia hora depois, uma vivenda junto ao mar, vivia-se bem por estes lados. Desconhecia que uma jovem jornalista já pudesse ter uma casa destas, mas esta mansão era dos pais dela, mas como estavam emigrados, era ela quem vivia lá.
O Alexandre e o Luizinho estavam mais calmos um com o outro, no fundo, aperceberam-se que tinham ambos sido usados, só não sabiam para que finalidade. Daniela jogava sujo, tocando no ponto mais fraco dum homem, a sua gaita. Por muito que tentasse, não conseguiria encontrar uma finalidade para ela se dar a tanto trabalho.
Tentámos colocar esses assuntos e intrigas para trás, estávamos ali para descontrair e foi nisso que apostámos. O Alexandre enfrascava-se em álcool, tendo o Luizinho como companheiro de bebida. As quatro meninas andavam pela casa, ouvindo música e falando de qualquer coisa. Roubei a atenção da Elsa e levei-a para o andar de cima, queria estar um pouco mais na intimidade com ela, não sentia o seu corpinho quente há dois dias e não estava a aguentar mais.
Entrámos no primeiro quarto que encontrámos, fechamos a porta e saltámos para cima da enorme cama. Este deveria ser o quarto dos pais da Daniela, estava bem arrumado e dava sinal que não era usado há algum tempo.
Rebolámos na cama e caímos no chão...
Apalpava algo mais que o corpo da Elsa, um objecto debaixo da cama estava a despertar a minha curiosidade. Puxei-o para fora e vimos que era uma arma de fogo, estava carregada. Eu e a Elsa parámos o que estávamos a fazer e ficámos um pouco assustados quando para além da visão da arma, escutámos barulho de vidros a partirem-se, vindos da sala de jantar onde todos estavam.
Saímos do quarto para ir ver o que se passava, foi então que demos de caras com a Daniela, que nos forçou a entrar novamente no quarto. Vinha de arma em punho e mandou-nos subir para cima da cama. Pegou no telemóvel e chamou mais alguém para a casa.
Ficámos em cima da cama a olhar para ela durante quinze minutos, até chegarem três tipos entroncados, vestidos de preto e auriculares. Isto era tudo muito estranho, quem seria esta Daniela na realidade e que merda vinha a ser esta. Nessa espera, com ela sempre de arma na mão apontada a nós, não nos adiantou nada do que se estava a passar, apenas se limitava a ordenar que estivéssemos quietos.
Um dos gajos pegou na Elsa pelo braço, tentei evitar que a magoassem, atirei-me a ele, mas a Daniela imobilizou-me apenas com dois golpes, um pontapé debaixo do queixo e um violento rotativo que me atirou alguns passos para trás.
João! – gritava a Elsa, sendo levada.
Esta Daniela não era nenhuma jornalista, parecia mais uma agente de segurança bem treinada.
Para quem trabalharia ela e o que queriam de mim?
Os outros tipos pegaram em mim e levaram-me para fora da casa, quando desci as escadas até à sala de jantar, tive uma visão desoladora, vi os nossos amigos todos caídos no chão, sem se mexerem, começava a temer o pior.
Não te preocupes, estão apenas a dormir. Eles quando acordarem não se vão lembrar de nada...
Talvez tu não tinhas a mesma sorte.
– disse a Daniela, amedrontando-me.
Os golpes dela deixaram-me dorido, vi a bela Elsa ser metida à força num carro, onde já a Diana se encontrava inconsciente, possivelmente também ela uma vítima do mesmo gás que deixara os meus amigos a dormir dentro da casa.
Meteram-me dentro de outro carro, a Daniela entrou depois e mandou o condutor arrancar.
Seguíamos pela Marginal, no sentido de Cascais a Lisboa, Daniela permanecia em silêncio e os outros dois gajos dentro do Mercedes também nada diziam. Queria sair daqui, pensava que tudo fosse um pesadelo e que acabaria em breve, não poderia estar mais enganado. A jovem agente que me tinha raptado seguia no banco traseiro a meu lado e com uma arma apontada à minha barriga.
A viagem estava a ser rápida, tínhamos andado bastantes quilómetros desde que saímos de Cascais poucos minutos antes, avistava ao longe a Torre de Belém. Tive um impulso de pegar na pistola que a Daniela trazia na mão e tentar verter a situação a meu favor, pensava que seria capaz de controlar os acontecimentos... Lutámos pela posse da arma, mas o resultado não foi o esperado. A arma foi disparada e a bala perfurou o banco do condutor, atingindo o mesmo nas costas. O carro ficou desgovernado, a alta velocidade pelas ruas de Lisboa, indo embater com violência numa paragem de autocarro. Lembro-me de ver algumas pessoas nessa mesma paragem antes do carro lá embater, algumas conseguiram fugir, outras não tiveram a mesma sorte.
O carro acabou por capotar, fiquei sem me mexer por instantes, por sorte, tinha o cinto de segurança posto, evitando assim males maiores. O condutor e o ocupante do lado estavam inconscientes e sangravam da cabeça, a Daniela começava a recuperar os sentidos e sangrava ligeiramente do nariz. Desapertei o cinto e saí pela janela do carro.
Doía-me o corpo todo, o máximo que consegui foi coxear alguns metros até uma cabina telefónica, lá dentro estava um senhor de idade, possivelmente pedindo ajuda.
Pára! – tinha a Daniela recuperado do acidente e gritava agora comigo.
Assustei-me ao vê-la de arma na mão, apontada a mim.
Comecei a bater nos vidros da cabina, o homem assustado, ficou paralisado a olhar para a mulher que me perseguia e não teve outra reacção senão aquela. Daniela, de arma na mão, mandou-o pousar o telefone, mas o pobre homem estava demasiado assustado para reagir e ficou ali imóvel. Ela repetiu as mesmas palavras de ordem, apontando agora a pistola na direcção do senhor, mas este pouco mais fez que assistir a tudo.
Daniela deve ter sentido que estava a perder o controlo da situação e baleou o idoso na cabeça, a bala perfurou o vidro da cabine e matou o pobre coitado.
Aproximou-se de mim e mandou-me levantar do chão. Algumas pessoas que tinham assistido a tudo de perto, corriam agora para longe, tentando evitar a mesma sorte que o outro desgraçado que agora jazia morto num destroço de vidros.
Ela pegou no telemóvel e chamou um carro para nos vir buscar.
Viste, olha o que aconteceu por tua culpa.
Se não tivesses feito merda, aquele homem ainda estaria vivo.
– ia ela me martirizando pelo que tinha acontecido.
Talvez ela não estivesse errada de todo, afinal um homem tinha morrido, se eu tivesse ficado quieto no carro e não lhe tentasse sacar da arma, estaríamos naquela altura num lugar completamente diferente e não ali rodeados de mortos... tal como as pessoas na paragem de autocarro, agora completamente desfeita.
Minutos depois, outro carro chegou para nos recolher, não havendo ainda qualquer sinal da presença de polícia. Antes de entrarmos no carro, Daniela bateu-me com o punho da pistola na cabeça, não me recordo da viagem que fiz, desmaiei.
Quando recuperei os sentidos e voltei a abrir os olhos, recordo-me apenas de estar fixamente a olhar para uma parede branca. Fechei novamente os olhos, sentia-me fraco e voltei a desmaiar. Acordei momentos mais tarde e tinha na minha frente a mesma imagem que antes vira, a parede branca. Acabei por despertar, apercebi-me então que não era uma parede branca, mas sim o tecto de uma pequena sala quadrada. Estava deitado numa cama, junto a uma das paredes, o espaço era bastante reduzido e pela primeira vez na vida senti-me claustrofóbico. Por cima da porta, estava uma câmara de vigilância, filmando na direcção da cama onde me encontrava.
Instantes depois, apareceram dois gorilas na sala, entroncados e vestidos de preto, levaram-me para uma outra sala, bastante iluminada e com uma cadeira que se assemelhava a uma de dentista, preenchida com bastantes acessórios cortantes.
Perguntei-lhes pelas minhas amigas, mas estes tipos não falavam e a única linguagem que conheciam era a expressão corporal, deram-me dois murros no estômago e amarraram-me na cadeira da tortura.
Daniela entrou na sala, os dois tipos saíram e fecharam a porta. Segundos depois, entrou uma nova pessoa nessa sala, era uma mulher, disse qualquer baixinho à Daniela. Não consegui perceber o que disse, mas reconheci de imediato aquela voz... Não poderia ser, que faria ela aqui, a Susana!
Não me cumprimentou como sempre havia feito, esta mulher antes sempre se fizera passar por minha amiga e chegara inclusive a ser bastante íntima, sem nunca ultrapassarmos a barreira da amizade, revelava-se agora uma pessoa totalmente diferente e que eu já não conhecia.
Daniela agarrou-me no braço e ela injectou-me uma droga qualquer na veia, comecei imediatamente a sentir tremores, suava imenso e o meu corpo ficara adormecido, estando o meu cérebro completamente sob o efeito desta merda, vulgarmente chamada de soro da verdade.
Susana dirigiu o interrogatório com a ajuda da Daniela, perguntaram-me tudo o que sabia da Patrícia, imensas questões pessoais quais os meus hábitos sociais e, no fim, voltaram a insistir em tudo o que tivesse a ver com a Patrícia. A droga que me deram apenas me deixava dizer a verdade, qualquer outro pensamento ou ideia que quisesse exprimir e fosse contraditória da verdade, ficava barrada na minha boca. Essas palavras pensadas mas não ditas, ficavam enroladas na língua e recolhiam ao seu estado mais primitivo, o pensamento.
Suava por todos os poros, quando a Susana deu por terminada a sessão, chamou alguém àquele local, para me levar de volta à sala onde tinha acordado. O efeito daquele soro ainda actuava em mim, fazia-me recordar cada pergunta como se ainda estivesse pendente.
A Daniela abandonou a sala do interrogatório e fiquei ali sozinho com a Susana, nenhuma delas me inspirava confiança e sentia a minha integridade física tão ameaçada na presença desta advogada que antes se fizera passar por minha amiga tal como com a outra psicopata assassina que acabara de sair.
Entretanto chegaram os dois tipos entroncados, desamarram-me da cadeira e carregaram comigo até ao quarto onde tinha acordado. Fui arrastado por aqueles animais naquele enorme corredor, chegado ao quarto, lançaram-me com violência no chão, como se fosse uma saca de batatas, mas não senti nada naquele momento, apenas observava sem reacção o que me iam fazendo.
Permaneci deitado no chão do quarto após os gajos saírem, imóvel. Susana ficou comigo, fechou a porta e apontou um comando na direcção da câmara que nos filmava. Reparei que a persistente luz vermelha da câmara se desligou.
Que estaria ela a fazer? Pensava que a câmara estivesse ali para vigiar quem fosse guardado em cativeiro.
Susana retirou do seu bolso um pequeno frasco e encostou-o ao meu nariz.
Vamos, cheira isto. É amoníaco concentrado. – disse ela.
Cheirei aquela merda, o odor intenso daquele composto rapidamente me chegou ao cérebro e despertou os sentidos antes adormecidos pelo soro que me haviam injectado.
A sua postura perante mim alterou-se, não era mais aquela cabra calculista e fria que tinha tão bem dirigido o interrogatório, estava mais calma e assemelhava-se um pouco mais à mulher que em tempos havia conhecido. Tentava-se explicar, não entrava em detalhes mas ia adiantando que o meu sequestro tinha sido um erro.
Aquelas palavras pareciam-me falsas, vinham carregadas de um sentimento não natural, eram ditas de maneira calculada, tento tocar-me nos meus pontos mais fracos. Não sabia porque haveria de acreditar nela agora, esta Susana que via à minha frente era-me totalmente estranha, não era nem uma sombra da amiga doce e carinhosa que em tempos conheci.
Que queres de mim? – perguntei eu.
Quero ajudar-te a sair daqui, com vida. – respondeu.
Fiquei sem saber o que dizer, comecei a temer pela minha vida, talvez fosse essa a intenção dela.
Perguntei-lhe pela Elsa e Diana, contou-me que estavam bem e que depois de serem interrogadas se livrariam delas...
Livram como? – interrompi a Susana.
Não te preocupes, vão deixá-las em casa, drogadas e sem se lembrarem de nada.
Acreditei nas palavras dela, talvez porque tivesse mesmo de acreditar para me sentir descansado e me quisesse convencer que a vida das minhas amigas não corria perigo e tudo fosse acabar bem para elas.
Toma, engole... – disse a Susana, dando-me duas cápsulas para a mão.
Que é isto, mais uma das tuas drogas? Não deves estar à espera que eu meta isso na boca, pois não?
Vamos, toma logo isso.
– insistiu ela.
Não, enquanto não me explicares que merda é esta. – disse eu.
Serve para te aumentar os níveis de adrenalina e recuperares alguma sensibilidade, o soro que te demos deixa-te assim como estás agora durante um dia. Sem isso, nem forças para ires à casa de banho terás. – acrescentou.
Engoli aqueles dois comprimidos a seco, esperava que não fossem novas drogas e me deixassem novamente à sua mercê ou inconsciente.
Susana ajudou-me a levantar do chão e deitou-me na cama. Disse que iria rapidamente sentir os efeitos dos comprimidos e assim estava a acontecer, recuperei parte da sensibilidade e senti as minhas reservas de energia serem restabelecidas.
Entretanto, contou-me o que fazia na agência e todo o seu envolvimento neste caso.
Ela era uma agente de campo, contratada pela Majestic SD6 assim que se formou em Direito anos antes. Mas algo não estava explicado, o porquê de eu estar ali naquele momento. Susana, tentando sempre esquivar-se a uma resposta directa, explicou-me com rodeios que a Patrícia também tinha sido uma agente operacional da Majestic SD6, mas que andava fugida desde há um mês, após uma missão de alto risco ter dado para o torto e toda a sua equipa de campo ter morrido. Se foi há um mês, aconteceu depois de a ver em Palma de Maiorca na piscina do nosso hotel. Dissera-me que ia para Nova Iorque... não sabia mais no que acreditar.
Susana, a tua aproximação a mim também fazia parte de um esquema?
Sim.
Até no dia que nos conhecemos?
– perguntei.
Sim, frequentávamos os mesmos sítios e a agência sabia que era fácil uma mulher atraente conseguir algo de ti.
E posso saber porque se deram a tanto trabalho?
– continuava eu a insistir com ela.
Para te recrutarmos, claro.
De que estás a falar?!
– cada vez percebia menos do que me dizia.
João, tu fizeste um teste para entrares na Majestic SD6 e passaste. Andamos a recolher informação sobre ti há mais de um ano.
Teste? Que teste? Eu não pedi por nada disto!
– as minhas dúvidas aumentavam.
Sim, quando conheceste a Patrícia...
Continuo sem perceber.
– disse eu.
O assalto à joalharia, já te lembras?
Sim, mas isso foi...
– nem sabia o que dizer.
Um teste, João. O alarme accionado de propósito, a Patrícia poderia lá ter entrado sem que ninguém sequer desse conta, mas accionou o alarme antes de sair. Juntamente com a denúncia anónima para a polícia, ainda quando vocês estavam a sair da discoteca Lux, foi simplesmente tudo preparado para te testar.
Então era tudo um esquema... Porque fizeram isso comigo?
– perguntei, insistindo para que me contasse tudo.
Para te termos connosco. Tens qualidades que apreciamos, mas tínhamos de ter certeza se eras capaz.
A confusão aumentava dentro da minha cabeça.
Pensei que fosses minha amiga.
E sou, João.
Não, não és. Nem tu nem nenhuma das cabras que estiveram envolvidas nisto.
João, se não fosse tua amiga, não te estaria a ajudar neste momento.
– argumentou ela.
Ajudar? Tu chamas a isto ajudar? Eu não! – disse eu, com a minha voz alterada.
Estava todo suado, Susana colocara em cima da minha cama uma nova muda de roupa e disse para me trocar. Na verdade, nem era mau pensado. Tinha as minhas roupas imundas e não iria a lado nenhuma naquela triste figura.
Susana não saiu do quarto para que eu trocasse de roupa, também não me importei, era apenas mais uma gaja que me via a gaita.
Ajudou-me a despir a roupa que trazia colada ao corpo, toda suada.
Já te sentes melhor? – perguntava ela.
Sim, recuperei a sensibilidade nos músculos.
Estou a ver que sim...
– aproximou-se, tocando no meu corpo despido.
Não liguei aos seus avanços, para quem já tinha sido tão usado, isto era uma brincadeira de crianças.
Peguei na camisola para me vestir...
Espera, não te vistas já. – disse ela, com um sorriso nos lábios.
Susana, agradeço o que estás a fazer, mas não estou com disposição para essas coisas.
Mas ela não recuou, passou a mão no meu peito e foi descendo lentamente...
Eu no teu lugar estaria, podes ter de ficar aqui retido até a Patrícia regressar sabe-se lá de onde.
Olha que isso pode levar imenso tempo.
– insistia ela, cinicamente.
A sua mão passeava delicadamente sobre o meu corpo suado, consenti que o fizesse e nem tive reflexos para rejeitar os seus avanços, era como se o meu corpo me ordenasse que o fizesse, apesar da mente estar apenas ocupada em tentar arranjar uma maneira de sair dali.
Fizemos amor naquele quarto, não foi amor para mim, foi simplesmente uma foda.
Sentia-me cheio de força, aqueles comprimidos deveriam ser afetaminas ou qualquer outra substância altamente dopante, mas estava sem dúvida a fazer o efeito pretendido, não sei era por quem.
Susana vestiu-se e despediu-se de mim na cama, agarrando na minha roupa antiga.
Adeus, João. Tenho de ir, agora é troca de turno do pessoal, isto vai estar menos movimentado por uns momentos...
Aquelas palavras não eram apenas de despedida, seguidas de um beijo caloroso nos lábios. Havia ali algo de estranho, era como se ela me estivesse a alertar ou aconselhar que aquela seria a minha pequena janelinha temporal de oportunidades.
Susana, espera...
Sim?
– recuou ela, fechando novamente a porta do quarto.
Na última vez que saímos, o Luizinho e o Alexandre também foram, tal como as tuas primas suecas...
Que tem isso? Já foi há mais de meio ano, João.
Sim, mas dessa vez também foi tudo planeado?
Claro, essas loiras eram duas agentes nossas, de visita a Portugal e tiveram o maior prazer em entrar nessa missão. Não vejo qual o teu problema, na altura ficaste bastante agradado, e com as duas, se bem me lembro.

Só há uma coisa que ainda não percebo, porque incluíram os meus amigos nos vossos esquemas? – perguntei.
Queríamos recolher toda a informação sobre os teus relacionamentos e contactos, confesso que foi trabalhoso.
Então foi tudo uma grande farsa desde o início?
Tal como esta foda que acabámos de dar, também fazia parte duma missão?
– acrescentei.
Oh João, não te conhecia assim tão sentimental... – disse ela, sorrindo.
Tens razão em apelidar assim a forma como nos conhecemos, mas o que fizemos agora foi por gosto, considera isto como uma despedida menos litigiosa. Até acho que a Patrícia tinha sido pouco generosa ao falar-nos de ti!
Óptimo, agora tinha a vida sexual documentada numa agência de psicopatas terroristas.
Vou indo, mudança de pessoal... – acrescentou ela, soltando um beijo e apontando na direcção da câmara de vigilância desligada.
Saiu, mas deixou a porta entreaberta. Apercebi-me que ela estava mesmo decidida a colaborar na minha hipotética fuga daquela local, sentia-me demasiado drogado para pensar noutra hipótese que não aquela ou que aquilo tudo faria parte de outro esquema, possivelmente um novo teste. Decidi arriscar a minha sorte, apesar de me sentir como um rato de laboratório num labirinto fechado.
Vesti-me à pressa, apenas tinha no quarto a roupa que a Susana me deixara. Sabia que tudo aquilo poderia ser uma cilada, mas não tinha nada a perder e os comprimidos que tinha ingerido, levavam-me a querer fazer coisas estúpidas, correr desalmadamente contra uma parede e atravessá-la, esta merda psicotrópica era mesmo boa, muito potente.
Corri pelo corredor, não se via sinal de presença humana, reparei inclusive nas luzes vermelhas de presença das câmaras de vigilância e estavam desligadas. Tudo estava a ser demasiado fácil, as câmaras desligadas, a falta de agentes nos corredores, mesmo a esta hora da madrugada, e bastantes portas abertas, onde antes necessitava de activação através de código digital... eram ingredientes bastante claros para que tudo isto estivesse planeado e alguém se estivesse a divertir à grande, numa salinha qualquer, observando todos os meus movimentos e preparado para agir na altura necessária. Se continuasse desta forma, estaria condenado ao fracasso, para além de me sentir perdido nestes corredores. Achei sensato parar de fugir e correr para aquele destino incerto, entrei então na primeira casa de banho que encontrei. Tranquei a porta, lavei a cara e esperei um pouco encostado a uma das paredes, não me sentia cansado, pelo menos fisicamente.
Continuava sem ouvir passos no corredor, mas sentia-me vigiado, apesar de não haverem câmaras de segurança na casa de banho. Tive uma enorme vontade de cagar, este deveria ser outros dos efeitos daqueles comprimidos, aliviei as tripas mesmo ali. Quando estava em pleno acto de libertação intestinal, olhei para o topo do cúbico onde me encontrava sentado e reparei numa grela que tapava uma conduta do sistema de ar condicionado. Pensei de imediato que aqueles tubos poderiam ser o meu bilhete de saída daquele lugar, sem dar muito nas vistas e apenas tendo cuidado para não cair em nenhum buraco ou numa sala repleta de agentes raivosos.
Despejei o autoclismo e trepei pela sanita até alcançar a grelha. Sentia-me cheio de vitalidade e força para aquilo, subi para o apertado tubo de ar e fechei a entrada atrás de mim, disfarçando assim o meu rasto.
Não sabia que direcção tomar, escolhi um dos lados para começar a minha busca pela liberdade.
Rastejei pelas condutas durante imenso tempo, passando sorrateiramente por cima de corredores agora preenchidos por agentes de segurança e pequenas salas repletas de gente, possivelmente trabalhadores.
Já tinha amanhecido lá fora, cheguei ao topo de uma sala iluminada pelo Sol, deixava passar pela sua janela toda a luz de um amanhecer. Conseguia ouvir o mar, deveria estar próximo de alguma praia.
A sala estava deserta e tinha uma janela aberta para a rua, começava a perder a sensibilidade muscular, o efeito dos comprimidos estava a dissipar-se, teria de aproveitar esta oportunidade para conseguir escapar.
Removi silenciosamente a grelha que me separava do interior da sala, deixei-me cair no chão, estranhamente pouca dor senti de uma queda de mais de dois metros. O meu corpo voltava a entrar em adormecimento, efeito sentido logo quando a Susana me injectou a soro nas veias. Sabia que tinha os minutos contados antes de voltar a ficar imóvel, encostei-me à janela e olhei lá para fora...
Dali, conseguia ver a encosta de uma ravina que era banhada por um vasto mar, lá bem em baixo. Não queria arriscar a minha sorte saindo calmamente pela porta de saída, sem que nada de anormal se estivesse a passar, e enfrentando um batalhão de agentes de segurança que tudo fariam para me parar.
Voltei a olhar para a ravina, seria uma descida atribulada pela encosta de uma montanha, mas seria por ali que iria ter de ir. O efeito dos comprimidos de adrenalina começa a dissipar-se cada vez mais depressa e a minha janelinha de oportunidades eram tão minúscula, que senti por momentos, mesmo que me atirasse de cabeça numa queda de cinquenta metros até ao mar, quando lá chegasse seria tarde demais para sentir o meu corpo e ter algum controlo das minhas capacidades motoras. Decidi arriscar, abri rapidamente o resto daquela janela e saltei para o exterior. Saltei a rede que me separava da encosta e corri até ao precipício, iniciando ali a minha descida.
Apesar de estar a perder sensibilidade, tinha por momentos, mesmo que poucos, uma força extrema no corpo e na mente. Estava claramente dopado, a Susana não me tinha dado simples comprimidos para as dores de cabeça, eram drogas catalisadoras e bem potentes, mas o seu efeito estava agora a desvanecer-se.
Consegui descer a encosta acidentada da montanha sem grandes problemas, mas a entrada nas águas agitadas do mar foi um problema. Lancei-me naquelas águas a mais de metros de altura, tentando evitar a rebentação das ondas, mas bati nalguma rocha com as costelas, apesar de não ter sentido muita dor, estava a ficar preso de movimentos no braço esquerdo.
Consegui nadar até à praia, ainda a uma distância razoável de onde tinha mergulhado. Quando finalmente cheguei à areia da praia, consegui ter uma visão panorâmica do sítio onde tinha sido mantido em cativeiro durante toda a noite. Reconheci aquele local, estava numa praia perto da Lagoa de Albufeira, a poucos quilómetros de Sesimbra.
Caminhava pela areia da praia, cada vez ia sentindo menos dor no corpo, mas era com bastante dificuldade que agora me deslocava. Arrastava as minhas pernas ensanguentadas pela areia, as calças que trazia vestidas estavam rasgadas, tal como toda a minha restante roupa. A sensibilidade era cada vez menor, deixei-me cair na areia sem que nada pudesse fazer, simplesmente estava imobilizado, toda a quantidade de soro que me tinha sido injectada ser assimilada pelo meu organismo. A Susana tinha falado num dia sob efeito desta droga, talvez fosse demasiado tempo para ficar ali estendido naquela praia deserta, sangrando e sem sentido o meu corpo, seria uma morte indolor.
Tremia bastante, apesar de não sentir qualquer frio, olhava para a minha pele e estava toda arrepiada, resultado das águas frias onde tinha caído. Tinha uma enorme nódoa negra no meu lado esquerdo, possivelmente seria alguma costela partida, provocada pelo meu embate numas rochas assim que mergulhei na água, mas continuava sem sentir nada, apenas assistia ao meu corpo quebrado.
Tentava fazer um último esforço para me levantar, era cada vez mais difícil mexer qualquer músculo do meu corpo. Escutei ao longe o som de um helicóptero aproximando-se, vindo do local de onde tinha fugido.
Acabou por aterrar perto de mim, desceram duas pessoas, a forte ventania provocada pelas hélices do helicóptero lançou-me areia nos olhos e só as consegui distinguir quando se chegaram junto de mim. Ali estava eu, de joelhos na areia daquela praia e sem forças para prosseguir, a Daniela apontava-me uma arma e a Susana ria cinicamente.
Muito bem, conseguiste iludir os nossos agentes e quase escapar. – disse a Susana.
O último que tinha tentado, não foi muito longe. – acrescentou a Daniela.
Tinha alguma dificuldade em falar, mas mesmo assim fiz um esforço...
Não tive assim tanta sorte, ou será que não vêem onde estou?
Era impressionante a maneira como elas encaravam as coisas, para elas tudo isto não passara de mais uma missão, um jogo com a vida de alguém e sentiam-se contentes assim.
Sim, mas só te detectámos pelo dispositivo de localização quando saíste da casa...
Mas qual dispositivo? Daniela, que estás a dizer?
– perguntei eu, sem saber do que ela estava a falar.
Voltámos a perder o contacto quando entraste na água, só não sei como conseguiste desviar o sinal dentro da casa. – concluiu a Daniela.
As condutas de ar são isoladas por aço e repele essas frequências, muito bem João. – acrescentou a Susana.
Mas qual dispositivo, porra. As cápsulas que me deste? – insisti eu.
Não, está mesmo junto a ti, no botão das calças que te dei para vestires.
Sentia-me rendido às evidencias, não sabia mais que fazer e poucas mais forças tinha para me mexer.
João, bons sonhos... – acenou a Daniela, apontando a pistola ao meu peito.
Ela disparou, mas não era uma bala. Um dardo penetrou na minha pele e comecei de imediato a fechar os olhos, uma vez mais, não senti nada.Adormeci profundamente, era um dardo tranquilizante.

Sábado, Outubro 23, 2004

Arde sem se ver

Acordei numa cama que passou a não me ser estranha desde há uns dias. Elsa beijava-me suavemente as orelhas e fazia deslizar a sua língua pela minha face, humedecendo os meus lábios na esperança de me despertar.
Abri os olhos, tive uma visão linda, Elsa de cabelo apanhado e deslocando os seus lábios na minha direcção. Havia lá coisa mais bela que esta princesa logo pela manhã, tão linda e serena, acariciando-me com a sua sensualidade e tornando um simples despertar em dia de aulas, numa verdadeira celebração de bons dias.
Tinha passado toda a semana na casa dela, desde que voltámos das férias em Palma de Maiorca. Os pais da Elsa continuavam pela Suíça e regressariam no próximo fim-de-semana, estávamos ainda em quarta-feira e teríamos de aproveitar ao máximo estes momentos íntimos.
Elsa era sem duvida a mulher mais sensual, mais apaixonante que eu alguma vez tinha conhecido. Sentia-me cada vez mais atraído por ela, não apenas pelo seu corpo magnífico e beleza deslumbrante, mas igualmente pela sua doce maneira de ser, o seu interior como pessoa espelhava na perfeição toda a beleza exterior que ela possui.
Elsa, tenho de ir para o ISEL, já estou atrasado. – dizia eu baixinho, sem vontade nenhuma.
Já? Espera mais um pouco, meu querido. – puxava-me ela para junto do seu corpo.
Não posso, com muita pena minha. Tenho de deixar tudo preparado para a apresentação do projecto.
Mas não tens de partir para a Madeira apenas no Sábado?
– perguntou ela.
Sim, mas faltam acertar ainda bastantes detalhes.
Fiquei por momentos a olhar para a sua carinha, desejando não ter de ir embora.
És muito linda, sabias? A tua beleza e sensualidade são adocicadas pelo teu carinho e ternura...
Deixas-me completamente louco de paixão, mas tenho mesmo de ir. – acrescentei eu, beijando os seus lábios carnudos.
Levantei-me da cama, arranjei-me à pressa e fui de imediato para a faculdade.
O ambiente no ISEL continuava de grande tensão, tudo teria de estar preparado antes de Sábado e as tarefas pareciam nunca mais acabar. A engenheira Isabel chamou-nos ao seu gabinete, local onde tinha passado óptimos momentos da sua companhia e partilhando a sua intimidade.
Acertávamos os últimos preparativos antes de arrumarmos e selarmos o nosso projecto num caixote. Esse fim não estava próximo, tivemos de passar dia e noite de volta daquele trabalho a modo de o colocarmos completamente funcional a tempo da exposição, na Gala de Novos Criadores que este ano iria decorrer no Funchal.
Os três dias que nos separavam do grande acontecimento passaram num instante, não havia mais tempo para editar o projecto feito por nós e apenas esperávamos que tudo nos corresse bem e fizéssemos boa figura.
Estávamos no Aeroporto de Lisboa, à hora marcada. Eu e o Luizinho aproveitámos a boleia do pai do Alexandre que amavelmente nos trouxe do Barreiro. A bela engenheira Isabel já nos aguardava no terminal de embarque, tinha ido mais cedo para tratar do envio do nosso projecto no mesmo voo, um pequeno robot.
Éramos uma comitiva de quatro pessoas, bem liderada pela nossa engenheira da cadeira.
Chegámos antes da hora de almoço ao Funchal, foi óptimo assim, sempre tivemos a sorte de saborear uma maravilhosa refeição no hotel.
Fomos recebidos calorosamente pelas gentes desta terra. No restaurante do hotel encontravam-se outros alunos de diversas faculdades de engenharia acompanhados pelos seus professores, no entanto, nós éramos dos poucos grupos com sorte por termos uma bela engenheira responsável por nós. A confraternização era excelente, até mesmo entre engenheiros e alunos.A refeição terminou e levaram-nos a conhecer o Funchal. Algumas meninas prestavam-se de guias e enfeitavam as beldades exteriores que íamos observando com as suas palavras, havendo ali naquele autocarro turístico muito engenheiro babado.
Connosco, seguia também uma jornalista, uma bela rapariga de longos cabelos castanhos nos seus vinte e poucos anos. Eu desconhecia que aquele evento de jovens criadores pudesse despertar tanto interesse à impressa, ainda mais a um jornal matinal de grande tiragem, fazendo-se representar por esta jovem atraente.
Enquanto passeávamos nas floridas ruas do Funchal, ela fazendo as suas entrevistas aos engenheiros responsáveis pela gala e no regresso ao hotel, aproximou-se do meu grupo de trabalho.
Olá rapazes! Estou a ver que são do ISEL, muito bem.
Chamo-me Daniela e gostava de falar um pouco convosco.
– disse ela.
Talvez mais logo, temos de preparar melhor a nossa apresentação. – respondeu o Alexandre.
Está bem, não vos roubo este tempinho. – desculpou-se ela.
Não, espera. As coisas já estão prontas.
Penso que uma pequena conversinha não fará mal a ninguém nem ao projecto. – intrometi-me eu.
Olhá lá isso... – dizia o Alexandre, olhando para o relógio.
Tem calma, não te enerves.
Vão lá estudar a vossa parte que eu trato da minha mais logo
– acrescentei, sorrindo.
Como fica então? Se estiver bem assim para vocês...
O Alexandre e o Luizinho subiram para o quarto e fiquei na entrada do hotel com a Daniela.
João, podemos ir para o bar, se não te importas. – disse a Daniela, levando-me para lá.
Bebemos alguns copos de sumo, numa mesinha do bar, enquanto ela ia fazendo a sua entrevista. As nossas palavras eram registadas num gravador que ela tinha posto em cima da mesa e as suas mãos folheavam constantemente um bloco de notas.
Algumas perguntas ultrapassavam em muito o campo científico e o interesse pelo motivo que me tinha trazido à ilha da Madeira, chegavam a tocar na intimidade e eram um pouco indiscretas para a ocasião. Disse tudo o que a jornalista quis saber, não escondi nada, apesar de achar certas questões fora do contexto, mas desconfiei que essas respostas ela fosse guardar só para ela.
A entrevista prolongou-se por bastante tempo, parecia quase um interrogatório policial. O Alexandre telefonou-me entretanto e tivemos de ficar por ali com a nossa conversinha.
Antes de ir ter com os meus colegas, Daniela perguntou-me se poderia jantar e assistir à gala dessa noite na nossa mesa de jantar, de imediato aceitei e fiquei de lhe dar o resto das respostas que ela necessitasse nessa mesma ocasião.
Entrei no quarto do Luizinho, onde estavam a discutir a melhor maneira de apresentar o projecto, a engenheira Isabel já me esperava e ficou pouco contente de eu desperdiçar tempo precioso em entrevistas, e mais gravoso ainda, sendo a jornalista uma morena possuidora de uma grande beleza exótica.
Desculpa Isabel, logo compenso-te. – disse para ela, sem os meus colegas a assistirem.
Ora, João! Temos de manter as formalidades, eles podem ouvir! – interrompeu-me.
Não te preocupes, eles estão demasiado preocupados e entretidos com o trabalhão que lhes destes. – acrescentei, passando uma mão no seu belo rosto.
Espera... vamos para o meu quarto. Lá estaremos mais à vontade.
Acho que preciso de uma massagem para relaxar, também estás qualificado nessa matéria ou terei que te chumbar? – brincava Isabel comigo.
Uma massagem? A menina anda a exigir demais dos seus alunos.
Vamos, anda. Aparece lá daqui a cinco minutos.
– finalizou a engenheira, saindo depois do quarto.
Falei com eles, ia-me ausentar novamente do trabalho, desta vez para prestar assistência técnica à engenheira Isabel. Como esperado, a reacção deles não foi a melhor...
Vais o caralho! Já me estou a passar contigo. – gritava o Alexandre, todo alterado.
O sistema nervoso do rapaz ainda se estava a restabelecer depois dele ter levado um tiro no cú, dois meses antes, e toda aquela ansiedade provocada pela eminente exposição do projecto não lhe estava a fazer bem.
Acalma-te, foda-se! pareces uma gaja com falta de pau e comichão no grelo. – tive de lhe levantar a voz.
Não me demoro, vou discutir uns pormenores do trabalho com a engenheira.
Até já, volto daqui a pouco.
– despedi-me deles.
Isabel deixou a porta do seu quarto entreaberta, entrei surrateiramente e fiz-lhe companhia na cama. Trocámos uns beijos calorosos e algumas carícias. A minha bela engenheira estava tensa, pediu-me que lhe fizesse uma massagem nas costas e satisfiz a sua vontade. Comecei calmamente pelos ombros, humedecendo a sua pele com os meus lábios, antes de passar com o calor das mãos. O seu corpo reagiu de imediato, libertando um calor imenso, começando ela a suspirar a cada toque mais provocante que lhe ia dando.
Tinha de preparar a apresentação do projecto, não poderia deixar aquele fardo somente entregue aos meus colegas. Isabel também sabia disso e como responsável pelo nosso trabalho, pediu-me que parasse e continuasse a massagem noutra altura, combinando um novo encontro naquela noite na intimidade do seu quarto.
Espera, João!
Estou a adorar, mas tens de ir preparar o trabalho...
– disse ela, soltando um pequeno gemido.
Temos tempo, preparei a minha parte em casa. – interrompi-a eu.
Mas não está correcto, eu prender-te aqui e deixares os teus colegas sozinhos. – acrescentou Isabel.
Fico mais um pouco, deixa-me antes tratar de ti. – olhando nos seus olhos e fazendo deslizar a minha mão entre os seus belos seios e parando no clítoris.
Ai...! Pára, não podemos agora! – dizia ela, soltando uns gemidos.
Queres que pare? – perguntei eu, brincando com os dedos no seu clítoris.
Sim... Tens o trabalho...
Cheguei a minha boca junto do seu ouvido.
Sim? Queres mesmo que pare? – disse eu baixinho, estimulando com mais força o seu clítoris e arrastando a outra mão sobre o seu seio.
Sim...
Sim? – voltei a sussurrar-lhe, mordendo suavemente a sua orelha.
Isabel ficou sem palavras, apenas lhe escutava uns suaves gemidos...
Não... Não pares! – começava a Isabel a deixar-se levar pela excitação.
Os seus lábios beijaram os meus e beijei a minha doce engenheira até ela se vir. Não levou muito tempo para que isso acontecesse, ela estava bastante excitada e foi maravilhoso ver o seu belo sorriso e cara de satisfação quando nos despedimos.
O tempo passou a correr, era finalmente hora de jantar. A apresentação dos projectos pelos alunos estava marcada para a ceia, naquele mesmo salão nobre do hotel.
Daniela sentou-se na nossa mesa, criou-se de imediato um certo à vontade da jovem jornalista com todo o grupo. A engenheira Isabel tecia rasgados elogios dos seus pupilos e o gravador que acompanhava a Daniela por todo o lado ia captando toda a nossa conversa.
Reparei mais tarde, quando nos levantámos da mesa de jantar para ir apresentar o nosso projecto à vasta assistência, que esse mesmo gravador se encontrava desligado e sem cassete lá dentro, algo estranho mas que me passou completamente despercebido na altura.
A apresentação foi um sucesso, o nosso robozinho motorizado comportou-se na perfeição e respondeu correctamente a todos os estímulos da nossa voz, deixando toda a plateia rendida às suas capacidades.
Regressámos à mesa, a engenheira agradeceu a colaboração de todos nós e compensou-nos com o calor dos seus lábios. O Alexandre e o Luizinho coraram de imediato e quase se vinham, não era todos os dias que uma bela mulher os beijava. Daniela também gostou do que viu, tanto que arrastou a sua mão por debaixo da mesa de encontro à minha perna. Foi avançando lentamente pela minha coxa, do joelho para a virilha, massajando cada pedaço de mim e ia contando com a minha cumplicidade. Estava a gostar, a sua mão ali agradava-me, mas havia qualquer coisa no meio de toda esta situação que não batia certo. Esta bela jornalista estava a avançar depressa demais, tocava na minha intimidade de maneira indelicada, sem esperar pelo meu consentimento, fazendo-me sentir usado.
Entretanto, recebi uma chamada, a sua mão parou na minha virilha.
Concentrei toda a minha atenção no telemóvel, era a minha Elsinha que me ligava.
A sua voz doce relaxou-me e fez-me aproximar dela, mas senti mais que nunca a sua falta. Era a mão dela que eu gostaria de ter sobre a minha perna e não a desta ilustre desconhecida.
Desliguei a chamada e sussurrei ao ouvida da Daniela para que tirasse a mão de cima da minha perna. Ela ficou relutante em aceitar, mas acabou por me largar segundos depois.
A gala de apresentações continuou sem mais sobressaltos, quando a mesma terminou, subimos aos quartos. Isabel foi ter com os seus colegas engenheiros e mandou-me uma mensagem pedindo que fosse ter ao seu quarto naquela noite. Não sabia se haveria de ir, o simples escutar da voz da Elsa momentos antes tinha sido suficiente para me afastar da tentação das outras mulheres, pelo menos naquela noite. Daniela acompanhou-nos até ao corredor dos nossos quartos e esperou junto de mim que o Alexandre e Luizinho entrassem nos seus respectivos quartos. Ela queria entrar no meu quarto, com o pretexto de querer falar um pouco mais comigo sobre o projecto. Era tarde, disse-lhe que não estava com a mínima disposição para falar sobre aquilo e que me procurasse no dia seguinte. A atraente jornalista continuava a insistir para que a deixasse entrar, parecia desesperada para me arrastar lá para dentro, o seu estado actual de ansiedade chegava a ser patético e não coincidia com a sua beleza.
Algo nela me fez recuar e não partir para mais uma aventura sexual, e não apenas o que sentia pela Elsa era usado como único pretexto para acalmar as minhas hormonas. A forte persistência da Daniela acabou por me cansar e perdi a pica de a comer.
Despedi-me dela, com dois beijos na cara, abri então a porta do meu quarto. Antes de rodar completamente a maçaneta da porta, senti a sua mão na minha braguilha. Estava de costas para ela, não consegui evitar a aproximação brusca dela. Talvez fosse este o seu último acto de desespero, já que não me conseguia levar para a cama com falinhas doces, agarrava-se logo ao caralho e espera que a minha reacção fosse a mais natural possível de um gajo esfomeado por cona.
Mas tudo o que é demais e contra nossa vontade torna-se maçador e inconveniente, se tivesse sido noutra noite e com outro ambiente, talvez a levasse ao castigo, naquela noite ficaríamos por ali.
Daniela, tira daí a mão. – disse eu, calmamente.
Então, João? Onde está o belo rapaz promíscuo que costumas ser? – perguntava ela, massajando-me a gaita.
Promíscuo?! Que mais sabes tu de mim?
Nada... – levou ela algum tempo a responder, abrindo entretanto o fecho das minhas calças.
Explica lá isso melhor! – começava eu a passar-me.
Calma João... fazia ela escorregar uma mão para dentro das minhas cuecas.
Voltei a fechar a porta do quarto e virei-me de frente para ela.
Não calma nada. E tira já daí a mão, foda-se! – gritei eu, agora um pouco alterado.
Está bem, tu é que sabes. – disse ela, em tom de despedida e com cara de desilusão.
Largou-me o caralho e foi embora para o seu quarto, a três portas de distância do meu.
Entrei rapidamente no meu quarto, não fosse ela voltar atrás e decidida a querer acabar aquilo que tinha começado. Confesso que me senti assustado e nada confortável naquela situação. Deitei-me na cama, ainda vestido, por lá fiquei durante uns minutos, reflectindo e tentando relaxar.
Tomei um duche e voltei para a cama, enrolado na toalha e secando o cabelo com as mãos.
Estava imenso calor naquela noite, antes de cair no colchão tinha aberto uma janela do quarto e permaneci deitado a olhar para o tecto, despido por cima dos lençóis e apenas com uma toalha de banho enrolada na cintura.
O telemóvel tocou, quem seria a uma hora destas?!
Deixei o telemóvel tocar, já tinha falado com a minha Elsinha naquela noite e mais nenhuma outra gaja me interessaria, queria mesmo era dormir. O voo de regresso a Lisboa estava marcado para o início da tarde seguinte, não teria de acordar cedo, mas estava extremamente cansado daquele dia agitado.
Fechei os olhos e tentei deixar-me levar pelo sono, queria mesmo adormecer.
Estava difícil, o telemóvel voltava a tocar. Atendi desta vez, era a minha amiga Filipa.
Não falava com esta loirinha linda desde o aniversário do Luizinho, numa festa em casa dele.
Olá João, desculpa se te acordei.
Não, loirinha. Tinha acabado de me deitar.
Estás bom? E por onde andas? – perguntou ela.
Muito bem. Vim apresentar um projecto do ISEL ao Funchal.
Estás sozinho agora? – continuava ela a perguntar.
Sim...
Continuámos a nossa conversinha. Estava ensonado, mas escutava com satisfação a voz dela.
Sabes, hoje lembrei-me de alguns bons momentos que passámos juntos.
Sinto falta desses tempos, João. Que foi que nos aconteceu?
– dizia ela.
Não sei bem linda, ainda hoje não percebo como tudo acabou.
Talvez tenha faltado mais entrega, mais paixão, gostávamos um do outro mas não nos amávamos.
– acrescentei, recordando na minha mente alguns desses bons momentos.
A nossa conversa acabou por ultrapassar as formalidades, entrando com naturalidade numa cumplicidade extrema. As nossas palavras eram agora empregues de modo carinhoso e mesmo sensual, tendo a sua finalidade bem definida.
João... Deixa-me entrar nessa cama e sentir-te junto de mim.
Será? Que farias se eu te deixasse?
– perguntei eu, despertando o meu corpo.
Beijava a tua boca e descia com os meus lábios pelo teu pescoço...
Parece-me tentador, já seria um bom começo.
– interrompi a Filipa, sorrindo.
Lambia o teu peito, todo o teu corpo... Ai que saudades! – continuava ela.
Apetecia-me estar novamente com ela, tocar-lhe no corpo e sentir o seu calorzinho outra vez. O seu doce tom de voz reanimou o meu corpo, senti-me mais relaxado e também feliz. Filipa começou a aquecer, a sua voz tinha-se alterado tal como a respiração. Senti novamente a sua chama acesa e revivemos alguns bons momentos passados muitos meses antes, a minha voz estimulava o seu corpo e o seu calor excitava-me cada vez mais. Ela estava ainda deitadinha na cama e começou a tocar-se, conseguia ouvir as suas mãos a vaguearem pelo seu corpo e os seus gemidos, ainda esporádicos, começavam a aparecer. Recostei-me na cama e acompanhei a sua excitação, também eu me masturbava sentindo a sua presença próxima de mim, apesar da distância que nos separava. A loirinha estava super excitada, o seu corpo completamente a ferver pouco aguentou os seus toques amorosos, veio-se e fez-me vir com ela. Foi bom, um tipo de calor diferente claro mas não deixou de ser agradável. Desliguei o telemóvel, limpei-me na toalha que tinha lançado para o chão e tentei adormecer.
Tinha desligado a chamada há cerca de meia hora, continuava sem adormecer, muito por culpa de toda aquela excitação vivida momentos antes e que agora me despertava um desejo carnal. Se ainda encontrasse a rejeitada Daniela perdida pelos corredores do hotel, que lhe faria? Agora, certamente não escaparia ao castigo.
Levantei-me da cama, vesti um roupão e fui bater na porta do quarto da engenheira Isabel.
Ela estava a dormir, levou algum tempo para me abrir a porta, mas quando o fez, puxou-me de imediato para dentro e deitou-me na sua cama. Os nossos corpos ferviam, acariciava os seus seios e beijava o seu pescoço, enquanto Isabel me despia o roupão.
O momento estava escaldante, a excitação era cada vez maior, mas um pensamento baralhou-me por completo. Uma memória muito recente de algo belo, comecei a recordar o sorriso da Elsa, a sua face, os contornos do seu corpo e a sua voz doce sussurrando-me palavras doces ao ouvido... Tudo aquilo foi demais, não poderia continuar a acariciar a Isabel pensado na Elsa. Tinha a minha enfermeirinha controlando a minha mente em detrimento da engenheira que ia perdendo o controlo sobre o meu corpo.
Pára. – como me custou dizer esta palavra.
Isabel não ouviu, pronunciei-a num tom muito baixo.
Pára, Isabel. Estou apaixonado por outra pessoa. – voltei a repetir.
O que disseste, João? – começava ela a prestar atenção nas minhas palavras.
Desculpa, gosto de outra pessoa e não podemos continuar.
Como? E dizes-me isso agora?!
Desculpa...
E já agora, quem é ela? – perguntou Isabel.
A Elsa.
Descobri-o agora neste momento, gosto mesmo daquela miúda.
A engenheira ficou magoada, saiu de cima do meu corpo despido e sentou-se a meu lado na cama.
João, se estás apaixonado por ela, que fazes agora na minha cama?
O silêncio tomou conta da conversa por alguns segundos...
Exacto! Que faço eu aqui?! – questionei-me eu próprio.
Voltei a vestir o roupão e despedi-me da Isabel, beijando-a na cara e passando a mão pelo seu cabelo loiro.
Finalmente no meu quarto, adormeci mal caí na cama, tinha encontrado a paz de espírito que tanto necessitava.
Na manhã seguinte foi uma correria. Não consegui acordar com o despertador e fui acordado pela senhora das limpezas.
Tínhamos o voo de regresso marcado para o principio da tarde, arrumámos as malas, fizemos o check out no hotel e um autocarro levou-nos rapidamente ao Aeroporto do Funchal.
Vinham outros alunos e engenheiros no mesmo voo que nós, a azafama era grande e a coordenação de tanta gente era uma tarefa complicada. Não tinha tido mais noticias da Daniela, simplesmente desapareceu da minha vida tão rapidamente como tinha entrado, ainda agora não percebo qual seria a ideia dela.
Finalmente chegámos a Lisboa, fui levantar as minhas malas e sabia que teria boleia para casa. O Alexandre estava estranho, passou toda a viagem calado e apenas com um sorriso parvo na cara, o cabrão deveria ter tido sexo na noite passada... seria com quem estaria a pensar? Penso que não, acho que a Daniela não estaria assim tão desesperada. Não ao ponto de se ir entregar nos braços do próximo homem que lhe abrisse a porta do quarto e a deixasse partilhar o seu leito.
Mas algo se passava de diferente com o rapaz, recusou a boleia do pai para ir para casa e disse que já estava servido de boleia. O Luizinho ficou apreensivo, pensava que a sua boleia tinha sido cancelada, mas o Alexandre assegurou-lhe que também tinha arranjado quem o levasse a casa. Ele concordou de imediato e sorriu matreiramente para o Alexandre. Muito misteriosos andavam estes gajos, mas caguei nisso e fiquei feliz por eles, poderia ser que fossem descontrair um pouco depois de tamanha carga de trabalho.
Despedi-me deles e da Isabel, a loirinha corou quando lhe dei dois beijos na cara, junto dos seus lábios, senti uma pequena dentada sua no meu queixo e depois a suavidade da sua língua. O Alexandre e o Luizinho estavam por perto, não dava para darmos muito nas vistas e ficámos por ali.
A Elsa foi-me buscar ao Aeroporto, a minha linda já esperava por mim no seu carro.
O Alexandre e o Luizinho ficaram bem entregues às suas sortes, num recanto qualquer e prometeram telefonar-me mais tarde.
Chegámos a casa dela, ainda antes da hora de jantar.
Estava cheio de saudades do seu corpo, do seu calor e da paixão que sinto quando o acaricio.
Apesar do momento de grande ansiedade, fazemos sempre os possíveis para fazer amor sem stress e rodeados do ambiente ideal. Esta noite não seria excepção. Ainda era relativamente cedo, não estava assim tão cansado da viagem e teríamos todo o tempo inimaginável pela frente.
Tomámos um banho relaxante, banhando cuidadosamente um ao outro para nos libertarmos das tensões do nosso dia. Entrámos no quarto, ainda de toalha enrolada nos nossos corpos. Tinha sido decorado, o ambiente assemelhava-se a um harém de modo a estimular os nossos sentidos. Elsa tinha preparado com dedicação cada pormenor do seu quarto, acendeu algumas velas, espalhou um perfume aromático no ar para lhe dar um toque ainda mais sensual, enquanto eu ia passando as mãos por algumas pétalas de rosa espalhadas pelo quarto. Seleccionou um som calminho e pô-lo a tocar, Mandalay, para combinar com a nossa disposição. Tínhamos já todos os nossos sentidos bem apurados, ainda muito antes do nosso jogo de amor começar.
Sentámo-nos de pernas cruzadas sobre a cama, eu deslumbrava-me com o efeito que a luz do candeeiro fazia no seu belo corpo, ficando cada vez mais apetecível. Apenas então, senti que algo estava a crescer entre nós, começava a ficar de pau feito.
Não queria apressar nada, nesta noite, estava disposto a continuar até quando ambos quiséssemos.
Curvámos os nossos corpos ao encontro do outro, tocámos no coração um do outro e sentimos a energia imensa que nos comandava naquela noite. Passei-lhe a mão na testa e suspirámos...
Trocámos palavras doces de amor, levando apenas os lábios ao encontro do ouvido um do outro. O calor intenso que se espalhava do meu coração para o resto do corpo sugeria que toda aquela paixão contida iria brevemente explodir. Tanta energia sexual que me corria pelas veias e pouco nos tínhamos tocado ainda.
Elsa pediu-me por uma massagem sensual, primeiro com uma luva de pêlo de coelho e mais tarde com um óleo relaxante. Não tínhamos o tempo contra nós, então toquei-lhe docemente e muito calmamente em cada pedacinho do seu corpo. Os seus gemidos iam confirmando como ela estava a gostar da minha atenção. Ela vibrava de paixão, uma poderosa energia orgásmica percorria todo o seu corpo.
O meu estado alterou-se, não estava somente na expectativa e aguardando pela Elsa, passei a mão suavemente pela sua vagina uma ou duas vezes.
A música levava-nos ao nosso próprio estado de transe, sem nada para nos incomodar, apenas escutando Mandalay e o som dos nossos corpos. Continuei com as carícias pelo seu corpo, muito depois de ela pedir por mais. Ela deixara-se levar pelo momento e contorcia o seu corpo nas minhas mãos, confiando nos meus toques.
Elsa imploro-me que me tocasse, como poderia eu recusar-lhe? Ela arranhou suavemente o meu corpo com as suas unhas, beliscou e massajou calmamente até eu estar completamente relaxado e deliciado com os seus toques.
Quando ela colocou a sua boca na minha gaita, pensei que viesse com a mais leve e subtil lambidela. Mas ela sabia o que fazia, avançou calmamente para apreciar completamente cada momento. Estávamos ambos sentindo tudo tão profundamente com todos os nossos sentidos despertos, não apressando nada um futuro orgasmo.
Eu respirava fundo, relaxei, e fazia circular todas aquelas sensações maravilhosas para longe dos meus genitais. Sabia que qualquer outra parte do meu corpo não poderia ejacular, mas sentia nos pés, no peito e na cabeça um calor intenso como se estivesse a vir-me desses pontos. O intenso impulso acabou por acalmar e consegui relaxar enquanto a Elsa me estimulava a gaita. Estranhamente, quanto mais devagar ela estimulava, mais fortes eram as sensações. Não queria que isto acabasse nos próximos segundos, desejava que isto se prolongasse durante horas.
Passado bastante tempo, de gaita dentro da boca da menina, virei-me e tratei de lhe estimular os sentidos da mesma forma que ela tão bem tinha feito comigo. Toquei, beijei e lambi delicadamente a sua vagina, agora bem molhada. Ela teve orgasmos múltiplos com o toque dos meus dedos e depois com a minha língua, cada um deles mexendo comigo por dentro. A sua energia fez-me querer vir com ela. Encurralei a gaita entre as minhas pernas e lá permaneceu dura como pedra, enquanto a Elsa continuava gemendo e lançando o seu calor sobre o meu corpo.
Coloquei a minha boca mesmo no meio das suas pernas, era como se ela estivesse bombeando prazer para dentro do meu corpo. Estávamos ambos bastante excitados e gemendo com tanto prazer que poderíamos ter continuado os preliminares durante toda a tarde, mas como poderia eu resistir a tanta tentação, quando a bela Elsa agarrou no meu cabelo e encostou os seus lábios no meu ouvido...
João, quero-te dentro de mim! – disse ela entusiasmada, mordendo a minha orelha em seguida.
Em vez de lhe saltar logo à animal para cima como as minhas hormonas estavam exigindo, subi calmamente com a boca pelo seu corpo e penetrei a sua vagina. Devagar, devagarinho eu me movia, não tanto para a provocar, mas para apreciar cada pedacinho do seu corpo com intenso prazer e merecida atenção. Com todos os nossos movimentos subtis, conseguimos sentir as pequenas explosões orgásmicas de cada um, semelhantes a poderosos espasmos de um orgasmo mas sem nunca nos virmos.
Parecia que tinha passado uma eternidade desde que caímos na cama e desenrolámos as toalhas dos nossos corpos. Continuava a penetrar a Elsa, agora sentado de pernas cruzadas sobre a cama e ela aninhada no meu colo. As nossas vibrações mexiam completamente com os nossos corpos, tentámos permanecer imóveis, mas as vibrações internas simplesmente nos atraíam cada vez com mais força. Aqueles espasmos que se espalharam pelos nossos corpos eram tão maravilhosos que os deixámos percorrer normalmente o seu caminho, fazendo-nos sentir prazeres até então por descobrir e cada vez mais intensos.
Á medida que conseguia acalmar o meu corpo, de modo a não ejacular, comecei novamente a penetrar a Elsa, tomando ela agora conta dos movimentos. Parecia que o prazer resultante de cada movimento era tão intenso que me poderia ter vindo após qualquer um deles e ficado sexualmente satisfeito, mas tentaria prolongar o máximo possível aquele momento.
Elsa aumentava consideravelmente o ritmo, abraçada a mim e colando os seus seios na minha cara, tentava chegar cada vez mais abaixo no meu colo, sendo a penetração mais profunda. Íamos variando de ritmo, retomávamos algum fôlego, começávamos rapidamente e depois as penetrações iam sendo mais lentas e profundas, controlando a ansiedade e excitação de cada um.
Após cada ascensão a um ponto mais alto de excitação, conseguia controlar-me e a mesma excitação baixava a pique. Depois de um breve momento de relaxamento, recomeçava a penetrar a bela Elsa sem explodir de prazer, estava extremamente motivado a prosseguir com este prazer extremo durante toda a noite.
Chegámos, por fim, a um ponto sem retorno, estávamos bem sincronizados e caminhando para um desfecho mais que aguardado. Cada vez que tentava relaxar o meu corpo, sentia na gaita as poderosas contracções da Elsa. Estávamos demasiado ocupados desfrutando cada momento para nos importarmos há quanto tempo estávamos naquilo e com qualquer outra coisa que nos rodeasse, a não ser nós próprios.
O prazer era infinito, viemo-nos ruidosamente, fazendo vibrar os nossos corpos.
Continuava a tocar o CD de Mandalay, passando agora pela terceira vez na última faixa do mesmo.
Abraçámos os nossos corpos encharcados em suor, exaustos, trocámos carícias e adormecemos.

Segunda-feira, Agosto 30, 2004

Ares de Espanha

Algo diferente mexia comigo, não era somente a minha mão a esgalhar o pessegueiro, tinha a puta da gata aos meus pés, aconchegando-se do refreado da noite. Eram sete da manhã, esta pequena bolinha de pêlo insistia comigo para lhe dar de comer.
Vai chatear a tua dona! – gritava eu para a gata, referindo-me à minha mãe.
Espera com isso poder acabar de bater a minha habitual punheta matinal de bons dias ao caralho até me vir, sem interrupções, mas o bicho não percebeu.
O dia adivinhava-se agitado, lá acabei por ceder aos caprichos da gata depois de me vir.
Dei-lhe um pouco de peixe, ainda com a mão imunda dos meus próprios fluidos e abri a janela da cozinha. Finalmente o Sol dava um ar da sua graça, após uns dias bastante nublados e com alguma chuva, em pleno mês de Agosto.
Infelizmente não poderia passar toda a manhã na cama, tive de alimentar os animais e tratar dos últimos preparativos antes de rumar a Palma de Maiorca. Tinha marcado esta viagem com a Elsa, há uma semana atrás, e pedimos ao Gonçalo e à Cátia que nos acompanhassem.
Poderia ter pedido ao Zé Luís e à Mónica que também viessem connosco, sempre seria mais um casal para brincadeiras, mas não falava com eles desde que regressámos de Lagos, o nosso desentendimento ainda estava bem presente nas nossas memórias e tentaria ao máximo desencontrar-me com essa confrontação. Estava de partida para bem longe deles e de toda a confusão que nos envolveu, algo me impingiu que lhes falasse e procurasse esclarecer o que ainda houvesse para ser discutido, coisa que me deixara pouco à-vontade e sem controlo da situação.
Telefonei então para a Mónica, não falara com ela há mais de dez dias... disse-me para passar na casa dela depois de almoçar. Seria uma boa altura, tinha o voo marcado para as seis da tarde e dar-me-ia tempo suficiente para depois passar atempadamente na casa das meninas e do Gonçalo. Ele foi o único que ganhou algo de novo com aqueles dias passados na casa de Lagos. O cabrão andou a comer a Marina durante todo este tempo desde que saímos de lá, aproveitando a viagem de férias dos pais dela para tirarem o máximo proveito de todas as divisões da sua casa.
O pobre rapaz continuava modesto como sempre, não contando nada aos amigos, mas trazia consigo sempre um sorriso de fodilhão estampado na cara. Numa tarde, depois de algumas rodadas seguidas de imperiais, deixou escapar que a andava a foder a Marina desde que a conheceu, que era uma maluca na cama e guinchava que nem uma porca.
Depois de almoçar, passei na casa da Mónica. Ela recebeu com dois beijos na cara e o Zé Luís apareceu por trás, cumprimentando-me calmamente e sem qualquer problema. Não pensei que ele estivesse em casa dela, mas acabou por ser vantajoso, sempre poupei na gasolina de mais uma viagem.
Eles tinham retomado a relação há pouco tempo, certamente fizeram apagar das suas memórias os incidentes ocorridos entre mim e a Mónica nos chuveiros da Residência da faculdade. O Zé Luís olhava agora para mim de modo bem diferente daquele último olhar que trocámos na despedida de Lagos. Já não trazia consigo a mágoa demonstrada no Algarve e continuamos amigos como sempre.
Bebi um cafezinho em casa da Mónica, conversei um pouco com eles e fui buscar as meninas a casa, deixando o Gonçalo para último. Iniciávamos agora a viagem rumo a Palma de Maiorca.
Estacionei o carro num dos parques do Aeroporto de Lisboa, sabia que iria pagar uma fortuna quando o viesse levantar mas sempre ficaria mais em conta que fazer todo este percurso de táxi.
Fizemos o Check in e esperámos pelo embarque. Entrámos a bordo do avião uma hora depois.
Olá, traz mais alguma bagagem consigo? – perguntou-me com simpatia uma das hospedeiras.
Não, apenas a eles. – respondi-lhe com uma certa ironia.
A bela mulher sorriu e foi dispensar um pouco da sua atenção a outros passageiros.
A viagem até Palma de Maiorca foi calma, quase sempre acompanhados por uma vista magnífica sobre a península Ibéria. Aterrámos no Aeroporto de Palma eram quase oito da noite, uma hora mais que em Portugal.
Durante o percurso para o hotel em Ca’n Pastilla, feito de autocarro, o guia português falou-nos do agradável clima que se fazia sentir por toda a ilha, sempre com temperaturas acima dos 30ºC mas humidades próximas dos 95%, que levariam a algum desgaste físico extra nos primeiros dias de estadia.
Chegámos ao hotel, em Ca’n Pastilla, uma vasta e popular estancia balnear que fica situada a oito quilómetros da cidade de Palma. A elevada temperatura era evidente, acompanhava-nos desde o momento que descemos do avião, e ainda se viam algumas pessoas dentro de água no extenso areal da praia de Palma.
Jantámos no hotel, vínhamos em regime de pensão completa, e saímos logo para as movimentadas ruas de Ca’n Pastilla. Rapidamente nos apercebemos que estávamos diante de uma agradável e agitada vida nocturna, cheia de vivacidade, que se prolongava por sete quilómetros de areia que ligavam Ca’n Pastilla à zona do Arenal, na outra extremidade da praia.
Estávamos cansados da viagem, o suor escorria pelos nossos rostos, caminhámos quase até meio da extensa praia, parando em dois bares pelo caminho. A humidade ofegante e a temperatura extremamente elevada faziam que o cansaço da viagem nos pesasse ainda mais nas pernas. Voltámos então para o hotel, a visita à praia ficava fechada naquela noite.
Tínhamos escolhido quartos duplos, o Gonçalo e a Cátia teriam de passar as noites juntos. Ela a princípio, quando fizemos as reservas para estas férias, ficou apreensiva mas depois acabou por se habituar e gostar da ideia.
Ficámos hospedados no mesmo piso do hotel, em quartos seguidos. Subimos para os quartos e despedimo-nos.
Eu e a Elsa desfazíamos as malas, ela retirava cuidadosamente as roupas da sua mala, os biquinis, as cuequinhas e tudo o mais que lhe ficava muitíssimo bem. Ela é daquelas raparigas que fica bem com qualquer trapinho, tem um corpinho escultural e a roupa assenta-lhe na perfeição sobre as suas belas cursas.
Ao vê-la manusear naquelas peças de roupa, despertou-me o apetite sexual.
Linda, porque não desfazemos as malas depois? – perguntei-lhe eu, passando uma mão pelas suas costas.
Senti o calor do corpo da Elsa na palma da minha mão, reduzindo as elevadas temperaturas que se faziam sentir na rua a agradáveis brisas de Primavera.
Deixámos as malas por desfazer de lado e caímos no outro lado da cama, abraçados e cruzando as nossas línguas uma na outra. Os beijos rapidamente levaram às carícias, estas aceleraram as nossas hormonas e fizemos amor, tirando quase nenhuma das nossas roupas dos corpos. Estes suavam quando acabámos, desfizemos as malas e fomos para a varanda. Apreciávamos a vista sobre a praia, no quarto ao lado já o Gonçalo e a Cátia dormiam, possivelmente sem se passar mais nada entre eles.
O último andar do hotel Las Arenas dispunha de uma vista maravilhosa sobre toda a extensão do areal, regalávamos os nossos olhos sem ninguém a mirar-nos.
Estávamos em trajes menores, vestia apenas uns finos calções e a Elsa passeava o seu corpinho pela varanda somente com umas cuequinhas de renda brancas bem justinhas ao rabo. Veio sentar-se no meu colo, baixei os calções e desviei-lhe a cuequinha para o lado. Fazíamos amor calmamente, ela voltada de costas para mim e balanceando o seu corpo no meu colo.
Explodimos de prazer e adormecemos na varanda.
Durante a noite, quando as temperaturas baixaram um pouco e arrefeceram os nossos corpos despidos, acordámos e recolhemos ao interior do quarto, saltando para a cama. Deixámo-nos adormecer abraçados e sentindo a respiração um do outro.
A noite anterior tinha sido bem dormida, apesar do intenso calor que se fazia sentir em Palma de Maiorca. Tomámos o pequeno-almoço por volta das nove e meia da manhã, no hotel. Tal como combinado de véspera com o guia que nos trouxe do Aeroporto, tivemos uma palestra juntamente com o resto do grupo de portugueses que nos acompanharem para estes ares de Espanha. O gajo da agência tentava levar-nos a comprar excursões de exploração à ilha de Maiorca, mas não fiquei muito convencido para ir nalguma delas... teria de me sujeitar aos seus horários, aos seus percursos e à companhia daquela gente toda.O olhar doce da Elsa e a persistência do guia fizeram-me mudar de opinião. O Gonçalo também se mostrou interessado, não queria faltar à visita das grutas na parte oriental da ilha e a Elsa gostaria de fazer o cruzeiro pela costa sudoeste da ilha. Acabámos por escolher essas duas excursões e mais uma nocturna no restaurante Cocó la nuit na cidade de Palma, com espectáculo de transformismo. Eu não queria ir ver aquela merda, mas o restaurante era de elevado requinte e iria provar o melhor da cozinha francesa. Os travestis que dançassem à vontade, mas longe de mim, enquanto eu me regalaria com as maravilhas gastronómicas.
Abandonámos a palestra, após pagarmos as excursões, e fomos tratar do almoço.
Almoçámos tarde e quisemos ir conhecer toda a extensão da praia de Palma, cerca de oito quilómetros de areia que separam Ca’n Pastilla da zona do Arenal.
Não iríamos percorrer toda a praia a pé, estávamos de férias e não nos queríamos cansar daquela maneira. A solução encontrada foi o comboio turístico, tren como é conhecido na região. O serviço retomava a actividade às cinco da tarde, esperámos no hotel até essa hora no hotel. O Gonçalo ficou a conversar com a Cátia no bar enquanto eu e a Elsa subimos para o quarto. Tínhamos apenas mais uma hora de espera, estava um calor abrasador e os nossos corpos pediam pelo contacto molhado dos nossos lábios. Tomámos um duche e fizemos amor na banheira, muito lentamente, com ela sentada no meu colo e recebendo as minhas mãos no seu corpo. A água fria da torneira aquecia com o calor dos nossos corpos, Elsa marcava o ritmo com que era penetrada por trás e estimulava o clítoris com a sua mão, deixando eu as minhas mãos bem firmes nos seus seios, apertando-os cada vez mais. O calor dos contactos intensificava-se e viemo-nos naquela posição, inundando a banheira com o resultado da nossa paixão.
Restava-nos pouco tempo, vestimo-nos e depressa descemos até ao bar, de encontro aos nossos amigos.
Eram cinco horas em ponto quando apareceu o primeiro comboio turístico da tarde. Um espanhol dizia que agora vinham de quinze em quinze minutos e o último seria à meia-noite. Não nos faria diferença, a essa hora já queria estar enfiado na cama com a minha querida Elsa.
Percorremos a totalidade do percurso em vinte minutos, sempre junto à praia, numa passadeira de calçada construída para estes carros e bicicletas. Apreciámos os contrastes de toda a região, havia uma grande diferença na expansão turística de Ca’n Pastilla e do Arenal, onde tínhamos agora chegado.
A qualidade ia decrescendo à medida que nos afastávamos do início da praia de Palma, em Ca’n Pastilla, até chegarmos ao Arenal onde nos deparávamos com uma visão mais residencial, menos explorada pela indústria hoteleira, quase um típico bairro de pescadores, bem diferente de todo o luxo e vivacidade de Ca’n Pastilla. Sinceramente, parecia a praia dos pobres em comparação com o outro lado da região. Pensei em ir apenas conhecer a localidade e deixar a praia para a manhã seguinte, já em Ca’n Pastilla, mas estava um calor insuportável. Era um daqueles dias que até as poças de água no asfalto serviriam para as pessoas se refrescarem, tivemos obrigatoriamente de nos refugiar nas areias do Arenal repletas de gente. Esta porção de areia também fazia parte da mesma praia maravilhosa que me tinha banhado horas antes, mas estava menos cuidada e o fundo do mar estava cheio de pedras enormes, fazendo desta zona uma atracção turística de menor relevância.
Passámos umas horas no Arenal, até nos ser possível levantar o cu da areia e nos afastarmos da proximidade do mar para retomarmos a Ca’n Pastilla, no comboio turístico que simpaticamente havíamos nomeado de carrocinha. Esperáva-nos o percurso inverso de vinte minutos, agora sob um calor menos abrasador.
Deixámos a zona do Arenal rumo ao hotel em Ca’n Pastilla, parecia que estávamos de regresso à civilização e que o ritmo agitado desta zona balnear nos tinha feito falta nas últimas três horas passadas nas areias do Arenal.
Não era somente a praia e os empreendimentos hoteleiros que eram inferiores daquele lado da baía, também as raparigas e mulheres que se banhavam naquelas águas eram menos elegantes que as inúmeras avistadas em Ca’n Pastilla. O Gonçalo deveria estar a pensar no mesmo que eu, olhou para mim com aquele sorriso característico de putanheiro com o cio e tentava seguir com os olhos cada mulher interessante que passeasse junto à praia.
Chegámos ao hotel e fomos de imediato tomar um duche para retirar o sal. Ao fim de meia hora, estávamos os quatro no restaurante do hotel a jantar e logo saímos para a rua quando acabámos a deliciosa refeição.
O calor intenso e a humidade do ar próxima dos 95% deixaram-nos exaustos após a nossa já habitual voltinha junto ao mar e tendo sempre do outro lado da rua os infindáveis bares e discotecas que compunham a vida nocturna desta localidade. Voltámos ao hotel depois de mais uma jornada a rodar alguns bares, sentia-me pouco entusiasmado para fazer amor, talvez devido ao enorme cansaço e adormeci pouco depois de me deitar na cama com a Elsa a meu lado dando-me beijos no braço que a rodeava.
Acordei a meio dessa mesma noite, Elsa tinha-se deixado dormir com a televisão ligada. Desliguei a televisão e olhei para Elsa dormindo docemente a meu lado, estava de costas para mim, beijei-a na nuca e fui avançando suavemente com os lábios de encontro ao seu ombro. Ela suspirou e esboçou um leve sorriso, continuando a dormir na paz do seu sono. Pequei no lençol que nos cobria pouco mais que as pernas e tapei a minha princesa que repousava nua.
Abracei o seu belo corpo e voltei a adormecer.
Os primeiros raios de Sol de quarta-feira já há muito que tinham entrado pelo interior do nosso quarto, iluminando os nossos corpos. Acordei bem disposto, olhei para o lado e vi a coisinha mais linda deste mundo. Contentei-me por despertar um dia mais na presença desta doçura de mulher. Acordei a Elsa e meia hora depois estávamos com o Gonçalo e a Cátia, tomando o pequeno-almoço.
Era dia de excursão, as grutas de Drach e Hams aguardavam por nós. Iríamos visitar o lado mais oriental da ilha e duas das suas famosas grutas, Drach e Hams, que no dialecto da ilha significam Dragão e Anzol.
Saímos do hotel eram nove da manhã, em direcção a Manacor passando por várias povoações do centro da ilha de Maiorca. Numa delas, em Villafranca, podemos ver a confecção das famosas pérolas artificiais, numa das melhores fábricas da região. Apesar da beldade exposta no calcário das pérolas, nada reluzia mais aos meus olhos que a bela Elsa, sempre radiante e passeando entre as outras jóias.
A Cátia ficou encantada com tamanha beleza das pedras e não se conseguiu conter...
Já fui gastar dinheiro! – dizia ela, sorrindo.
Então, foste comprar gelados para nós? – perguntei eu.
Fizeste bem, já me estava a apetecer um... – acrescentou o Gonçalo, sendo interrompido pela Cátia.
Não, nada disso. Vejam lá se gostam?!
Mostrou-nos um pequeno embrulho com uma caixinha dentro, nessa caixa estava um pequeno piercing com duas pérolas de diferentes tamanhos, uma em cada ponta.
Grande nível, muito bonito. – disse eu, participando na sua alegria.
Pois, com o cartão de crédito do papá também posso gastar dinheiro nestas coisinhas. – acrescentou ela.
A Cátia tinha gasto uma pequena fortuna num pedacinho de titânio com duas pérolas nas pontas, mas estava bastante contente e o seu olhar brilhava de alegria, não fosse ela mulher e tudo o que implicasse gastar dinheiro era sinónimo de felicidade.
Depois da visita à fábrica das pérolas, partimos para Porto Cristo e visitámos as grutas de Hams, famosas pelas estalactites em forma de anzol, donde deriva o seu nome.
Era de facto um local lindíssimo, o interior da gruta fazia-nos relaxar e dar largas à imaginação, transportando-nos para uma história de aventuras e recheada de emoções fortes, tento apenas como limite a força da nossa imaginação.
Saímos de Hams e entrámos nas grutas de Drach, um lugar igualmente espectacular. Estas grutas são consideradas como uma das maravilhas do mundo com o maior lago subterrâneo da Europa. Assistimos a um grande espectáculo de luzes e som sobre as águas negras do Lago Martel, no interior da gruta. Fiquei surpreendido com tamanha grandiosidade, navegávamos no lago observando em poucos minutos o semelhante ao efeito do nascer do Sol dentro da gruta e a sua luminosidade tocando nas águas do Martel, representados por feixes de luz, ao mesmo tempo que escutávamos música clássica.
Foi uma visita agradável, desfrutámos de ambientes naturais onde a única intervenção do Homem tinha sido iluminá-los e dá-los a conhecer aos da sua espécie.
Voltámos ao hotel, jantámos e demos o habitual passeio pela praia de Palma, indo abastecer ao bar mais próximo sempre que necessário.
Eram quase duas da manhã quando regressámos aos quartos, a tarde bem passada no interior das grutas tinha-me despertado o apetite sexual e sentia nos beijos da Elsa um chamamento animal para fazermos amor. Não deu tempo para fecharmos a porta do quarto, as nossas mãos tinham tomado conta da situação.
A Cátia interrompeu-nos, tinha-se esquecido do telemóvel dentro da mala da Elsa e ficou um pouco envergonhada por nos ver agarrados daquela forma selvagem. Eu estava já em tronco nu e todo despenteado, enquanto a Elsa tinha as suas cuecas descidas pelos joelhos e as mãos na minha braguilha. Parámos naturalmente por ali, Elsa foi buscar o telemóvel da Cátia. Aproveitei para retomar o fôlego, Elsa é uma mulher bastante fogosa e que me deixava completamente de rastos.
A Cátia foi para o seu quarto e lá fechámos a porta do nosso, finalmente, e retomámos o que tínhamos começado dois minutos antes. Tínhamos a cama a cinco metros de nós mas tardávamos para lá chegar, retirámos o resto das nossas roupas junto à porta do quarto e encostei a Elsa à parede adjacente, penetrando-a de pé. O nosso ritmo era elevado, os nossos corpos pediam urgentemente por carícias e algo mais, algo que nos saciasse o corpo e sobretudo a mente. Da porta de entrada, passámos para a casa de banho, testando a resistência do lavatório, Elsa sentou o seu rabinho lá e fizemos amor, abraçados e trocando beijos ardentes, com penetrações profundas e calminhas.
Quando terminámos, passámos a cara por água e dirigimo-nos para a cama, mas antes de lá chegarmos, a Elsa deitou de barriga para baixo no sofá. Não resisti ver aquele rabinho firme olhando para mim e os contornos deslumbrantes do seu corpo atraíram-me para ele.
Fizemos novamente amor, os nossos instintos animais estavam a ser preponderantes. Agarrei nos cabelos da menina e puxava-a para mim, onde recebia com força dentro de si todo o esplendor da minha excitação. Continuava a puxar-lhe os cabelos e a dar-lhe algumas palmadinhas nas nádegas, sentia a Elsa aquecer cada vez mais e não controlando a sua respiração, escutava agora os seus gemidos mais intensos e o calor do seu corpo levou-me a aumentar o ritmo que lhe penetrava aquele pito molhado por trás...
O orgasmo foi potente, deixou-nos completamente exaustos e a suar imenso, levou-nos directamente para a cama, deixando o banho para a manhã seguinte.
Agora finalmente deitados na cama, aproveitamos o resto das nossas forças para trocarmos doces beijos até adormecermos nos braços um do outro.
Na manhã seguinte, fui acordado pelo calor e sabor aromático dos beijos da Elsa. Tomámos o nosso banho juntos e fomos ter com o outro casalinho para mais uma jornada de praia.
Iríamos aproveitar somente a tarde na parte da manhã, ficando a tarde e a noite reservadas para serem passadas na cidade de Palma, sendo o espectáculo no restaurante Cocó la nuit o grande desfecho num dia que se adivinhava diferente.
Pouco depois do almoço, apanhámos o autocarro para a cidade de Palma que ficava a oito quilómetros do nosso hotel em Ca’n Pastilla.
Saímos do autocarro que nos trouxe à cidade, na Praça Reina, diante de uma imponente catedral medieval. Fomos levados a visitar o belo monumento, mas como em Palma de Maiorca, teríamos de pagar para o fazer. Nesta ilha tudo se paga, excepto por cona visto que há muita. O próprio guia turístico, um português que vivia em palma há doze anos, nos tinha alertado para esse facto.
Depois de visitarmos a Catedral, não podemos dar o nosso dinheiro por mal empregue. Não quando se visitam locais como este, carregados de história e tradição. Talvez o dinheiro servisse exclusivamente para a preservação deste belo edifício que necessitava ser preservado.
De facto, estava rendido com tamanha força transmitida pelo monumento, para além da sua beleza arquitectónica, esta relíquia construída no século XII, possui no seu interior a maior nave central de todo o mundo.
Quando abandonámos o recinto e fizemos uma visão panorâmica pela praça Reina, tendo a Catedral nas nossas costas. Observámos a sucessão de contrastes e paisagens que nos rodeavam e envolviam. Para a direita, tínhamos as grandes cadeias multinacionais com as suas lojas cheias de classe e requinte, olhando para a esquerda, víamos o comércio tradicional da ilha e reservado a bolsos menos abastados. À nossa frente, encontrava-se toda a zona histórica da cidade de Palma.
Caminhámos pela praça, queríamos conhecer o máximo possível da cidade mas tínhamos apenas seis horas para o fazer, devido ao jantar no Cocó la nuit.
Tal como nas ruas das cidades portuguesas, em Palma também havia quem ganhasse a vida a vender rosas, mas estes não eram indianos. Um desses gajos, mal vestido e com um molhe de rosas na mão, chegou-se perto de nós quatro e esperava que lhe comprássemos alguma rosa. Tive de recusar duas ou três vezes antes de ele se convencer que não iria gastar o meu dinheiro naquilo, o Gonçalo começou também ele por recusar mas cedeu ao ver a carinha expectante da Cátia. Abriu a carteira para tirar o dinheiro e foi surpreendido pelo gajo que vendia flores, este agarrou-lhe na carteira e desatou a correr dali para fora, ainda com o molhe de rosas na outra mão.
Segundos depois, quando finalmente nos apercebemos do que realmente se tinha passado, corremos atrás daquele cabrão.
Perseguimos o animal durante bastantes metros, o bandido corria rápido como o caralho, mas acabámos por lhe deitar a mão quando ele tropeçou num canteiro do jardim e fui marrar com os cornos num caixote do lixo. Não tivemos a mínima pena do gajo e ainda lhe enchemos de porrada, libertando depois aquele pedaço de merda queimado pelo Sol, não fossem os amiguinhos bandidos dele aparecerem entretanto. Deixámos o cabrão recuperar o fôlego antes de lhe aviarmos mais porrada naqueles cornos, mas ele conseguiu escapar-se quando o Gonçalo o agarrava e lhe perguntava pela carteira, deixando o casaco para trás nas mãos do Gonçalo. Correu para se esconder nas ruas estreitinhas daquele bairro, como não conhecíamos a região, de nada nos serviu correr atrás dele. Voltámos ao local onde o tínhamos apanhado, o Gonçalo só queria recuperar a carteira e verificou se estava dentro do casaco. Lá estava ela, juntamente com um grosso maço de notas preso com um elástico. Possivelmente, proveniente de roubos anteriores.
Era uma quantia considerável de dinheiro, não o iríamos devolver porque saberíamos a quem o fazer, mas decidimos gastá-lo naquela tarde, certamente em álcool e num sítio de qualidade.
O guia tinha-nos referenciado alguns locais a não perder, a zona de Club de Mar na marina de Palma era um deles. Pensámos em ir lá, era uma das zonas finas da cidade, com melhor ambiente e mais vedetismo. Fomos ter com as meninas que nos aguardavam apreensivas na praça, contámos-lhes o sucedido e fomos visitar o clube náutico daquela afamada zona, pelo longo e belo passeio marítimo da cidade de Palma.
Ao caminharmos junto ao mar, fomos observando a evolução no planeamento urbanístico da cidade. Na extremidade onde tínhamos começado a caminhada, a poucas dezenas de metros da Catedral, ficara para trás um bairro inteiramente construído no século XVIII e logo depois um bairro judeu que datava do século seguinte.
Não observava apenas uma evolução nas construções das casas, à medida que avançávamos pelo passeio, era também uma distinção de classes sociais e de culturas.
O mar ficava do nosso lado esquerdo, a exploração da baia de Palma também era uma montra de contrastes. Tal como nas casas e ruas, ao nosso lado direito, dentro de água observava-se a mesma distinção.
Os três clubes náuticos da longa marina de Palma, acompanhavam a evolução urbanística que decorria do outro lado do passeio marítimo da cidade, sendo o inicial, aquele próximo da Catedral, o menos requintado e o da outra extremidade do passeio era sem duvida o mais luxuoso. Esse clube náutico tão bem falado era aquele situado em Club de Mar, e foi exactamente para lá que nos dirigimos.
Depois das oito imperiais bebidas no tão afamado clube, que nos custaram o equivalente a um barril inteiro de cerveja comprado no supermercado, caminhámos até ao centro da cidade, ponto de convergência de todos os povos e culturas.
Deixámo-nos perder propositadamente nas ruas daquela zona histórica da cidade, pequenas ruelas estreitinhas, todas diferentes e possuidoras de uma identidade própria, contando-nos uma história sempre que as visitávamos, acompanhada pelo som dos nossos passos.
Foram algumas horas a andar, estávamos cansados e parámos junto de uma fonte. A Elsa sentou-se ao meu lado e ficámos ali naquele banco de jardim, enquanto o Gonçalo e a Cátia tinham ido comprar Ensaimadas para comermos. Este típico doce da ilha de Maiorca são grandes caracóis em massa de bolo e podem ser recheados com qualquer coisa.
Estas férias estão a fazer-me bem. Sinto que recuperei a minha alegria.
Dizia a Elsa, olhando para mim.
E tu, fofo, como tens passado estes dias? – perguntou-me ela.
Bastante bem... – mal abri a boca, corei de imediato.
Sentia por ela um carinho especial, algo dentro de mim tinha mudado profundamente, começava a sentir uma paixão desmedida por esta doçura de rapariga. Ela encostou a sua cabeça no meu ombro e acariciou-me a face.
É bastante gratificante estar neste lugar espectacular com uma rapariga como tu, que é ainda mais maravilhosa que tudo aquilo que nos rodeia.
A minha expressão alterou-se depois de lhe dizer aquelas palavras, algo me fez chorar... que se estaria a passar comigo?
Ainda mais para um jovem rapaz como eu que te acha a coisinha mais linda deste mundo. – acrescentei.
Passei as mãos pelo seu cabelo, ela levantou a cabeça do meu ombro e abraçou-me, os seus lábios escorreram as minhas lágrimas que escorriam pela face e depressa aqueceram os meus. Tudo em nosso redor deixou de importar mais...
O ambiente circundante acabou por reaparecer na nossa percepção poucos minutos depois, o Gonçalo vinha interromper-nos.
Parem lá com isso, ainda me fazem vomitar a imperial. – dizia ele, na brincadeira.
Sim, e a mim também. – juntava-se a Cátia à festa.
Estão com ciúmes, é? Não tenham, venham cá que também vos dou um beijinho...
Não dás nada, são todos meus!
– interrompeu-me a Elsa.
Tens razão linda, todinhos. Oiçam lá, porque não fazem o mesmo e deixam de nos empatar? – acrescentei eu.
Isso agora... – lançava a Cátia a suspeita que algo já se tivesse passado entre eles.
Vocês formam um casal giro, ficam muito bem juntos. – incentivou-os a Elsa.
Era mais que natural que toda aquela convivência entre eles desse certo e não fosse apenas algo passageiro, como umas fodas de ocasião.
João, continuamos a nossa conversinha no quarto. – finalizou a Elsa, antes de nos levantarmos do banco de jardim, passando as mãos lentamente pelas minhas pernas.
Eram quase nove horas da noite, apanhámos um táxi e fomos ter ao restaurante Cocó la nuit.
Na entrada para o restaurante, esperava-nos o guia português e algumas das pessoas que tinham vindo no nosso voo.
Começámos a jantar, iniciando o banquete com algumas iguarias da cozinha francesa. Felizmente, o espectáculo de transformismo estava atrasado e seria servido na hora da ceia. Ainda bem, não fosse alguma daquelas aberrações, ou meninos vestidos de meninas como dizia o Gonçalo, me estragar o jantar.
A refeição tinha sido maravilhosa, o espectáculo de transformismo deve ter agradado a quem gostava, a mim passou-me completamente ao lado.
Chegámos ao hotel a altas horas da noite e subimos logo para os quartos. Devo ter adormecido assim que saltei para a cama, não me recordo de nada mais para além da visão do rabinho da Elsa, quando na manhã seguinte ela abriu a janela do quarto e me fez acordar.
Ainda estava ensonado quando descemos para tomar o pequeno-almoço. Não dormi o suficiente durante a noite, devo ter tido algum pesadelo e aquelas bichas que desfilaram de véspera no Cocó la nuit, deveriam ter sido cabeças de cartaz também no meu sonho, transformando tudo o que era de bom e bonito num pesadelo horrível com homens vestidos de mulheres.
Fomos à praia durante a manhã e voltámos lá depois do almoço.
Esta praia é um espectáculo! – exclamei eu.
Sim, é verdade. Nunca tinha visto tanta mama destapada. – acrescentou o Gonçalo, olhando para as mamas de uma.
Ele tinha razão, esta praia era um paraíso para qualquer mirone. As raparigas, de diferentes nacionalidades, exibiam com orgulho o material genético que os seus pais tão bem tinham concebido e outras simplesmente demonstravam uma das muitas e boas qualidades da silicone. Na maioria dos casos, excluindo as da terceira idade, eram maminhas redondinhas e bem definidas, tanto as naturais como as plastificadas.
Olhei logo para a Elsa, na esperança que ela fizesse o mesmo que tantas outras. Nesta praia, isso era um acto natural e estava presente na consciência de quase todas as mulheres que a frequentavam. Elsa viu-me com cara de rebarbado e sorrindo para ela, logo desconfiou do que fosse e certamente estaria a ler com clareza os meus pensamentos. Com o seu jeitinho querido, retirou a parte de cima do biquini, exibindo graciosamente os seus belos seios.
O Gonçalo tentava utilizar a mesma estratégia com a Cátia, mas como ela era mais novinha, sentiu-se um pouco envergonhada. Após alguma insistência da nossa parte e também de um incentivo da Elsa, ela acabou por retirar a parte de cima do seu biquini, mostrando os seus lindos seios juvenis, ainda que um pouco envergonhada. Os seus seios são pouco volumosos e combinam na perfeição com o seu corpo atlético, bem mais elegantes e apreciáveis que qualquer uma das mamas made in McDonald’s que com alguma frequência se vê nas adolescentes.
Elsa retirou do seu saco de praia o protector solar e sentou-se em cima de mim. Fez as suas mãos deslizarem pelas minhas costas, espalhando o creme. As suas mãos de enfermeira eram milagrosas, deslizavam com delicadeza, massajando casa músculo do meu corpo.
Relaxei completamente, quase adormeci.
Hei, também quero! – exclamava o Gonçalo, querendo brincadeira.
Lá estava este gajo novamente a empatar o que era bom...
Olha lá rapaz, estou a pensar seriamente em mandar-te pelo correio de volta para Lisboa.
Andas a intrometer-te demais, começo a pensar que estás apaixonado por mim.
– brincava eu com ele.
Nada disso, tens muito pêlo! – disse ele.
Foi bonito, rimos muito, a conversa de merda tinha destas coisas.
Estou mesmo a precisar duma massagem. – insitia ele.
Pede ajuda técnica à Cátia, a minha enfermeira é particular. – acrescentei eu, passando uma mão na perna da Elsa.
Continuámos naquilo durante toda a tarde e assim se passou mais uma jornada de praia, sobre um calor abrasador e acompanhada de conversa de merda.
Depois do jantar demos, uma vez mais, a típica e já tão tradicional caminhada pelo passeio junto à praia, percorrendo uma nova etapa do nosso rali tascas. Ao fim de duas intensas horas de reabastecimento nos bares, ficámos carregados de álcool e mal nos conseguíamos deslocar, pelo menos não cambaleando.
Voltámos para o hotel à boleia na carrocinha, o comboio turístico da zona.O gajo da recepção, um rapazito novo, começou a rir assim que nos viu aproximar. Nem me lembrava do numero do quarto, mas o espanhol lá desenrascou aquilo e deu-nos as chaves do quarto, após consultar as fichas de entrada.
No elevador que nos levou ao quinto andar, assisti pela primeira vez a um contacto físico não formal entre o Gonçalo e a Cátia, abraçados e quase se despindo, foram trocando beijos durante a subida. Não duvidava que eles já andassem juntos, passar uma semana no mesmo quarto, e na mesma cama, com uma menina linda tornar-se bastante penoso de resistir, mas esta tinha sido a primeira vez que os via trocarem fluidos.
Eu e a Elsa ficámo-nos pelo quarto deles, era o mais próximo da saída daquele elevador e não tivemos mais forças para caminhar até ao nosso. Assim que entrei no quarto, fui passar a cara por água, a Elsa acompanhou-me e depois de também ela se refrescar tirámos parte das nossas roupas. Não havia travão possível para tanta paixão contida e o intenso calor que se fazia sentir foi um catalizador vertiginoso.
A nossa noite estava longe de terminar, saímos da casa de banho apenas mantendo a roupa interior sobre os nossos corpos, esquecemo-nos que não estávamos no nosso quarto e teríamos a companhia de mais um casal.
Tropeçámos neles no caminho para a cama, estavam os dois a rebolarem pelo chão aos pés da mesma. Nem devem ter reparado que tínhamos acabado de passar por cima deles.
Acomodei-me na cama e esperei pelo corpinho quente da Elsa. Ouvia suaves gemidos da Cátia, deveria estar a ser estimulada e ignorava por completo a presença de mais alguém naquele quarto. E estávamos, de facto, ali tão perto deles, completamente bêbados é certo.
A queca prolongava-se por tempo indeterminado, estávamos encharcados em álcool e agora em suor. O álcool actuava em nós como um combustível extremamente potente e ao mesmo tempo retardatário de um desfecho previsível para tanta troca de calores e emoções.
Quisemos mudar de cenário, tombei no chão com a Elsa nos meus braços. Os corpos vizinhos estavam agora mais próximos dos nossos e sujeitos a algumas colisões. Elsa deitou se costas sobre o soalho e recebeu-me dentro dela, enquanto afastei uma das minhas mãos do seu corpo para massajar os seios da Cátia. A menina gostou e os seus gemidos intensificaram-se, traziam mais açúcar e eram sucedidos de uma respiração calorosa que sentia na minha mão. Ela gemia cada vez mais, contraía o seu corpo de forma incontrolável e contagiava que nela tocasse.
A Elsa estava mais calminha, ia saboreando lentamente o meu calor dentro dela, contraindo as suas pernas e arranhando as minhas costas com as suas unhas.
Começava finalmente a destilar melhor o álcool e sentia que estava próximo de me vir. O Gonçalo continuava montado na Cátia, ali mesmo ao lado. Iam dando as últimas encavadelas da noite, ainda com a minha mão apertando o seio da Cátia e sentindo o seu calor aumentar. Atingiram o seu clímax pouco tempo depois, a Elsa também estava a aquecer cada vez mais, as suas contracções aumentaram de intensidade, fazendo-me penetrar aquele pito molhado com todas as minhas forças.
Aumentámos ainda mais o ritmo, entrámos em sintonia e viemo-nos ruidosamente, foi até rebentar o colhão.
Saí de cima dela e deitei-me a seu lado, aninhando ela a sua cabeça no meu peito.
O Gonçalo já ressonava que nem um porco, ainda nem há dois minutos atrás estava montado feito maluco em cima da Cátia.
A Cátia ainda tentava recuperar o fôlego, despedimo-nos dela com um sorriso e adormecemos juntos, todos deitados no chão.
Acordámos na manhã seguinte pelo bater de alguém na porta do quarto. Era sábado, tínhamo-nos esquecido seria dia de excursão, um cruzeiro pelo sudoeste da ilha. Foi o guia português que nos veio acordar, eram quase nove da manhã, hora agendada para a partida do hotel. Ele estava com pressa e insistiu para que nos despachássemos.
Voltei com a Elsa ao nosso quarto, trocámos rapidamente de roupa e descemos para a entrada do hotel, onde uma multidão de turistas nos aguardava impacientemente.
Chegámos pouco depois ao porto, o barco sempre tinha esperado por nós.
O barco ia percorrendo toda a costa sudoeste da ilha de Maiorca, onde vimos paisagens belíssimas de rochas erguidas e pequenas praias escondidas. Quando passámos junto à costa, em Magalluf, o barco parou e quem quisesse poderia dar saltos para a água. Estávamos a cem metros da praia, em águas plenamente límpidas onde se via o fundo do mar, este sempre calminho e apenas agitado pela propulsão do barco e dos muitos saltos que demos.
De Magalluf navegámos até Camp de Mar, região conhecida por albergar algumas das maiores estrelas a nível mundial. Avistámos ao longe as montanhas compradas por algumas celebridades e foi com especial atenção que reparei na imensa mansão do Schumacher. O barco parou novamente e tivemos tempo livre para desfrutarmos das areias limpas daquela praia.
O almoço, servido a bordo na viagem de regresso, foi Paella e bem regado com bastantes jarros de sangria.
Chegámos ao final da tarde ao hotel, jantámos e fomos directos para os nossos quartos, saltando assim uma etapa do já habitual rali tascas. Estávamos um pouco cansados, mas não adormecemos de imediato. Elsa lançou-me para cima da cama e sentou-se sobre a minha cintura. Tirou-me a roupa e fizemos amor, perdendo completamente a noção temporal...
O Sol de domingo começava a iluminar-nos a cara, tínhamos desligado o ar condicionado a meio da noite e abrimos a porta envidraçada que nos separava da varanda.
O ar fresco da manhã refrescava os nossos corpos despidos, passei a mão pela face da Elsa e beijei-a nos lábios. A sua boca estava adocicada, talvez fossem ainda alguns vestígios da garrafa de moscatel que despachámos durante a noite.
Ela acordou, olhou-me nos olhos e esboçou um sorriso, respondendo-me ao beijo com um outro seu.
Tomámos o nosso duche matinal e fomos ter com os outros ao restaurante do hotel.
Eles já lá estavam quando chegámos, tinham começado a tomar o pequeno-almoço e trocavam algumas carícias.
Perdemos pouco tempo ali, fomos imediatamente depois para a praia. Era o nosso último dia naquelas areias deste pequeno paraíso no Mediterrâneo e teria de ser bem aproveitado.
Passámos longas horas nas areias da praia de Palma, nem recolhemos ao hotel para almoçar, somente ao final da tarde quando o Sol já tinha ido embora para outras paragens.
Eles subiram logo para o quarto, enquanto eu fiquei na recepção a tratar de alguns detalhes. Passei depois pela piscina do hotel, ali ao lado, e foi então que vi algo que não me deixou indiferente. Naquelas águas, uma rapariga nadava de um lado para o outro, mexendo-se com uma graciosidade extrema. Era a Patrícia, eu sabia que reconhecia aquele rabinho de qualquer lado.
Sentei-me numa das cadeiras da piscina e esperei que ela saísse. Veio naturalmente ter comigo assim que me viu, não parecia surpreendida por me ver ali, era como se sempre soubesse que eu estaria naquele local. O seu corpo continuava elegante como sempre, caminhava na minha direcção somente com as cuecas do biquini vestidas, deveria ser agora moda as miúdas andarem em topless.
Não desconfiava do que se passasse na sua cabeça, mas eu estava surpreendido de a ver ali. Ela seria a última pessoa que esperaria encontrar num local destes, pensei que ainda estivesse fugida às autoridades.
Olá, João. – disse ela, enxugando-se com a toalha.
Olá, linda. Não esperava encontrar-te aqui. – respondi.
E não esperaria mesmo, que fazia ela num hotel bastante concorrido de uma estancia balnear super popular... Quais seriam as suas razoes?!
Ela sentou-se na mesma cadeira onde eu estava e continuou a enxugar o seu corpo.
A maneira como te mexias chamou-me à atenção. Parecia poesia, pensei que fosse uma visão, mas afinal eras mesmo tu.
Não comeces, João! Sabes que me derreto toda com essas coisas.
– disse ela.
Está bem, prometo ficar por aqui nos elogios.
Mas diz-me, que te trouxe aqui?
– acrescentei, sorrindo.
A Diana disse-me que te encontraria aqui. Apeteceu-me ver-te antes de partir. – explicava ela.
Vieste de propósito até aqui? – perguntei.
Sim, para te ver.
E para onde vais partir?
– insisti eu.
Vou amanhã para Nova Iorque. Não tenho muito tempo livre, posso não voltar mais a ver-te e quis agradecer-te por tudo o que fizeste por mim.
Não precisas de agradecer, tudo o que fiz foi com gosto.
– disse eu.
Eu sei, lindo. Olha, toma para ti e também para a Elsa.
Patrícia deslizou a mão por dentro das cuecas do biquini, retirou uma bolsinha que trazia lá dentro e entregou-ma.
Estou no quarto 554, passem por lá antes de saírem esta noite. – finalizou ela.
Trocámos dois beijos na cara e ela levantou-se da cadeira, saindo da zona da piscina.
Ela sabia que eu estava naquele hotel, inclusive o andar do meu quarto, visto estar a apenas duas portas de distância da minha. Subi para o quarto e contei as novidades à Elsa, só então me lembrei que a Patrícia me tinha entregue uma bolsa de veludo com algo lá dentro. Coloquei a mão no bolso para a retirar, quando a abri vi lá dentro duas pedras brilhantes. Eram diamantes! Talvez fossem ainda alguns dos restantes do golpe que ela tinha dado na joalharia em Lisboa.
Diamantes?! – exclamava a Elsa, questionando-me porque os tinha aceite.
Sim, e um deles é para ti. – acrescentei eu.
Descemos para jantar, contei ao Gonçalo e à Cátia o que antes tinha dito à Elsa. Eles estavam incrédulos, também pensavam que a estas horas já a Patrícia estivesse do outro lado do mundo, escondida num recanto qualquer e não somente a algumas portas de distância do quarto deles.
Depois do jantar, fomos todos buscar a Patrícia ao quarto, eram quase dez horas da noite. Ela abriu a porta e mandou-nos esperar na cama, enquanto ela se calçava e acabava de arrumar umas coisas. Patrícia tinha já a mala de viagem preparada, dissera-me junto à piscina que iria para Nova Iorque, esperava que não fosse fazer outro assalto e simplesmente mudasse de ares para tentar retomar o rumo da sua vida pacífica, sem estas merdas à mistura. Era tudo o que eu mais queria para ela, vê-la feliz e sem ter a polícia sempre atrás de si.
Ela acabou de se aprontar, descemos para a rua e fomos percorrer a última etapa do rali tascas. Hoje tínhamos a companhia de uma amiga especial, a jornada começou logo no primeiro bar que encontrámos e pouco tempo depois corremos para o seguinte, assim sucessivamente até ficarmos um pouco mais do que alegres.
Refugiámo-nos na areia da praia, junto ao mar e escutando a sua voz. Estava bastante calmo e sereno, como sempre nesta baía.
Após algum tempo de repouso para dar descanso ao fígado, retomámos ao circuito de bares. Depois de nos enfrascarmos em álcool e atestarmos o depósito, decidimos parar numa casa de Body Painting. Cada um de nós tatuou no seu corpo o caracter chinês referente ao ano de nascimento. Não era nada definitivo, apenas duraria algumas semanas e serviria para nós recordarmos de alguns bons momentos passados em Maiorca. Iria recordar certamente ao observar a tatuagem que a Elsa fez na virilha, um pequeno caracter que lhe ficava extremamente sensual.
Regressámos ao hotel, eu e a Elsa convidámos a Patrícia a passar a noite no nosso quarto. Poderia ser um dos últimos momentos que passaríamos juntos, gostaria de estar um pouco com ela.
Patrícia aceitou e entrou connosco no quarto, deitou-se na cama connosco e ficámos os três na conversa durante horas. Adormecendo já com a claridade dos primeiros raios de Sol.
O telefone do quarto tocou, eram quase onze horas da manhã. Era o Gonçalo, tínhamos faltado ao pequeno-almoço e teríamos de nos preparar para o voo de regresso.
A Patrícia adormeceu na nossa cama, mas não se encontrava lá quando acordámos. Certamente teria ido apanhar o seu voo para Madrid e depois para Nova Iorque, ou talvez tivesse prevalecido o seu instinto de fugitiva e a tivesse levado a sair do quarto sem nós. É uma rapariga linda e tem um corpinho de manequim, pena andar sempre em fuga.
Chegámos a horas ao Aeroporto, mas como quase sempre acontece, o voo partiu pouco depois da hora marcada.
Uma hora e meia depois aterrávamos em Lisboa, longe da praia de Palma e de volta à confusão da grande cidade.
Levantei o carro no parque do Aeroporto e voltámos para o Barreiro.
Deixei primeiro o Gonçalo em casa e depois a Cátia. A Elsa não tinha os pais em casa, estavam de visita aos Alpes suíços, e aproveitei para passar lá a noite. Finalmente chegava a casa na companhia da minha doçura. Aconchegámos os nossos corpos no sofá da sala e adormecemos, nos braços um do outro.

Segunda-feira, Agosto 02, 2004

A casa em Lagos

Senti alguns raios de Sol no rosto, começava a despertar.
Foi um acordar diferente, os meus primeiros suspiros foram acompanhados por uma sensação de vivacidade na gaita. Talvez estivesse ainda a despertar de um sonho e o meu corpo e mente estivessem a deixar o mundo da fantasia e a reentrar no mundo real. Não foi o caso, sentia uma sensação de poder no tolinhas e era bem real. Carolina dava-me os bons dias da melhor maneira possível, chupando com vivacidade o caralho. Este bicho há muito que tinha despertado, desde o momento que ela o colocou na sua calorosa boca.
Carolina sorriu assim que me viu acordar, trepou pelo meu peito e ajeitou-se de modo a ser penetrada. Beijava-me o pescoço e colocava os seus mamilos a jeito de eu os chupar.
Foi uma foda potente e pouco demorada, estávamos os dois cheios de energia após uma boa noite de sono. Tomámos um duche e iríamos retomar as nossas vidas separadas e que em comum tinham somente algumas fodas partilhadas.
Fiquei para almoço, ela insistia em tratar-me bem e não coloquei objecções.
A preparação do almoço foi um pouco mais demorado que o previsto. Carolina, quando saiu do banho, vestiu apenas uma camisa branca desabotoada e ao ver aquele rabinho destapado foi demasiado penoso para lhe ficar impune.
Fizemos amor na bancada da cozinha, ela sentada sobre a pedra de granito escuro da bancada, gemia que nem uma louca. Acabámos por almoçar perto das horas do lanche, era tempo de me ir embora e ficámos de repetir a aventura numa futura noite.
Despedi-me dela, e voltei para casa, feliz dos momentos que passei na sua companhia, mas também com uma grande preocupação em mente, não saberia como contar ao meu amigo Zé Luís aquilo que tinha feito com a Mónica, nos chuveiros da Residência do ISEL.

Passaram uns dias desde o meu último encontro com a Carolina, tinha chegado a quarta-feira seguinte, uma vez mais a semana continuava sem emoção e pouco havia a fazer que não fosse beber uns copos e dar umas fodas. O meu amigo Gonçalo tinha acabado com a namorada na noite anterior e pediu-me para ir beber uma imperial com ele. O coitado necessitava de desabafar, possivelmente contar-me algumas das suas aventuras extra conjugais e as razões porque acabou com a miúda, vindo de quem era, sabia que iria passar a tarde inteira no café a emborcar imperiais.
Fomos a uma esplanada no centro do Barreiro, reconheci o carro do Zé Luís estacionado ali perto e senti aquela sensação de desconforto no estômago, teria de o encarar mais tarde ou mais cedo, depois de lhe ter comido a gaja que ele anda.
Ele estava mesmo na esplanada, na companhia da Mónica e de outro casal.
Fui ter com eles, preferia ficar numa mesa à parte e falar calmamente com o meu amigo Gonçalo mas convidaram-nos para nos sentarmos naquela mesa. Cumprimentei a Mónica e o Zé Luís e conheci o outro casal, que afinal era somente de amigos.
Estava um pouco nervoso, não sabia como encarar o Zé de frente. Para desanuviar um pouco a tensão, brinquei com a Marina, amiga da Mónica, e com o Gonçalo, visto os dois agora não terem qualquer relacionamento e formariam um casal engraçado.
Eles riram-se e acho que queriam aprofundar a brincadeira, quem não ficou muito contente foi o outro rapaz amigo dela, talvez por ele também estar interessado em saltar-lhe para a espinha. Bem que o compreendia, Marina não era uma mulher vulgar, os seus vinte anos tinham-lhe sido muito generosos, aliando uma carinha bonita a um corpo bem feitinho e umas pernas espectaculares.
Não me iria envolver com esta rapariga, apesar de a achar bastante atraente. O Gonçalo tinha engraçado com ela primeiro e pareceu-me que o sentimento foi recíproco.
Então, vocês já namoram? – perguntei eu ao Zé.
Continuava nervoso, a Mónica seria a única naquela mesa que saberia o que se estava a passar, mas apercebi-me da cumplicidade do olhar da Marina, na sua direcção, quando perguntei aquilo ao Zé.
Estamos a caminhar a bom ritmo para isso. – respondeu o Zé, todo entusiasmado.
Sim... – acrescentou a Mónica, soltando um sorriso cínico.
Ainda bem, fico feliz por vocês.
Avistei a minha amiga Xana a chegar à esplanada, tinha que aproveitar ali a oportunidade para me alhear dali. Não seria por mal, mas começava a ficar enjoado destas histórias cor-de-rosa por fora e verdadeiras tormentas por dentro.
A Xana veio na minha direcção, acompanhada de uma amiga. O Gonçalo também a conhecia e pediu às meninas que se sentassem connosco na mesa. Este gajo estava a estragar o meu plano de fuga daquela mesa, mas teve desculpa, foi um gesto simpático e a beleza destas lindas iria certamente colorir o ambiente.
Estavam agora oito pessoas naquela mesa, ninguém falava de outra coisa a não ser férias. O outro rapaz, que já me recordava do nome, falou na hipótese de irmos ainda naquele dia para o Algarve, ficaríamos alojados numa casa sua em Lagos.
Era um convite tardio, um pouco em cima da ocasião, mas a ideia agradou-me. Ele disse que iria naquela mesma tarde, com a Mónica e a Marina. O Zé Luís trabalhava no dia seguinte até às quatro, mas comprometeu-se a ir assim que saísse do emprego. Eu e o Gonçalo também aceitámos o gentil convite e ficámos de ir buscar o Zé ao trabalho, partindo depois para Lagos, no meu carro.
Vocês também podem vir! Aliás, gostaria imenso que viessem. – disse o dono da casa, para a Xana e a sua amiga.
Parvo não era ele, se iam gajos para lá, também teriam de ir meninas suficientes que compensassem. A Xana disse que iria comigo e a Marta, a sua bonita amiga, começou por hesitar mas acabou por aceitar juntar-se ao grupo depois da Xana insistir com ela.
Bebemos mais uma bebida e fomos embora, o dono da casa precisava de se despachar e organizar o resto para a partida. Acabámos todos por levantar o cú da mesa e deixar para trás uma promissora e possivelmente bem passada tarde a emborcar imperiais.
O Gonçalo acabou por não me contar nada daquilo que queria. Infelizmente, a tarde não seria passada à volta duma mesa de café e bem regada com imperiais. A presença da Mónica e das outras meninas, foi o travão perfeito para a bebedeira que se adivinhava e eu tanto ansiava.
Levei o Gonçalo a casa, agora mais relaxado, mas ainda sóbrio, ao contrário das suas pretensões.
Eram quase cinco da tarde, não me apetecia ir para casa mas também não estava com mais disposição para conversas em cafés nem encontros atribulados na presença de amigos encornados.
Telefonei para a Cátia, só a minha amiguinha não me chateava a cabeça neste momento e apenas ela me compreenderia com aquela sua doce inocência tão particular na sua idade.
Olá linda, apetece-te aturar um jovem desnaturado? – perguntava eu.
Doidinho! Vem-me buscar e vamos ao café.
Não... café não! Tudo menos isso.
Está bem, onde me levas então?!
– perguntou ela.
Olha, precisas de alguma coisa no Fórum Montijo? – acrescentei eu.
Precisar, até preciso, de um biquini novo.
Óptimo, vamos lá então. Estou na tua casa daqui a cinco minutos.
Até já, doçura.
– despedi-me dela, soltando depois um beijo.
Desliguei a chamada e fui buscar a menina.
Ela desceu as escadas do seu prédio e aproximou-se do carro, desde logo reparei na sua camisola elegante que escondia os seus belos seios juvenis. Cátia vinha bonita e radiante como sempre, entrou no carro e fomos logo para o Fórum Montijo.
No caminho, acabei por lhe contar o porquê de não querer ir a um café novamente naquela tarde e tudo aquilo que os seus lindos olhos castanhos não tinham presenciado na festa feita na Residência do ISEL.
Ela não ficou muito contente com o que eu tinha feito, mas os seus quase 18 anos davam-lhe a maturidade necessária para entender estas coisas.
Cátia é uma rapariga do tipo romântica, talvez se chegue mesmo a escandalizar com o meu constante comportamento boémio mas não podia fazer para remediar isso, simplesmente tenho o tolinhas maior que o coração e não era tão dado àquelas mariquices de sentimentos como ela.
Fizemos as nossas compras no Fórum e acabámos por beber lá um cafezinho, mas não num café. Tinha ajudado a Cátia a escolher o seu novo biquini, aquele corpinho de princesa tinha agora tomado conta da minha imaginação e alimentava-a constantemente, por fora, fazia transparecer um sorriso malandro cada vez que olhava aquela carinha e começava a notar-se nas minhas calças, um notável alto de pau feito.
Entrámos no carro já um pouco excitados, a Cátia ficou com as hormonas aos saltos assim que começou a gastar dinheiro em compras e estava agora nitidamente mais excitada, a minha alegria corporal surgiu naturalmente assim que a vi somente com o biquini vestido, através da cortina da cabine de provas.
Trocámos uns suspiros e suaves toques pelas pernas, ela reparou no tolinhas inchado debaixo das calças e eu nos seus mamilos, espetados e rijinhos, sobressaindo em relevo na sua camisola.
Não dava mais para aguentar o bicho dentro das calças, ela sorriu e fez um olhar inocente de menina bem comportada, passou a língua pelos lábios, humedecendo-os carinhosamente e chamando pelo calor dos meus.
Encostei o carro na primeira oportunidade que tive, numa urbanização ainda em construção, a poucos quilómetros do Fórum Montijo.
Queria comê-la e sem pudor, numa brutal cena de sexo que lhe ficasse na memória, mas a Cátia era diferente de todas as outras raparigas que conhecia, talvez o seu ar inocente de menina não fosse somente de fachada e sim realmente algo profundo no seu íntimo, tive receio de lhe magoar os sentimentos.
Desapertei o cinto de segurança, chegámos os bancos para trás e encostei os meus lábios no seu pescoço. A minha excitação exigia-me que lhe rasgasse as cuequinhas e a possuísse de forma selvagem mas retraí-me, por respeito à sua inocência.
Percorri lentamente com os lábios e a língua, tocava-lhe nas pernas e ia subindo a mão pela sua barriguinha lisa. Os seus lábios vieram ao encontro dos meus, beijámo-nos calorosamente e os nossos corpos aqueceram ainda mais quando despi a sua camisola, dando-lhe beijinhos nos ombros e massajando um dos seus seios.
O calor que saía dos nossos lábios era cada vez mais intenso, a Cátia agarrou-me na mão que massajava o seu seio redondinho e arrastou-a para o meio das suas pernas. Senti a sua fervorosa excitação, ela fez mais pressão e empurrou a minha mão mais para junto de si, aconchegando-a no calor do seu sexo.
Ela suspirava, mordia-me a orelha e apertava a fazia cada vez mais pressão sobre a minha mão, agora com a ajuda das suas pernas que se contorciam. Recebia doces beijos dela, abri o fecho das suas calças de ganga e deixei escorregar a minha mão por dentro das suas cuequinhas. Senti de imediato a sua crescente humidade e a alegria do seu sorriso, deixou-me com um brilho nos olhos.
Ela levou as mãos às suas calças e despiu-as, pedindo que fizesse o mesmo. Estávamos na rua, metidos numa urbanização deserta e sem ninguém a ver o que fazíamos mas não queria que a nossa primeira foda fosse ali no meio do mato e muito menos dentro do carro.
Coloquei novamente a mão nos seus lábios vaginais, a bela Cátia agarrou-me no pepino e fazia dele o que queria. Não estávamos para grandes pormenores, queríamos algo rápido e que nos satisfizesse. Massajei o seu sensível clítoris até à exaustão e a menina acabou por se vir, contraindo-se poderosamente e soltando ruidosos gemidos.
Os seus gritos de prazer e a sua mão delicada, desencadearam em mim sensações espectaculares e libertei toda a excitação acumulada desde o momento que a tinha visto naquela dia.
Tinha a casa vazia naquele dia e convidei a Cátia para ir lá jantar, ela aceitou e fomos de imediato para casa.
Não queria perder esta doçura de vista, pelo menos por enquanto e nada mais me passava pela mente que não fosse estar com ela e fazê-la sentir feliz. Queria dar-lhe um pouco mais que uma simples massagem, tínhamos a noite toda para pôr isso em prática.
Tinha alguma comida no frigorifico mas a nossa prioridade passava muito além de simplesmente jantar, decidi preparar-me uma coisa especial e que se lembraria mais tarde.
Tomámos um duche rápido, os dois na banheira mas sem contacto sexual, parecíamos duas crianças a brincar inocentemente com a água e estávamos felizes. Quisemos uma vez mais guardar o melhor para o fim, os nossos corpos entravam num desejo carnal enorme e toda aquela espera fazia parte do nosso pequeno jogo sexual.
Secámo-nos no meu quarto, Cátia tirou uma camisa do meu armário e colocou-a sobre o corpo, aguardando-me na cama. Vesti uns calções curtinhos e fui buscar a comida.
Não queríamos nada de muito pesado para a noite, peguei no tabuleiro e meti lá toda a fruta que tinha em casa e umas fatias de pão integral.
Nada que mais tarde pudesse provocar uma paragem de digestão em plena foda, fruta neste caso era o ideal para a ocasião, leve no estômago e afrodisíaca nas nossas mentes.
Anda cá, João! – expressava-se a Cátia, deitada na minha cama.
Aproximei-me da cabeceira da cama, sentei-me e coloquei o tabuleiro entre nós.
Relaxa... Deixa-me tratar de ti. – disse eu, vendo a sua crescente excitação.
Cheguei o pequeno tabuleiro mais para junto dela e agarrei num cacho de uvas, levei-o à sua boca, deixei que mordesse numa uva e em seguida arranquei eu outra. Percorri com o mesmo cacho pela covinha que os seus seios formavam e subi aqueles montes redondinhos até ao seu pico e deixei que as uvas escorressem ainda a água que tinham sobre aqueles mamilos rijinhos. Fui ao encontro daqueles cumes com a boca, aqueci-os até começar a ouvir os gemidos da bela Cátia. Tinha colocado umas pedras de gelo nos copos de água que vinham no tabuleiro, meti a mão num desses copos e retirei um cubinho de gelo. Percorri-o pelo seu pescoço, sentia a Cátia mais excitada que nunca e a sua respiração era cada vez mais ofegante.
Beijava cada pedaço do seu corpo após passar anteriormente com o cubinho de gelo, que agora desaparecia no intenso calor do seu corpo. Meti novamente a mão no copo e retirei outro cubo de gelo, começando exactamente do sítio onde o outro efémero cubo tinha terminado a sua calorosa expedição.
Cátia fervia por todos os poros, nem as pedras de gelo conseguiam arrefecer a sua excitação que tinha a chama bem acesa e aguardava impacientemente por mais contacto físico. Ela agarrou-me nos cabelos e acompanhava agora com as mãos, o percurso que a minha boca fazia seguindo o cubo de gelo, na sua curta etapa pelo corpo da minha bela princesa.
Tinha pegado no quarto cubo de gelo, após gastar inteiramente o terceiro sobre o seu mamilo direito e saboreando as amplitudes térmicas magnificas que se verificavam naquele pedacinho do seu corpo. Passei de imediato para as suas coxas, bem firmes e trabalhadas, a pedrinha de gelo foi descendo mais para baixo enquanto a minha boca fez uma breve paragem pelos seus lábios vaginais, sentindo a sua humidade e saboreando uma vez mais o calor do seu corpo. Não me demorei muito tempo de volta do seu clítoris, ainda bastante sensível, não queria que a menina se viesse já e a minha língua retomou o trilho deixado segundos antes pelo cada vez menor cubo de gelo.
Outra pedrinha que deu a sua essência para delícia da minha amiga, peguei noutro cubo de gelo, era o último e teria de ser bem aproveitado. A Cátia queria-se tocar no clítoris, não deixei que o fizesse e que deixasse o seu corpo comigo, ela sorriu e recostou a cabeça na almofada, suspirando de prazer.
Peguei no seu pé e passei o gelo pela parte debaixo do mesmo, numa zona super erógena e um dos pontos mais quentes de todo o corpo humano. Cátia quase se veio quando juntei o calor dos meus lábios ao fresquinho agradável deixado pela pedrinha de gelo. Deixei-a recompor-se durante uns segundos antes de passar para o outro pé, fiz o mesmo procedimento e desta vez foi-lhe inevitável de soltar toda a sua excitação num longo e ruidoso grito de prazer. A minha linda tinha-se vindo, suspirava e arfava como se tivesse sido penetrada durante horas.
Abracei-a e dei-lhe morangos à boca, passava-os pelo meu corpo antes de os colocar na sua boca e no seu suado corpo antes de os colocar na minha. Saboreávamos mais um pouco um do outro, e quando a Cátia se recompôs para mais uma jornada de prazer, afastei o tabuleiro para o chão e coloquei-me sobre ela, puxando-lhe as pernas para cima e penetrando-a devagar, como se algo de muito delicado fosse, o seu corpinho deitado sob o meu.
Estávamos demasiado excitados, o ambiente, a comida e o próprio calor do tempo que se fazia sentir lá fora, tinham tomado conta dos nossos corpos e fazíamos amor a um ritmo lento mas delicioso, trocando beijos e carícias.
A menina estava farta de estar submissa aos meus comandos e decidiu ela tomar o controlo, deitou-me de costas na cama e posicionou-se sobre mim, sentando o seu firme rabinho nas minhas coxas e massajava-me o tolinhas para este não perder qualquer ponta de todo o seu vigor.
Espera, também tenho uma surpresa para ti... – dizia ela, numa voz doce.
Ainda sentada sobre o meu colo, largou-me a gaita para dar um novo uso às suas mãos, puxou violentamente o lençol que tínhamos afastado por causa do calor e atou-me uma das pontas à minha mão esquerda, fazendo passar o lençol pela cabeceira da minha cama e de encontro à outra mão que já sabia o que lhe esperava. Tinha agora as duas mais atadas e estava completamente à mercê desta doçura que tinha em cima de mim.
Fiquei louco de excitação à medida que a sua língua explorava cada pedaço do meu corpo, foi descendo até ao caralho, onde o chupou e devolveu-lhe o papel preponderante de toda a acção.
Aconchegou-se no meu colo e com a ajuda das suas mãos, colocou a gaita dentro do seu corpo. Ela tinha ganho alma própria e deixará à muito de estar submissa a mim, Cátia mexia-se agora que nem uma maluca e as suas mãos pequeninas apertavam-me o pescoço, excitando-me cada vez mais e fazendo com que o meu tolinhas se mexesse incontrolavelmente dentro dela, dando-lhe mais prazer a ela e levando-me a lugares onde nunca antes tinha chegado.
Ambos gemíamos imenso, estava a sentir algum cansaço, esta juventude de hoje começava a acabar comigo. Cátia contraía-se cada vez mais e as suas mãos beliscavam-me os mamilos, fazia cada vez mais força com o seu corpo e viemo-nos intensamente, possivelmente acordando os vizinhos mas nenhuma dessas preocupações teria lugar naquela noite.
Abraçámo-nos e deixámos que o cansaço e o sono tomassem conta de nós, estando os nossos corpos já adormecidos à muito, depois de tanto desgaste físico e emocional.
Beijámo-nos uma vez mais, abraçados, fechámos os olhos e caímos no sono.
Conseguia escutar um telefone a tocar, de inicio pensava que fizesse parte do meu corrente sonho molhado, mas o barulho tornou-se demasiado incomodativo e acordei. Tinha em volta dos meus braços uma ternura de rapariga, parecia um anjinho a dormir e nem pestanejava com o toque bem audível do telemóvel.
Era a Xana, só esta miúda para me telefonar às duas da manhã.
Queres vir agora a minha casa? – dizia ela, num tom sensual.
Não posso, Xana. Estava já metido na cama e a dormir.
Eu posso aparecer por aí, ainda sei o caminho para tua casa.
– acrescentou ela.
Não vai dar, desculpa. Estou completamente exausto.
Está bem, João. Por hoje fica assim, mas de amanhã não escapas!
Sim, amanhã fazes o que quiseres de mim, hoje vou dormir.
– finalizei eu.
Esperava que a bela adormecida, que tinha nos braços, não acordasse entretanto.
No outro dia de manhã, o despertador tocou, sem que eu tivesse programado aquela merda para fazer barulho e muito menos para aquela hora da madrugada. Deve ter sido lá colocado propositadamente pela minha mãe, para que acordássemos antes de ela ir para o emprego. Tínhamos uma espécie de acordo entre nós dois, ela não se opunha a que raparigas dormissem na minha cama desde que eu as apresentasse depois. Deveria ser uma maneira de ela se afirmar como fêmea dominante ali em casa e ficaria igualmente a saber com quem eu me relacionava. Por mim não haveria qualquer problema, tinha uma casa para foder com quem quisesse e só teria de as apresentar à minha mãe. Com o meu pai era diferente, não as queria conhecer porque já passou o tempo que ele lhes perdeu a conta e para não confundir nenhuma, preferia nem se meter nisso, deixando a minha vida sexual entregue à minha consciência.
A doce Cátia despertou com o barulho e espreguiçou, esticou aqueles braços que tinham passado a noite repousando no meu peito e abriu os olhinhos, dando-me depois um beijo de bom dia.
Hoje era o dia da partida para o Algarve, ela infelizmente não iria comigo e começava já a sentir saudades do seu calor tão característico, não muitas, mas já uma dose considerável.
Levei a menina a casa e tratei de me preparar convenientemente para três dias de folia em Lagos.
Já sabia qual o procedimento habitual nestas ocasiões, atestar o depósito do Astra, duas garrafas de água para a viagem e cinco caixas de preservativos para a malta brincar com balões de água.
Organizei essa merda toda durante a manhã e, depois de almoço, estava já pronto para partir. Tínhamos todos de esperar pelo Zé que saía do trabalho às quatro. A Mónica e a Marina tinham ido com o dono da casa, na tarde anterior para lá e aguardavam-nos ainda nesta tarde, antes da hora de jantar.
Passei a tarde em casa da Xana, a sua amiga Marta foi lá ter depois da foda e comecei a conhecê-la melhor, esta bela morena afinal sempre tinha mais que um belo palminho de cara, era divertida e passámos uns bons momentos na brincadeira.
Eram quatro da tarde, finalmente o Zé me telefonava para que o fosse buscar ao emprego. Passei primeiro na casa do Gonçalo e por fim entrou o Zé no carro. Estávamos agora a caminho de Lagos.
Tinha algo de muito importante para contar ao meu amigo Zé, desde a festa na Residência que fiquei de consciência pesada, não sabia por onde começar a falar, mais baixei o volume do rádio e reflecti um pouco nas palavras que deveria usar para lhe contar que tinha dado uma valente foda com a miúda que ele também andava a comer.
Não foi fácil e como era de esperar, ele não reagiu nada bem. Não haviam momentos certos para se contarem estas coisas mas esperei até estacionar o carro numa estação de serviço, perto de Setúbal.
O Gonçalo e as meninas tinham ido fazer um xixi e comer alguma coisa ao bar, chamei o Zé e comecei a contar-lhe os pormenores.
Que é que tu foste fazer, caralho?! – gritava ele, no parque de estacionamento.
Desculpa, foi um acto irreflectido.
Ela é gira, à partida neguei isso a mim mesmo mas depois fiquei seduzido pelo ser ar matreiro...
Cala-te, foda-se! Não me digas mais nada.
– interrompia ele.
Não foi por mal, ela não teve culpa do que se passou. – acrescentei eu.
Que estúpido, João. Custava muito teres pedido?
Pedido?! Como assim?
– ficava eu sem perceber.
Queres na cara ou no estômago? – continuava ele com as perguntas parvas.
O quê? Mas que merda estás tu a dizer agora...
Ai! Foda-se, essa merda doeu!
– exclamei eu.
O cabrão deu-me um murro na barriga, tinha uma certa razão e por isso não ripostei.
Ficamos por aqui, ouviste?
Espero que mudes essa tua atitude em relação à Mónica.
– finalizou ele.
O gajo virou as costas e foi mijar, deixei de o ver.
Fiquei junto ao carro, minutos depois voltaram todos juntos e prontos para prosseguir viagem.
Chegámos ao final da tarde a Lagos, o carro vinha cheio e não quis vir depressa para poupar gasolina. O Zé continuava de trombas mas agora ele que se entendesse com ela, eu já tinha feito a minha parte.
Foi fácil dar com a casa de férias, está situada num local que me é bastante familiar, já desde os meus tempos de puto e jovem aprendiz das artes pitorescas, tirando alguns Verões depois, o mestrado em pito estrangeiro do Norte e Centro da Europa.
Estacionei o carro na espaçosa garagem da vivenda, as meninas assavam sardinhas enquanto o dono da casa tratava de nos acomodar confortavelmente em sua casa. Foi um gajo porreiro em deixar-nos vir todos, tinha de lhe arranjar uns engates de primeira qualidade se ele quisesse.
Havia quartos individuais que chegassem para todos, mas cedo se percebeu que ninguém iria dormir sozinho naquela noite.
Partilhei o quarto com o Gonçalo, a Xana e a Marta acomodaram-se no quarto ao lado e o Zé esquivou-se para o quarto da Mónica. As coisas pareciam organizadas mas algo me dizia que esta provisória distribuição de camas iria ser alterada ainda antes de alguém adormecer.
Jantámos numa mesinha em cima da relva, no jardim das traseiras, junto à piscina. Não via a hora de me lançar lá para dentro e de preferência na companhia de alguma das meninas, mas naquela noite preferia encharcar-me em álcool e rir que nem um parvo durante a noite toda.
Não ficou muito longe do que se passou, excepto rir durante toda a noite.
Acabámos o jantar e fomos jogar Pictionary para a sala, cerveja e três garrafas de vodka acompanhavam as nossas jogadas, foi macacada total durante umas horas e simplesmente me lembro de acordar na manhã seguinte, num dos sofás da vasta sala, todo suado e com a Xana a dormindo a meu lado. Uma garrafa de vodka vazia jazia entre nós. Tinha apenas uma última recordação da noite anterior, eu sentado naquele mesmo sofá e de garrafa na mão, dividindo goles do sagrado liquido destilado com saborosos, mas também alcoolizados, beijos da Xana.
Estava um calor infernal, os nossos corpos pingavam suor por todos os poros, tínhamos dormido vestidos e abraçados um ao outro sobre aquelas temperaturas altíssimas. Despi as roupas suadas e mandei-me de cabeça para a piscina, a Xana não demorou muito a seguir-me e ficámos lá de molho até que os outros viessem ter connosco.
Estávamos quase todos de ressaca, mais notada nos rapazes que realmente abusaram da garrafeira, que apesar de estar bem composta, ficou reduzida a metade após uma noite de folia.
Nada que um banho de piscina e duas aspirinas não ajudassem a resolver.
Almoçámos tardiamente nessa tarde e quisemos permanecer dentro de casa, sem nos misturarmos com o mundo lá fora.
Fui ao quarto buscar algumas caixas de preservativos, quando regressei ao jardim, olharam para mim e começaram a rir. Deveriam pensar que tinha ido buscar aquilo para enrabar as meninas ali no quintal, mas logo que enchi a primeira borrachinha com água da torneira e a lancei para o meio do jardim, deu-se início a uma nova festa.
Alguns preservativos pareciam salames cheios de água e uns poucos acabaram por rebentar na cabeça e nas mãos de algumas pessoas. O dono da casa estava a gostar e foi buscar mais umas garrafinhas de vodka à garrafeira, meteu música alta e estava agora a decorrer uma verdadeira festa com todos os ingredientes necessários, álcool e gajas para toda a gente.
Não haviam vizinhos que nos chateassem a cabeça e a festa prolongou-se pela noite dentro, até começar a arrefecer na rua, era agora de madrugada. Tínhamos todos recolhido ao conforto do interior da sala de estar mas a noite ainda aclamava pela nossa presença e continuámos em pleno convívio.
Começámos a jogar ao Verdade ou Consequência, algo me dizia que aquilo poderia descambar numa situação merdosa, mas com o carregamento alcoólico que transportava no corpo, quis jogar e ria comigo próprio das respostas que haveria de dar caso me fossem perguntadas certas questões. Nada me afectaria naquela noite, estava imune a tudo e protegido pelo Santo Vodka.
O jogo tinha começado há menos de meia hora, o Zé preparava-se para colocar uma questão à Mónica e esta respondeu imediatamente consequência, que seria irem os dois para um quarto lá de cima e mais qualquer coisa que ele disse e eu não cheguei a perceber. Estava demasiado tocado pelo álcool para perceber tudo o que ele estava a dizer e nem percebi o que é que eles tinham ido fazer lá para cima. Também o Zé visivelmente embriagado, cambaleava subindo as escadas, sendo ajudado pelo Mónica.
Devem ter ido dar uma foda e usaram uma estúpida consequência do jogo para se despedirem mais cedo de nós, naquela noite. O jogo prosseguiu sem eles, pelo menos durante mais uns minutos.
Começava igualmente a fazer-se tarde, verdadeiramente tarde para nos nossos cérebros queimados e completamente embriagados. As meninas deram os primeiros sinais de cansaço e somente a Marina ficou na sala comigo e com o Gonçalo, tendo a Xana e a Marta subido para o quarto delas. O dono da casa continuava trancado numa das casas de banho do piso inferior, desde que o Zé e a Mónica subiram para dar a queca. Deve ter ido vomitar ou esgalhar o pessegueiro, mas pelo tempo que demorava lá dentro, desconfio que tenha ido mesmo bater uma punheta de vaza colhão.
O Gonçalo continuava a jogar com a Marina. Eles estavam a conhecer-se melhor e eu retirei-me para um dos sofás ao lado.
Depois de me espreguiçar e arrotar, levantei-me do sofá e despedi-me daqueles dois.
Pairavam ali duas pessoas que mais cedo ou mais tarde iriam dar uma valente foda, foi notório assim que senti o cheiro a pito molhado que rodeava a Marina.
Antes de subir ao primeiro andar, passei pela casa de banho onde o rapaz se tinha trancado.
Está tudo bem contigo? – perguntei eu, através da porta.
Sim...
Podes ir embora.
– respondeu ele.
Ele proferiu aquelas palavras num tom de voz ofegante, o gajo estaria certamente a esgalhar o pessegueiro. Talvez o cheiro a pito molhado da Marina e a escapadela da Mónica o tivessem contagiado.
Deixei o rapaz prosseguir com o que estava a fazer e subi as escadas para o andar de cima.
Escutei uns barulhos de foda e, levado pelo álcool, decidi que iria fazer merda.
Queria armar-me em empata-fodas, arte que tinha aprendido com o meu amigo Alexandre, que infelizmente não pode vir connosco nesta viagem ao Algarve por ainda se encontrar a recuperar de um ferimento de bala na nalga esquerda.
Abri sorrateiramente a porta do quarto, na cama estava o Zé montado na Mónica, até ali nenhuma novidade.
Fiz demasiado baralho com a porta e não consegui evitar de rir.
Que é que queres agora, foda-se? – perguntou o Zé.
Eu? Pode ser o mesmo que tu, uma foda.
Está bem, és a seguir dela! É pena teres tanto pêlo no cú, senão eras já agora!
– estava agora o cabrão a mandar piadas parvas, deve ter engolido um palhacinho.
Estás parvo ou quê?! – interrompi o gajo, antes que ele dissesse mais merda.
Sai lá daí de cima que eu já não fodo há mais de um dia. – acrescentei.
Põe-te a andar daqui para fora, vai bater à punheta. – disse o Zé, que continuava montado nela.
Fez-se algum silêncio, fiquei a olhar com cara de parvo para eles e eles para mim.
Calma, porque não nos divertimos os três? – meteu-se a Mónica na conversa.
O ambiente azedou, o Zé já tinha parado de a fornicar e agora levantou-se da cama.
Então aquilo confirma-se...
Vou dormir para o sofá, caguei para vocês.

Ele agarrou num lençol e foi para a sala, continuando a resmungar pelas escadas abaixo.
Então, e agora nós? – perguntou a Mónica.
Nós? Eu vou dormir, tu podes continuar aí deitada que também ficas bem.
Fui um pouco bruto nas palavras que lhe dirigi, mas tinha tido demasiadas preocupações devido à entrada dela na minha vida e adicionando o mortífero efeito do álcool, não me restava outra alternativa que não fosse aquela.
Saí do quarto e encostei a porta, Mónica permaneceu nua sobre a cama, agora de pernas fechadas.
Andei uns passos pelo corredor e ouvi novamente a voz do Zé Luís, vinha lá debaixo e deveria estar a gritar para o Gonçalo e Marina.
Foda-se, arranjem um quarto!
Deixem-me dormir, caralho.
– gritava ele.
Logo de seguida, ouvi passos subindo as escadas, era o Gonçalo e a Marina correndo praticamente despidos, com algumas roupas na mão, e pediram-me para usarem o quarto onde eu também estava acomodado, para além do Gonçalo que o partilhava comigo.
João, espera...
Deixa-nos ir para esse quarto, se faz favor.
– abordou-me o Gonçalo.
E eu vou dormir para onde? Com o Zé na sala? Não me parece. – disse eu.
Não, pede à Xana que te deixe entrar.
Deixa lá, depois pago-te uma imperial!
– insistiu ele.
Já me bastava ter empatado uma foda naquela noite, deixei os dois pombinhos irem foder em paz e fui bater na porta do quarto ao lado, onde estavam a Xana e a Marta. A Xana veio à porta, apenas usando uma camisa de dormir.
Linda, deixa-me entrar. – pedi-lhe eu, fazendo beicinho e carinha de cachorro abandonado.
Ela agarrou-me no colarinho da camisa e puxou-me para dentro do quarto.
Na cama de casal, estava a Marta a dormir, parecia um anjinho.
Deitei-me no meio das meninas e apesar do intenso calor, ficámos abraçados durante horas, na conversa e trocando beijos molhados. No quarto ao lado estava o único par feliz daquela noite, dormiam agora, após alguns minutos de foda selvagem, escutada no quarto onde estava. Devem ter partido alguma coisa ali dentro do quarto, pelo menos o candeeiro da mesa-de-cabeceira devem ter ido ao chão e aqueles dois devem ter feito um buraco na cama, tal era a fome de foda deles.
Os gemidos da Marina excitaram-me e despertaram na Xana e na Marta uma predisposição para fazerem amor, mas não nós comemos naquela noite, trocámos apenas uns beijos mais quentes e umas carícias mais atrevidas, nos nossos corpos suados e bem aconchegados.
O álcool que todos tínhamos no organismo ainda continuava a fazer das suas e deixou-nos bastante sonolentos, elas encostaram a cabeça nos meus ombros e eu as mãos pelas suas costas, felizes e cansados, deixámo-nos adormecer.
No dia seguinte, acordámos todos antes do meio-dia.
Depois do que tinha acontecido na noite anterior e visto não haver mais álcool na garrafeira, nem condições psicológicas de certas pessoas, decidimos todos juntos por antecipar um dia a data de regresso ao Barreiro.
O intenso calor que se fazia sentir neste Sábado solarengo não nos permitia que passássemos mais tempo deitados na cama.
Almoçámos cedo, novamente no jardim, e estava na hora de voltarmos para casa.
Era melhor sair do Algarve logo depois do almoço que depois apanhar o cansativo trânsito que se acumulará ao final da tarde, também para muitos, fazendo a sua viagem de regresso a casa.
Assim fizemos a nossa viagem de regresso, longa, demorada e cansativa. Nem acreditava que tinha passado os últimos dois dias no Algarve e nem uma foda tinha dado.Deixei os rapazes entregues e levei as meninas a casa por último, voltei depois para a minha casa. Cheguei estafado e completamente exausto da viagem e do calor, sentei-me no sofá, liguei a televisão e deixei-me adormecer.

Sábado, Julho 17, 2004

Festa da foda na faculdade
 
Sou bruscamente acordado pela minha mãe, esta merda começava mal.
Que queres, mãe?
Acorda, telefonema para ti...
E da próxima vez diz aos teus amigos que eu não tenho cara de ser tua secretária.
– refilava ela.
Peguei no telefone, ainda ensonado, e mandei-a sair do quarto.
Quem fala? – perguntei eu.
Sou eu, o Zé!
Ah sim, tu. Que queres a estas horas, caralho?
Estas horas?! São quase cinco da tarde.
– respondia ele.
Então não é de manhã? Foda-se, mas que dia é hoje?
Sinceramente não sabia às quantas andava, apenas me recordei do que tinha feito anteriormente quando olhei para o chão do quarto e vi e a roupa espalhada. Era a mesma que trazia vestida naquela manhã, quando voltei da Serra da Arrábida.
Um gajo deitar-se às horas de almoço e acordar a meio da tarde, origina esta sensação de desnorteado. Nem seis horas tinha dormido, mantinha os neurónios ainda a ressonarem.
João, deixa de ser parvo. Tenho uma novidade para te contar. – disse o Zé, todo contente.
Imagino... Ganhaste a lotaria e queres dividir isso comigo.
Não, bem melhor. Conheci a mulher da minha vida...
Passámos esta noite na praia dos Coelhos, foi espectacular.
Engraçado, estive na praia ao lado, na Figueirinha...
Então?
– perguntou o Zé.
É uma longa história, depois conto-te. – finalizei eu.
Desligámos a chamada mas antes combinámos um cafezinho para aquela tarde, numa esplanada do Barreiro.
Levantei o cú da cama e tratei de vestir qualquer merda para ir ter com o Zé.
Saí de casa sem tomar banho nem me pentear, simplesmente não estava com paciência para essas mariquices.
Tinha uma nova mensagem no telemóvel, era da Elsa.
Mais uma vez me alertava que o Alexandre tinha fugido do Hospital e que ainda ninguém sabia nada dele. Foi então que me lembrei desse gajo, talvez ele tivesse ido para casa mas com a pedrada que estava naqueles cornos, devido aos analgésicos que lhe deram para as dores no cú, o mais certo seria ter ficado a dormir nalguma esquina perto do Hospital.
Cheguei ao Clube Naval, uma esplanada no Barreiro, bem frequentada e com vista para o Tejo.
O Zé já lá estava, todo sorridente.
Estou a ver que deste uma foda ontem à noite. – comentei eu, na brincadeira.
Não... Fiz amor com uma menina linda!
Aquilo prometia, ele não só estava contente como também falava bem dela.
O Zé estava impaciente para me contar a sua aventura, se fosse gaja, ele estaria certamente com o pito aos saltos. Bebemos duas imperiais cada um e no início da terceira, o Zé acabava de me contar a sua noite inesquecível, com todos os detalhes.
Agora que ele estava sem namorada, tinha sido promovido a companheiro putanheiro de engates, mas o cabrão dizia que estava apaixonado por outra menina, a Mónica.
Desde que a Paula e eu acabámos, passei uns tempos na merda e reduzido às punhetas.
Não conseguia gostar de outra rapariga, agora com a Mónica, tudo mudou e sinto-me realmente feliz.
– acrescentou ele.
Pensei que aquilo tivesse sido somente uma foda de vaza colhão, por ele andar esfomeado, mas na verdade até parece que foi dada com sentimento e o Zé ficou completamente apanhado por ela.
Não querendo quebrar a sua alegria, contei-lhe o que tinha ido fazer à Arrábida depois de ele me deixar na porta do ginásio. Ficou triste por saber que a Patrícia andava novamente a monte mas reconfortou-me e fez-me entender que talvez tivesse sido o melhor para mim.
Fiquei mais calmo, aquilo que uma conversa com um amigo e três imperiais fazem a um gajo.
Depois de tanta conversa, eram horas de jantar e fomos para casa. Telefonei para a Diana, não falava com a minha doce loirinha desde a manhã, quando ela me levou a casa. O cheiro do seu corpo ainda permanecia no meu, como ela estava tão próxima de mim e ao mesmo tempo tão distante. Não somente pela distância que nos separava mas também por todo o meu envolvimento com a sua irmã.
Foi um telefonema triste, decidimos esquecer o que tinha acontecido entre nós naquela manhã e continuar somente como bons amigos, mas como daria para esquecer tal corpinho, tão bela carinha e mais difícil ainda, o calor dos seus beijos.
Sentia-me triste mas um pouco aliviado, não queria misturar o que sentia pelas duas irmãs numa só.
Cheguei a casa, à boleia com o Zé, cansado e triste, acabei por não jantar.
A minha mãe tinha uma novidade para me contar, não estava com paciência para a ouvir e dirigi-me para o quarto, até que ouvi o nome Alexandre. Parei para escutar o que ela tinha para me dizer e foi então que fiquei a saber que o Alexandre tinha sido encontrado a dormir à porta dum café nas imediações do Hospital e foi de imediato levado para lá.
Era menos uma dor de cabeça para mim, sabendo agora que o meu amigo estava de novo sob cuidados médicos.
Fui dormir, era a terceira vez que me deitava sobre um colchão naquele mesmo dia.
 
Cinco dias passaram...
Finalmente chegava a sexta-feira, após dois exames pelo meio da semana. Tinha-me livrado da faculdade naquele semestre, os exames já faziam parte do passado e agora começavam as festas académicas.
O dia permanecia numa pasmaceira, apenas quebrado pela infalível punheta matinal de bons dias ao caralho e tinha também ido buscar o meu carro à oficina.
Jantei e fui sair com os amigos, infelizmente, o Alexandre ainda estava de cama mas agora em casa.
Já não me reunia com todos estes gajos, faziam agora quase duas semanas, os exames e as noites passadas de cona em cona, deixavam uma janela pouco aberta para o convívio entre amigos.
O Rui, sentado ao meu lado direito, recebeu um telefonema dum amigo dele que é Relações Publicas duma agência de modelos e nos convidou para uma festa no Blues Caffe.
Aceitámos o convite, para mais, entrar numa respeitada discoteca de Lisboa e de borla, era bom demais para se recusar. Lá íamos nós para as Docas, o caminho não é muito longo mas o Zé estava com ideias de levar o seu novo apêndice, a menina Mónica.
Ela também vai, caralho! – insistia o Zé.
Este gajo deveria estar parvo...
Iam quatro gajos para uma discoteca bem frequentada por cona fina de Lisboa e ele a querer levar uma empata fodas. Gerou-se alguma polémica sobre a inclusão da Mónica no grupo de engate.
Epah... vejam lá isso. – tentava o Luizinho amansar a situação.
Quando tu vais à praia, o que é que tu nunca levas? – perguntei eu, ao Zé.
Sei lá, foda-se. Que merda de pergunta é essa agora?
Responde lá, caralho. Podes levar de tudo, excepto uma coisa.
– acrescentei.
O Zé não estava a chegar lá nem a perceber porque lhe perguntava aquilo...
Não sei, diz lá. – respondeu ele.
É a areia... Tal como quando vais para uma discoteca, não levas gajas porque já há lá muitas.
Acho que ele ainda não tinha percebido na totalidade o que lhe acabara de dizer.
Foda-se, essa foi muito à frente. – metia-se o Rui ao barulho.
Poucos minutos depois, estávamos em frente à casa da Mónica, esperando por ela.
Como iam dois carros para Lisboa, achei por bem levar mais uma amiga connosco para equilibrar as coisas. Telefonei para a Cátia, uma amiga linda pela qual tenho muita estima.
Agora na presença das meninas, seguimos para as Docas, onde toda a emoção nos esperava.
Passava meia hora da meia-noite, aproximámo-nos da entrada do Blues Caffe.
Estavam dois gorilas na porta que nos olhavam de alto a baixo, na esperança de nos barrarem a entrada.
Boa noite, hoje só com cartão de cliente. – disse um dos gorilas.
Nós fomos convidados a vir cá hoje... – dizia o Rui, sendo interrompido por um deles.
Vocês aqui não entram, tu e os teus amigos vão brincar com as pilinhas e desapareçam daqui.
Sim, a não ser que queiram passar por cima de nós.
– começava o outro também a cagar sentenças.
Estávamos a ficar fartos destes gajos, não eram ninguém na vida e comportavam-se como se fossem donos da discoteca. O Rui ligou para o seu amigo Relações Publicas, que já se encontrava dentro do Blues Caffe. Pediu-lhe que viesse à entrada, para resolver a situação.
Ele chegou lá segundos depois e perguntou porque é que nós ainda estávamos do lado de fora. O semblante dos porteiros alterou-se por completo, ficaram mesmo intimidados, talvez vissem ali as suas promissoras carreiras como gorilas plantados à porta duma discoteca fina de Lisboa, irem com o caralho.
Pediram imensas desculpas, estavam finalmente reduzidos à sua insignificância...
Abrir a porta da discoteca e dizer boa noite aos clientes.
Dentro da discoteca, por fim. O Blues tem um espaço fabuloso, cheio de gajas boas e, aparentemente, também recheado de senhoras cheias de dinheiro, umas quarentonas ricas com desejos dispendiosos por miúdos da minha idade. Até vinha a calhar apanhar uma gaja destas pela frente, tinha ainda de pagar o resto da reparação do meu Astra e quem sabe, poderia inclusive trocar de carro à conta de tão simpáticas senhoras. Dar uma queca por caridade na terceira idade, tem destas coisas.
Estava com cede e fui imediatamente para um dos bares, a Cátia mantinha-se próxima de mim enquanto os outros ficaram à conversa com o gajo que nos tinha convidado.
Eu e a Cátia pedimos dois sumos à menina do bar, toda ela gira, tornou a bebida muito mais saborosa.
Mal acabava de guardar o cartão de Multibanco na carteira, topei numa rapariga a levantar-se da sua mesinha e aproximar-se da minha traseira. Não me senti intimidado, a mulher, nos seus vinte e muitos anos, tinha estilo e era jeitosa. O seu corpinho despertou-me a atenção e a sua cara de anjo era a cereja no cimo do bolo.
Encostou-se de costas para o balcão, já com um copo na mão, e galou-me de cima a baixo. Ela deveria pensar que seria só aparecer e comer o que lhe apetecesse, mas eu teria de a contrariar, apesar de ela não estar muito longe da realidade.
Pedi à Cátia que fosse ter com o resto do grupo, gostaria de saber até onde iriam as intenções desta mulher e se a sua aparente segurança não seria apenas fachada.
Virei-me para o balcão, a bonita mulher estava praticamente colada ao meu braço esquerdo, sem nada entre nós, apenas aquilo que ela pudesse vir a dizer.
Ela olhou uma vez mais para mim, discretamente, pegou na sua bebida e voltou para a sua mesinha. O seu comportamento foi tal como esperava, uma primeira investida para apalpar terreno e matar um pouco da ansiedade, somente com um olhar sobre a sua presa, neste caso eu. Para quem acha difícil engatar uma pita novinha e acabada de nascer para a vida, deveria experimentar com uma mulher já formada e de preferência que fosse da classe alta. Depois desse árduo teste, tudo o resto que lhes parecerá muito mais fácil.
Voltei para junto dos meus amigos, o Zé estava abraçado à Mónica e pareciam bastantes chegados, talvez aquilo fosse apenas tesão do mijo por serem novidade um para o outro.
O Rui continuou à conversa com o seu amigo, peguei na Cátia pela mão e arrastei-a para o meio da pista, o Luís seguiu-nos enquanto o novo casal do grupo ficou aos beijos, numa das mesinhas da discoteca.
As mesinhas, recheadas de grupos de gajas, estavam a poucos metros da pista, os seus olhares vagueavam pelos gajos que dançavam inocentemente. Cheguei a pensar que isto fosse uma discoteca de engate para gente fina, tal era o modo como tudo estava preparado e meticulosamente arranjado, as mesas bem alinhadas e ajudados pela cumplicidade do pessoal que trabalhava nos bares que distribuam bebidas e bilhetinhos de mão em mão. Não, deveria ser tudo imaginação minha, pois então, todas estas belas mulheres e aparentemente ricas, estavam aqui apenas para tomar o seu copo e discutir a roupa que cada um vestia, fazendo principal incidência na zona da cintura, talvez fossem todas designers de cintos para homem e quisessem apenas ver de perto as suas obras. Bem, na verdade, quase todas estas gajas são umas vacas do caralho, deixam os maridos em casa e vêem para estes ambientes na procura de picha juvenil que lhes coma as entranhas, entranhas essas que ficam a descansar na cama no dia seguinte quando o marido cornudo vai trabalhar para arranjar mais dinheiro e lhes pagar estes vícios.
Ainda era cedo, mas rapidamente a pista ficou cheia de gente, a música ambiente deu lugar a um som mais alternativo e estimulou as pessoas para dançarem e abanarem os seus glúteos ao ritmo da mesma.
O Luizinho estava a rir como um parvo, olhei para ele e perguntei-lhe o que se passava.
Olha para aquilo, o Circo chegou à discoteca. – respondeu ele, apontando na direcção duns betos.
De facto era uma coisa caricata, três putos novos, acabavam de entrar no Blues...
Foda-se, que figura aquela.
Estes gajos vêem para aqui, penteados pela mãe e com as roupas do pai.
– acrescentei eu.
O confronto social era mais que evidente, estes rapazitos novos tinham que se ambientar aos costumes da sua classe desde logo em tenra idade, apesar de ficar ridículo ver um miúdo de 16 anos vestido à jogador de golfe, eles estavam contentes e introduziam-se assim desta maneira na vida social que os aguardava desde o berço.
A noite tinha tido o seu momento de comédia, agora estava na hora de esperar pelo ataque das predadoras, que nos observavam das suas mesinhas, já preparadas com o pito aos saltos, mas como é pito de classe alta, dá só meio saltinho. Não sei como elas combinavam entre elas quem engatava quem, mas teria sempre de haver carne para todas.
Vieram duas gajas na nossa direcção, o Luizinho ficou nervoso, queria certamente comer alguma delas.
Aproveitei o ritmo mais pausado da música para me encostar e abraçar à Cátia, livrando-me assim do contacto daquelas feras que se aproximavam. Elas toparam a jogada e mudaram de direcção, para novos horizontes.
O Luizinho ficou sem saber o que se tinha passado, olhava para elas de trás na esperança que elas dessem meia volta mas tal não aconteceu. Elas encostaram-se a outros gajos e esperaram que eles entrassem no jogo de sedução delas, não deveriam ter de esperar muito, elas eram bonitas e os gajos deveriam estar ali também no engate.
Continuámos a nossa noite normalmente na discoteca, terminara agora uma hora desde que lá entrámos e três sumos depois, estava na hora de dar uma mija e deixei o Luizinho com a Cátia, no meio da pista.
Uma das casas de banho fica no andar superior, queria conhecer toda a discoteca e aproveitei para subir lá cima. Ainda nas escadas, senti uma presença feminina sempre por trás de mim, seguia-me discretamente. Subi o resto dos degraus e parei junto ao bar, perguntei ao empregado onde ficava a casa de banho, esperei mais um pouco que ela se aproximasse e, sem surpresa para mim, reparei que era a mesma mulher que me tinha observado assim que entrei na discoteca, junto do outro bar.
Olhei para ela e sorri, ela retribuiu o cumprimento e acenou-me com um copo.
Abanei a cabeça e sentei-me num dos bancos do balcão, estava aflito para mijar mas quis esperar para ver até onde iria este pequeno jogo. Ela chamou o empregado, disse-lhe qualquer coisa baixinho e ele veio ter comigo.
A senhora perguntou se queria beber alguma coisa. – trouxe ele o recado, sorrindo.
Pode ser o mesmo que ela.
Não me quis alongar muito mais em palavras nem trocar recados pelo coitado do barman que deveria ter de comer com estas merdas durante todas as noites da semana.
Ela pegou na sua bebida e sentou-se no banco ao lado do meu, cruzou a perna e levou um cigarro à boca. A gaja sabia o que fazer e esperou pela minha reacção, tirei do bolso o isqueiro que nunca uso e acendi-lhe o cigarro.
Agradeceu e olhou para mim, mais fixamente e sem desviar o olhar.
Encalhei por completo, esta bela desconhecida estava a domar-me como queria e eu pouco mais me limitava do que seguir as suas intenções. Foi então que ela se chegou ainda mais perto de mim e pousou uma mão sobre a minha perna, confesso que tremi e senti-me a perder o controlo sobre o meu próprio corpo.
Queria comer esta tipa, e muito. Não tínhamos trocado uma única palavra e já lhe queria tanto saltar para a espinha.
Olá, chamo-me Carolina. – ouvi a sua voz pela primeira vez.
João, prazer e... obrigado pela bebida.
Falámos um pouco sobre nós, começava a conhecê-la ou aquilo que ela me mostrava, mas eu fazia o mesmo, revelava-lhe apenas um pouco de mim e somente o necessário. Nada de grandes intimidades, ambos sabíamos onde aquilo iria dar e não estávamos para grandes rodeios.
Olha, acabei de sair duma relação atribulada. – disse eu, voltando o olhar para o balcão onde repousava a bebida.
Espera, volta esse olhar lindo para mim... – pediu-me ela.
Carolina, não me quero envolver. – acrescentei eu, inclinando a cabeça na sua direcção.
Só procuro um amigo, João...
Acho eu.
disse ela, sorrindo.
Achas mesmo?!
– perguntei eu, entrando no seu jogo.
Não será de mais dizer que dois minutos depois estávamos fechados na casa de banho do piso superior da discoteca. Engraçado, como algumas palavras se transformam em sexo.
Fomos interrompidos pelo bater na porta da casa de banho, certamente estaria já alguma fila formada na porta da mesma. Estivemos ali fechados durante bastante tempo e acabámos por nos saciar por completo, até que as forças nos faltassem.
A Carolina tinha sugado grande parte da minha energia vital, precisava de combustível, fui então ao bar beber qualquer coisa. Nem acreditava que tinha passado mais de uma hora fechado numa casa de banho com uma mulher que nem conhecia há duas horas atrás e se tinha revelado tanto em tão pouco tempo.
Desci as escadas e fui ao bar mais próximo dos meus amigos, ela passou por trás de mim e apalpou-me o rabo, olhei para trás e sorri para aquela cara de mulher comilona e adorei de ver o seu sorriso.
Abri a carteira para pagar o bacardi lemon, ao arrumar o cartão de Multibanco, reparei num flyer que tinha lá guardado há uns dias quando fui ao ISEL fazer o meu último exame do semestre, desfolhei aquele pequeno papel... Interessante, era um convite para uma festa privada na residência do ISEL.
Peguei na bebida e fui imediatamente falar com os meus amigos sobre a festa. Eles continuavam a dançar, o Luizinho e o Rui faziam companhia à Cátia e o Zé continuava agarrado à Mónica, a miúda deveria ter mel no cú.
Eram duas e pouco da manhã, tínhamos vindo conhecer a discoteca e as suas gentes, estava agora na hora de mudar de ares e ir explorar a festa na nossa faculdade. Acabámos as bebidas e fomos para o ISEL.
Antes de entrar no carro, telefonei para a Andreia, foi ela quem organizou a festa.
Loirinha, vou aí chegar dentro de vinte minutos.
Óptimo, trazes mais alguém?
– perguntou ela.
Sim, três amigos e duas amigas.
Está bem, venham depressa que isto está ao rubro.
– finalizou ela, com um beijo bem sonoro.
Estacionámos os dois carros dentro do parque da faculdade, eles não sabiam ao certo para que tipo de festa iriam e estavam bastante curiosos, a Cátia sorria e lá continuava o Zé agarrado à Mónica.
Já dentro dos portões do ISEL, subimos a pequena rua que nos levou à Residência do Politécnico de Lisboa, ali sedeada nas instalações do ISEL. Abri um pouco do jogo sobre o tema da festa e senti neles um crescente interesse. Tratava-se de uma festa da foda, numas instalações formalmente conhecidas como o sexódromo da faculdade.
Certamente já todos eles tinham ouvido falar deste tipo de festas mas nunca assistido a uma, era agora a grande oportunidade deles e também a minha.
Com a cumplicidade do segurança de serviço, um gajo porreiro com pouco mais da nossa idade, entrámos na Residência e fomos directos para o terceiro andar, onde toda a festa se desenrolava.
Viam-se gajas em top less e algumas apenas em bikini, enquanto os gajos passeavam pelo corredor em tronco nu e de imperial na mão. Havia quem preferisse correr de quarto em quarto com cameras de filmar, mas também sempre com uma imperial na mão.
Era uma festa por completo, no verdadeiro sentido da palavra, sem confusões e apenas muita diversão espalhada por todos os cantos deste andar da Residência. Alguns casais aventuravam-se na sala principal, trocavam carícias e alguns toques mais íntimos diante de toda a gente e, sobretudo, das cameras de filmar.
Distanciei-me das pessoas que chegaram comigo e corri com a Andreia para o seu quarto, tinha imensas saudades daquele pito loiro e estava mortinho para o saborear novamente.
Tínhamos muita conversa a colocar em dia, sobretudo afectiva. As saudades despertadas em nós assim que nos vimos, transportaram-nos de imediato para o seu quarto, a nossa sala de conversações, e discutimos na sua cama, o melhor modo de tratar dos nossos interesses.
Trocámos beijos por todo o corpo, os nossos corpos voltavam a revelar-se aos lábios de cada um e apreciávamos agora cada momento como se fosse o primeiro contacto que tínhamos.
Parecíamos dois adolescentes, completamente enlouquecidos e cheios de hormonas malucas dos cornos a tomarem conta dos nossos movimentos. Acabámos a nossa ligação amorosa com um longo beijo, após litros de suor derramados pelo colchão da sua cama.
A Andreia ficou no quarto a arrumar as coisas, saí para tomar uma bebida e dar uma mija.
Encontrei a Mónica no corredor que separa o quarto da Andreia e a sala da festa, estranhei ela não estar uma vez mais agarrada ao Zé ou vice-versa. Parei quando ela se aproximou e esperei que ela metesse conversa comigo. Não demorou muito para que isso acontecesse, ela já deveria vir com essa intenção.
Olá João, estou a gostar da festa. – começou ela.
Olá. Então fugiste do Zé? – brincava eu, com o facto deles estarem sempre agarrados.
Quem? – perguntava ela, com um olhar de distanciamento.
Começava a notar nela, uma tentativa de se despegar do calor do meu amigo.
Ela encostou-me contra a parede, fui empurrado pelos seus seios...
João, beija-me. – entoava ela baixinho, com os seus lábios próximos dos meus.
Não, beija-me tu.
Ela inclinou-se mais sobre mim, humedeceu os lábios com a língua e fechou os olhos...
Pára, apetece-me uma imperial. – travei os avanços da menina, colocando dois dedos nos seus lábios.
Estúpido, não sabes o que perdes! – gritou ela, visivelmente chateada.
Não sabia o que perdia mas sabia aquilo que não perderia, a amizade do meu amigo Zé.
Fui beber a imperial descansado e voltei novamente a ter aquela sensação de ter a bexiga completamente cheia, mas o vicio pela cevada divina era mais forte que a vontade de mijar e bebi o resto do líquido sagrado. Vagueei pela sala, de copo na mão, observava casais a comerem-se para as cameras que os captavam de vários ângulos, toda a gente gritava e incentivava os novos artistas.
Tinha a Andreia à minha espera no quarto, voltei para lá e cruzei-me novamente com a Mónica no corredor, esta saía da casa de banho e parou junto a mim. Olhou-me nos olhos e pediu um pouco da minha atenção.
Olha, ainda queres aquele beijo? – insistia ela.
Nem por isso, tenho de ir mijar. Volto já. – terminei ali a conversa.
Não fazia isto por mal, esperava que ela me compreendesse, mas não podia entrar neste jogo de sedução com a rapariga que andava a ser comida pelo meu melhor amigo.
Ela encostou-se à parede do afamado corredor de passagem e levou as mãos à cabeça.
Entrei na casa de banho e fui dar a minha mijinha.
Levei alguns minutos para sair, tinha o tanque de combustível bem atestado das imperiais e bacardis que tinha consumido naquela noite, para libertar aquilo tudo, foi um dilúvio.
Saí da casa de banho, agora mais aliviado, reparei que a Mónica ainda estava pelo corredor, agora com um copo de imperial na mão. Fui ter com ela, algo de muito poderoso me arrastava para junto dela, peguei-lhe na mão e arrastei-a para os balneários da Residência, ao fundo do corredor.
Questionava-me constantemente sobre o que estava a fazer mas fui incapaz de parar e ela não se queixou, reparava agora num leve sorriso nos seus lábios. O meu espírito tinha sido possuído pelo demónio e queria agora possuir, literalmente, a doce Mónica que não oferecia a mínima resistência.
Entrámos nos chuveiros e tranquei a porta por dentro, saberia que senão o fizesse, dentro de poucos instantes estaria ali um gajo qualquer com uma camera de filmar na mão e no dia seguinte teria imagens do meu caralho a passear por toda a Internet.
Estás a ser uma menina muito má, sabias? – dizia eu, para a Mónica.
Vá, castiga-me... – pedia ela, apertando-me os tomates.
Abri a água quente dos chuveiros e puxei a fera lá para baixo.
Os nossos corpos rapidamente se encharcaram, só depois tirámos as roupas molhadas.
Ela não queria muitas carícias e eu estava mais numa de rapidinha, juntámos as nossas necessidades à excitação que nos percorria os corpos. Ela virou-se de costas para mim, apoiou as suas mãos nos azulejos dos chuveiros e afastou as pernas.
O sangue rapidamente fluiu todo para um só sitio, cheio de vigor, penetrei a Mónica à canzana e estimulava os seus seios, apertando-os com força. Não iríamos ficar ali muito tempo, os nossos corpos pediam por sexo, não por amor e era isso que fazíamos, apenas sexo, duro e sujo.
Passeei a minha mão pelo seu corpo, parei na sua boca e deixei que ela me mordesse os dedos, continuava a penetrar aquele pito molhado sem parar e sentia os seus gemidos cada vez mais fortes e a sua respiração mais ofegante a cada encavadela que lhe dava.
Toquei-lhe no clítoris com os dedos, antes mordidos por ela, e o seu estado tornou-se crítico, a menina teve o seu primeiro orgasmo. Mudámos de posição, ela virou-se de frente para mim, beijei os seus seios antes de a voltar a penetrar e ela tratava de me massajar suavemente o tolinhas.
Fode-me, caralho. Estás à espera de quê?! – insistia ela comigo.
Levantei-lhe uma perna e encostei-a com firmeza aos azulejos, beijava agora o seu pescoço e ela acabou por introduzir o caralho dentro dela. Voltava novamente a escutar os seus gemidos, fodemos que nem loucos durante mais dois minutos e acabámos por nos vir naquela posição.
Ficámos exaustos, sentei-me no chão e vi a Mónica tomar um duche, ali bem pertinho dela.
As nossas roupas continuavam molhadas, como não haviam outras, vestimos aquelas mesmas e misturámo-nos no meio da festa. Estavam outras pessoas também encharcadas, umas de cerveja, outras de fluidos corporais e acabámos por passar quase despercebidos no meio de tanta gente bêbeda.
Fui ter com a Cátia, tinha convidado a minha bela amiga para sair naquela noite e pouco tempo tinha passado com ela.
Ela brincou com a minha figura, com a sua doçura reconfortou-me e deu-me um pouco do seu calor. Não há nada melhor que uns miminhos sinceros de uma amiga, para nos aquecerem a alma.
O Luizinho tentava-se colar no meio da acção sexual, agora era a vez dum casal amigo nosso desfilar o seu erotismo para as cameras, coitados, estavam os dois bêbados e nem se lembraram que no dia seguinte seriam noticia por toda a faculdade. Foi engraçado ver o Luizinho ao lado das cameras, captando no seu globo ocular, importante material para a sua punheta matinal. Ele não se ficou pelo olhar e juntou-se ao casal de namorados na foda que davam. O gajo comia a namorada, enquanto o Luizinho se ia contentando a chupar-lhe as mamas, ela sorria e parecia estar a gostar.
A Mónica estava novamente junto do meu amigo Zé, no colo dele e interagia com ele como senão tivesse feito nada de anormal antes. Senti alguma pena dele, esta miúda não era a ideal para ele e eu próprio não agi da melhor forma, fiquei mal comigo próprio e de consciência pesada, tinha de lhe contar o sucedido.
Teria também de sair daquele lugar, estava a ficar enojado com o que se passava à minha volta e sobretudo na minha cabeça. Foi então que recebi uma mensagem no telemóvel, era da Carolina, talvez fosse o meu bilhete de saída dali.
Cheguei agora a casa, tanto espaço e eu sozinha aqui.
Estou louca para sentir novamente o teu cheiro e beijar os teus beijos.
Aparece, sinto a falta do teu corpo.
Um beijo, Carolina

Apressei-me a acordar o Rui, que ressonava encostado a um dos sofás e retirei bruscamente o Luizinho do meio do ménage, ele ficou fodido comigo mas prometi-lhe que era por uma boa causa, ele não ficou muito convencido mas concordou depois de lhe prometer que pagaria uma imperial.
O Zé a Mónica levantaram-se do sofá, pareciam alegres e bem dispostos.
Passei pela mesa onde estavam as bebidas, enchi um copo de imperial e dei ao Luizinho, que me olhava com cara de parvo, agarrei também nuns rebuçados para o caminho.
Eram quase cinco da manhã, despedi-me da Andreia e fomos para o parque de estacionamento, onde estavam os carros. Eles olhavam de forma estranha para mim, não sabiam porque tínhamos saído à pressa da festa.
Pensavam que íamos todos juntos para casa e a Cátia entrou imediatamente no meu carro enquanto eles se dirigiam para o carro do Zé, juntamente com a Mónica. Despedi-me ali deles e disse-lhes para esperarem pela Cátia, que iria com eles no mesmo carro. Não me expliquei mais nem lhes disse onde iria, ficaram curiosos como o caralho.
Entraram dentro do carro e esperavam agora pela Cátia.
Abri a porta do meu carro, lá dentro estava já uma morena linda com o cinto de segurança posto mas teria de o tirar em breve, com alguma pena minha por vê-la partir.
Linda, vou ter de ir a um sítio agora. – disse eu.
Está bem, onde vamos? – perguntou ela, inocentemente.
Não, tontinha...
Vou sozinho, é melhor ires para casa no carro do Zé.
– respondi, sorrindo para aquela carinha linda.
Eu vou, até amanhã João. – disse ela, momentos depois.
Espera...
Tenho um presente para ti.
– tentava eu compensá-la.
Mandei a Cátia fechar os olhos, meti a mão ao bolso e tirei um dos rebuçados que tinha fanado na festa.
Ela abriu os olhos e agarrou no rebuçado...
Então, gostas? – perguntava eu, tentando sacar mais um sorriso daquela carinha.
É docinho. – respondeu ela, depois de o colocar na boca.
Não, docinho é esse teu sorriso e os teus olhos castanhos. – acrescentei eu.
Ela sorriu, corou um pouco e fez um beicinho lindo que me deixou louco.
Aproximei os meus lábios dos dela e esperei que ela retribuísse o avanço. A Cátia chegou-se lentamente mais junto de mim e beijou suavemente os meus lábios, com um beijo curto, mas molhado.
Adeus João, diverte-te. – despediu-se ela, saindo depois do carro.
Fiquei sem palavras, liguei o motor e fui ter a casa da Carolina.
Meia hora depois, estava à sua porta, estacionei o carro e subi ao seu andar.
Ela abriu-me a porta, trazia somente uma camisa de dormir, bem curtinha, vestida sobre o seu belo corpo.
A rapariga tem umas belas pernas, perfeição que sobressaía agora pelo pouco que trazia vestido.
Pegou-me na mão e levou-me para o seu quarto.
Fizemos amor no chão do quarto e de janela aberta, estava calor e não encontrámos melhor escapatória para consumarmos toda a nossa excitação. Fiquei cansado, esta tinha sido a quarta foda da noite e todas elas fabricadas a ritmos altíssimos, excepto esta, que foi dada mais na desportiva e mais calmamente.
Encostei a minha cabeça no seu seio e adormeci.


Terça-feira, Julho 13, 2004

Uma noite inesquecível

Esta história foi nos escrita pelo Zé Luís, meu amigo inseparável de tantas aventuras e que se separou há pouco da sua querida Paula, após tantos deslizes pelo meio de uma relação atribulada.

Acredito que o que faz o Homem são os seus actos e não as palavras que este possa dizer, as palavras que se dizem hoje, amanhã serão esquecidas, mas os actos ficam para sempre. Decidi escrever esta história baseada em factos reais, para tentar imortalizar situações que, apesar de tudo, valem a pena recordar.
Sou o José Luís, amigo do João, Zé para os amigos e considero-me um lutador, pois vivo a minha vida por objectivos e não desisto facilmente de alcançar os mesmos, gosto de me divertir e fazer as outras pessoas divertirem-se, sou realista, sonho apenas com aquilo que vou ser capaz de conseguir, privilegio o sentimento em relação à razão, o que me faz entrar em contradição comigo próprio, uma vez que ao mesmo tempo, tenho de ter sempre razão em tudo aquilo que faço ou digo, pelo menos até que me provem o contrário.
Trabalho no Modelo, como operador de caixa, actividade esta que me deixa frustrado, pois sinto-me um inútil, mas sei que se não estou realizado profissionalmente, é porque não me esforcei para isso; apesar de tudo já valeu a pena ter exercido esta profissão neste local, pois foi aqui que conheci uma rapariga de seu nome Mónica, Tomatinho para mim. Esta alcunha inventada por mim deve-se ao facto de a menina corar com facilidade sempre que se metiam com ela. Foi com esta rapariga que vivi a história que vou escrever a seguir, a Mónica é um ser complexo, não fosse ela mulher, falarei sobre ela adiante.

No dia que a Tomatinho começou a trabalhar no Modelo, aqui o José foi um dos operadores que a ensinou a mexer no material de caixa, não me lembro da primeira impressão que tive dela mas sei que na altura não me despertou grande atenção.
Passado algum tempo, tivemos um arrufo que me deu vontade de rir e ainda hoje sorrio cada vez que me lembro dessa passagem. A Tomatinho trabalha em part-time ao fim-de-semana e às sextas à noite. Numa destas sextas, a menina estava com umas trombas que minha Nossa Senhora, eu nesse dia estava um pouco inseguro na caixa com medo que pudesse voar uma impressora ou um teclado vindos de uma caixa anterior na direcção da minha pessoa, mas tal acabou por não acontecer. Ambos saímos às duas da tarde, mas como cheguei primeiro, tinha o direito que o meu colega Augusto me confirmasse a saída antes de confirmar a da menina, acontece que me pus à conversa com ele e ela mais uma vez mostrou a sua cara de fodida, como quem diz...
Ó vocês se despacham ou levam com a caixa nos cornos!
Eu ao perceber isto, com receio de ser agredido, dei-lhe a minha vez, dizendo ao meu colega as seguintes palavras...
Augusto, faz lá a saída à miúda que ela parece estar com pressa.
Ao que ela respondeu...
Miúda?! Vê lá a quem é que estás a chamar miúda!
Sorri e pensei que se foda esta gaja, deve pensar que já manda ou o caralho.
Saí da Caixa Central e à medida que fui caminhando para o balneário, pensei que tinha de lhe dizer algo. Esperei por ela na entrada do refeitório, quando a vejo, aproximo-me dela, enquanto ela cora, possivelmente receando o que eu lhe pudesse dizer.
Mónica, que idade tens?
Tenho 19.
Então estava tudo explicado, uma rapariga com 19 anos já é uma mulher feita, como é que eu lhe pude chamar miúda? Que estúpido! Pela maneira como me respondeu, cheguei a recear que ela tivesse 40 anos mas parece que não. Expliquei-lhe que aquilo era apenas uma força de expressão e não tencionava ofendê-la, ela aceitou, sorriu e foi-se embora.
Algum tempo depois, voltámos a sair através da nossa amiga Lara. Na altura, a Mónica estava chateada com o namorado e necessitava de desabafar, até esta altura, olhava-a apenas como uma amiga e nada previa que acontecesse o que aconteceu, tentei ajudá-la a superar toda aquela situação.
Voltámos a sair mais algumas vezes por minha iniciativa, até que certo dia, ela convidou-me para sair, disse-me ao telefone que precisava de sair do Barreiro, combinámos a hora que a iria buscar e ambos prometemos pensar num destino para a nossa saída.
O relógio marcava quase oito e meia da noite, quando cheguei a casa dela. Estacionei o carro e dei-lhe um toque.
Ela desceu e quando abriu a porta do carro, olhei-a de cima a baixo e pensei...
Meus Deus, que mulher!
Ela trazia uma camisola preta, botas da mesma cor, um casaco de ganga azul e uma mini-saia do mesmo material e da mesma cor. A caminho de Sesimbra, partilhámos algumas ideias e começamos a conhecer-nos melhor. Fisicamente, a Tomatinho chamava-me mais à atenção pela sua carinha bonita de anjo, com uma mistura de ar malandro e pelas suas pernas, para as quais eu olhei pelo menos durante metade da viagem, não sei se ela reparou, se sim deve ter pensado que eu era um rebarbado, mas não sou, sou apenas um apreciador do corpo feminino!
Com tamanha distracção, é uma sorte estar aqui a escrever esta história, pois poderia ter-me despistado e as consequências poderiam ser irreparáveis.
Chegámos a Sesimbra, estacionei o carro e fomos procurar de um sítio para jantar, a escolha foi difícil porque não tínhamos muito dinheiro. Escolhemos um, cujo nome não me recordo, mas ao qual faço tenções de voltar, sentámo-nos e folheamos o menu a fim de escolhermos o jantar. Pedi chocos grelhados enquanto que ela quis peixe-espada grelhado.
Perguntei-lhe se queria vinho branco, o ideal para acompanhar peixe e a minha bebida de selecção para ocasiões especiais, mas recusou. Tentei fazê-la mudar de ideias mas no fim tive de me contentar com uma imperial, pois o vinho assim como muitas situações da vida, só tem sentido quando partilhado a dois.
Enquanto esperávamos pelo jantar, conversávamos e riamos, senti que estava a conseguir o meu objectivo, fazer nem que fosse só por aquela noite, esquecer os problemas que a atormentavam. Ela sorria e como é bonito o seu sorriso!
O jantar chegou, e já não era sem tempo, começámos a comer muito lentamente, sem nunca pôr fim à conversa, parecíamos ter tanto em comum, a sua voz doce substituía na perfeição a falta de música ambiente. Cortei um pouco de choco e dei-lhe a provar, trincou o pobre animal frito e olhou-me com timidez, desviou o olhar, ao mesmo tempo eu sorri.
Perguntou-me porque sorria, ao que eu respondo com uma pergunta.
Tenho tinta preta nos lábios?
Não. – respondeu ela.
Mas tu tens! – acrescentei eu, imediatamente.
Ela sorriu e procurou um guardanapo, pensei que os meus lábios seriam um guardanapo perfeito para limpar a tinta dos seus, mas...
Finalizamos o jantar com um café. Pedi a conta e entretanto abro a carteira, que se encontrava praticamente vazia, tinha três ou quatro cêntimos a jogarem à sueca. Pensei em voz alta...
Que estúpido! Deixei o dinheiro em casa.
Perguntei-lhe se tinha dinheiro e ela olhou-me de lado.
Só tenho quinze euros! - respondeu ela, friamente.
Todo aquele esforço para te fazer sentir bem tinha sido em vão, pois agora estavas extremamente desiludida comigo e com razão.
Já que a merda estava feita, propus-lhe fugirmos para a praia, ao que ela respondeu...
Foda-se, vais-me fazer correr?
Antes correr que lavar pratos o resto da noite ou ir para a esquadra, não?
Estou-me a cagar, eu não corro!
Mas não corres porque estás a cagar?
Ah! Ah! Ah! Deve ter engolido um palhacinho, o menino!
– respondeu ela, sorrindo.
Vens a bem ou a mal?
Deves ser muita mau tu, para me arrastares daqui a correr.

Levantei-a da cadeira e levei-a ao ombro, ela esperneava e esbracejava por todos os lados mas sem nunca gritar, pois sabia que se os empregados do restaurante ouvissem os seus gritos, iriam no nosso encalço. Acontece que o espernear da menina chamou a atenção dos empregados, um deles começou a perseguir-nos e outro correu para o telefone, talvez para chamar a polícia.
Estávamos agora do outro lado da estrada, ainda um empregado atravessava a porta de entrada do restaurante.
Tínhamos de saltar um pequeno muro que dava acesso à praia, para depois podermos escapar abrigados pela escuridão. Ela estava a ficar pesada e mandei a Mónica para o chão.
Como é, vens ou ficas?
Saltámos juntos, caímos na areia e ao levantarmo-nos ela queixou-se de dores no pé, que deveria estar torcido por ela ter caído mal.
Podes ser o meu cavalo nesta fuga? – perguntou ela.
Só se me souberes montar! – respondi eu.
Sorrimos, ela pôs-se às minhas cavalitas e comecei a correr que nem um cavalo por aquela praia fora, perguntei-lhe se o empregado já tinha saltado o muro, ao que ela respondeu...
Não acredito!
Não acreditas no quê? O gajo vem aí ou não?
Zé, o gajo caiu e enfiou os cornos na areia!
O quê?!

Virei-me rapidamente e quando vejo aquele cromo com a cabeça enfiada na areia, desmanchei-me a rir mas logo recomecei a corrida pois o gajo poderia recuperar os sentidos a todo o momento e além disso, tinha nas minhas costas uma menina que precisava de cuidados e carinhos, pois tinha torcido o seu pezinho.
Corria desenfreadamente pela praia de Sesimbra, pensava para onde seria melhor ir, sabia que não podia ficar por ali durante muito mais tempo, pois a polícia iria vasculhar toda a praia à nossa procura.
Perguntei à Mónica onde achava melhor que nos escondêssemos, ela sugeriu sairmos rapidamente de Sesimbra. Concordei, larguei-a junto a uma rocha e voltei atrás para buscar o carro. Arranjei maneira de chegar ao carro sem ser visto. Arranquei a toda a velocidade e passei pelo restaurante onde já se encontrava a polícia, mais à frente parei na beira da estrada, saltei o muro e fui buscar a minha princesa.
Ela fixou-me com o seu olhar meigo mas ao mesmo tempo provocante, entrámos no carro e arranquei a todo o gás, olhei para o espelho retrovisor e vi um jipe da GNR a aproximar-se. Não esperei para saber se tinham boas intenções e desde logo puxei pelos 55 cavalos do meu Verdusco, são poucos mas bons. Foram atrás de nós mas rapidamente os despistei, pois o jipe deles devia ter mais de vinte anos.
Olhei para a Mónica, agora mais descansado...
Então nina, como está o pezinho? Ainda dói muito?
Já está melhor mas ainda dói um bocadinho.
Queres que eu dê beijinho no dói-dói para passar?
Mas tu estás a conduzir!

Encostei o carro na berma da estrada...
Pronto, agora já não estou. Venha de lá esse pé!
Não, não quero beijinhos no pé.
Pronto, tu é que sabes, podia-te aliviar a dor mas se não queres, não queres.

Quando voltei a pôr o cinto de segurança, ela agarrou firmemente no travão de mão.
Então querida, parece que queres ficar por aqui. – disse eu, admirado.
Eu disse que não queria beijinhos no pé mas não disse que não os queria...
Não querias o quê, nina?
Tu sabes, deixa de ser parvo!
Queres um beijo na boca, é? Eu não trouxe rebuçados e este vai ser o nosso primeiro beijo, para ser especial tem de haver rebuçados no meio, de preferência Vampi...

Deve ter achado que já estava a falar demais, ainda estava a meio da frase, quando me agarrou na cintura e saltou para cima de mim. Olhou-me penetrantemente como um predador olha a sua presa, tudo aquilo era novo para mim, pois eu era um predador que agora estava no papel de presa. Deixei que ela controlasse a situação e desliguei o carro, estava rendido ao seu olhar sedutor.
Avançou com carícias na barriga e beijos no pescoço, respondi com uma carícia na face, seguida de um longo beijo. Os seus lábios são quentes e doces e reacendem em mim uma chama há muito extinta.
Acaricio o seu corpo a partir da ponta dos cabelos, ao passar pelo pescoço, arrepiou-se e recostou no banco. Peguei nela, aproximando-a de mim novamente, parece que os papéis se tinham agora invertido, passando eu a ser o predador. Continuo a percorrer o seu corpo na direcção dos seus seios enquanto ela invadia a minha orelha com a sua língua louca, grande maluca esta menina.
Passei a minha mão por um dos seus seios, sorri, pois são médios e rijinhos, como eu gosto. Os seus mamilos tal como o meu tolinhas estão arrebitados, os nossos corpos estão excitados e sedentos de paixão.
Então Zé?! O que é que estás a fazer? – disse ela, saindo de cima de mim.
Eu não estava a fazer nada. Tu é que saltaste para cima de mim como uma leoa!
Deixa de ser tarado e vamos embora antes que a polícia nos apanhe.
– finalizou ela.
Sorrio, abano a cabeça, incrédulo com o que tinha acontecido, estava com uma força na verga capaz de partir pedra à caralhada. Esta mulher deu o que eu chamo um corte de picha e isto não se faz a ninguém.
Liguei o carro, prossegui a viagem na esperança de ainda dar uma alegria ao meu caralho naquela noite.
Então Mónica, onde vamos agora?
Vamos para casa, amanhã tenho aulas.
– respondeu ela.
Queres que eu te deixe na paragem do autocarro ou vais com o Armando?
Com o Armando?
– perguntava ela, sem saber merda do que eu estava a falar.
Sim, com o Armando, um bocadinho a pé, um bocadinho andando.
Ela fez um sorriso cínico daqueles que ela adora fazer.
Que piadinha, vê lá se não te cai um dentinho. – disse ela, toda fodida.
Não é piada, estou a falar a sério. Não vou para casa agora mas também não te posso proibir de ir.
Então vais para onde?
– perguntou ela, aguardando ansiosa pela minha resposta.
Vou para a praia dos Coelhos.
Praia dos Coelhos?!
Sim, é uma que fica perto da praia da Figueirinha.
O que é que vais fazer à praia dos Coelhos?
– tinha despertado a curiosidade dela.
Vou ver se apanho algum para o almoço! – respondi-lhe, brincando com ela.
Realmente deves te achar muito engraçado, devias era estar no Circo, que é onde está aquele pessoal que pensa que é palhaço.
Antes ser palhaço do que ser uma pita orgulhosa que tem a mania que já é crescida. – dei-lhe o corte que ela merecia.
Está bem Zé, leva lá a bicicleta. – finalizou ela, ficando de trombas.
Conduzi rumo a Setúbal, o relógio marcava vinte minutos depois da uma da manhã, a noite, tal como a minha acompanhante, ainda era uma criança. No caminho para Setúbal, oiço o que me parece ser um peidinho.
Querida, cheira-me a peixe-espada mas tu não arrotaste? – exclamei eu.
Pois não, peidei-me. É para veres e cheirares que me estou a cagar para ti.
Ó sua porca, então o Zé vem passear contigo e cagas-te no carro do Zé?! Pelo menos abre o vidro!

Rimos que nem doidos, tanto que me ia espetando contra outro carro que vinha na faixa oposta.
Ao chegarmos a Setúbal, oiço uma vozinha, que sussurrava...
Zezinho, leva-me a casa, a nina tem sono e está com dores no pezinho.
Não.
– respondi eu.
Ela ficou novamente de trombas.
Aquilo ficou a pesar-me na consciência, tanto que quando cheguei à praia, desliguei o carro e perguntei-lhe se queria mesmo ir para casa.
Não és nada estúpido, há bocado pedi-te para me levares a casa e não quiseste, agora que estamos longe é que me perguntas se eu quero ir para casa. Olha... foda-se.
Eu sabia que toda aquela fúria era só fachada, porque a Mónica lá no fundo é uma mulher muito quente e doce, tinha agora de arranjar maneira de domesticar a fera que ainda estava assanhada.
Desculpa, eu queria passar esta noite contigo num sítio especial, não queria acabar a noite tão cedo.
Sei que errei mas estou disposto a levar-te agora a casa, que dizes?
– perguntei eu.
Agora eu fico aqui, que vamos fazer na praia?
Já te disse, vamos apanhar coelhos para o almoço.
Vá lá Zé, agora a sério.
Eu tenho duas toalhas, podíamos ir para a areia ver a Lua cintilar sobre o mar, as estrelas, eu gosto de apreciar a natureza, que achas?
– perguntei eu, com um sorriso malandro nos lábios.
Tenho sono mas pode ser.
Pois Mónica, já deu o Vitinho, não foi?
Continua com essas boquinhas parvas, para veres se eu não vou para casa a pé.
Então vai, ninguém te impede.
– respondi eu.
Ela saiu do carro e desapareceu na escuridão.
Esperei dois minutos, pensando que voltava, achei melhor ir atrás dela. A miúda é teimosa como o caralho e por mais medo que tivesse de andar pela estrada vazia e apenas iluminada pelo luar, haveria de chegar ao Barreiro sozinha, só para provar que era capaz de o fazer.
Corri para a apanhar, ela olhou para trás, viu que era eu que me aproximava e continuou a caminhada, praticamente arrastando o pé que lhe doía. Cheguei junto dela, agarrei-lhe no braço com força e disse...
És maluca ou quê? Onde é que vais?
Disseste para eu ir a pé, estúpido de merda!
– respondeu ela.
Não sejas parva, estava só a brincar contigo.
Agarrei nela ao colo e trouxe-a de volta à praia, esperneava para a largar mas os seus olhos diziam-me que estava a gostar de estar nos meus braços.
Larga-me! Vou dizer à polícia que me queres violar.
Mas eu nem te toquei! Não obrigo ninguém a nada.
Pois, pois. Com essa conversa das estrelas e da Lua, vocês são todos iguais.
Vem comigo e descontrai-te querida, confia em mim.

Finalmente fez-se silêncio, tinha a noção que ela me tinha dado um voto de confiança.
Estendi as toalhas na areia e deitámo-nos, estava um pouco frio e ela agarrou-se a mim
Não tenhas ideias, só me estou a agarrar a ti porque está frio.
Queres a minha camisola?
– perguntei eu.
Não.
Está bem, tu é que sabes.
– finalizei eu.
Conversámos um pouco, ouvimos o mar, admirámos a Lua e as estrelas.
A sua companhia juntamente com o ambiente envolvente fez-me sentir bem e relaxado.
Ofereci-lhe uma massagem no pé, a qual ela aceitou, para grande espanto meu. Tenho alguma experiência a fazer massagens mas receava magoar ainda mais o seu pezinho, por isso estimulei apenas a circulação do sangue naquela zona, massajando suavemente com o objectivo de lhe aliviar um pouco a dor.
Perguntei-lhe se estava melhor, disse-me que sim e voltei a deitar-me na toalha.
Olhámo-nos fixamente, apetecia-me mordê-la toda começando pelos seus lábios. Tentei então beijá-la, acabando por ser correspondido. O meu caralho era agora o meu cérebro e apalpei o seu rabo firmemente como quem queria arrancar um pedaço e levar para casa. A menina não deve ter gostado e afastou-me com uma chapada.
Seu porco, és um tarado, só te queres aproveitar de mim. – disse ela, sorrindo.
E tu és uma puta que está cheia de vontade de levar na cona, armada em menina de coro.
Foda-se! Nunca pensei que...

Não a deixei terminar o que estava a dizer e beijei aqueles doces lábios, sentia o seu corpo quente e os seus lábios a sorrirem. A linguagem ordinária estimulou a menina e estava agora mais excitada que nunca, o frio que sentia deu lugar a um intenso calor, tirei a camisola que vestia e também a dela enquanto a acariciava. Percorri novamente o seu corpo mas desta vez com a boca, depois de uns beijinhos no pescoço e umas mordidas na orelha, arranquei-lhe o soutien com os dentes, revivi a minha infância chupando os seus mamilos excitados, enquanto ela me acariciava os braços e peito.
Ela quis dominar a situação e virou-me de costas para a areia, percorreu todo o meu peito com os lábios e desapertou lentamente os botões das calças, era torturante, o animal cheio de vontade de sair dos boxers e ela ainda não me tinha tirado as calças.
Assim que as tirou, deparou-se com o bicho firme e hirto como uma barra de ferro, aquela visão fez com que rapidamente me tirasse os boxers e me abocanhasse o animal violentamente, cheguei a temer pela sua vida, pois ela parecia uma criança agarrada a um chupa e parecia convicta a chupar até gastar.
Fez-me vir, sorria ao ver o meu estado de satisfação e ao mesmo tempo de choque, pois não estava nada à espera de tal mamada. Agora era a minha vez de tomar o controlo da situação, deitei a Mónica de costas na areia e despi-lhe lentamente a saia, as suas pernas tremiam e o meu coração, assim como a minha gaita palpitavam.
Mónica encontrava-se agora apenas com o fio dental, que me apressei a tirar após algumas carícias e beijos na barriguinha. Após baixar a cuequinha da menina, deparei com uma tirinha que me agradou bastante e isso manifestou-se na minha erecção, percorri toda aquela zona com a língua, incluindo umas trincas no rabiosque e umas carícias nas coxas. Sempre que a minha língua entrava em contacto com o seu clítoris, ela gemia intensamente de prazer e eu já estava que nem podia.
Ela veio-se e sorrimos de satisfação mas a brincadeira ainda agora tinha começado.
Fode-me cabrão! – sussurrou-me ela ao ouvido.
Respeito muito as senhoras e não perdi tempo, fixámo-nos olhos nos olhos, em seguida ela desviou o olhar e sorriu, pois é uma menina muito tímida.
Penetrei-a profundamente, os gemidos dela excitavam-me e davam-me uma energia inesgotável. Trocámos de posição, ela comandava agora, sentei-me na toalha já cheia de areia, tal era a rebaldaria. Senti areia no cú, foder na natureza tem destas coisas. Ela sentou-se em cima de mim, agarrei naquele cú e puxei-o para mim, primeiro lentamente e depois com mais força, suávamos e arfávamos como doidos. Comecei a uivar à Lua como um louco, ela achou piada e imitou-me, estávamos perfeitamente sincronizados e atingimos o clímax simultaneamente.
Abraçámo-nos e sorrimos, ambos estávamos satisfeitos e felizes por estarmos na companhia um do outro.
Vestimo-nos e caímos na areia, estávamos estafados e nenhum de nós tinha força para conduzir.
Olhamos um para o outro, fiz-lhe umas festinhas na cabeça, abracei o seu corpinho junto a mim, aos poucos vi os seus olhos fecharem e deixei-me levar pelo sono.
Senti claridade e comecei a acordar aos poucos, antes de abrir os olhos procurava a minha companheira daquela noite inesquecível mas ela não estava lá, Assustado, abri os olhos, olhei para o mar e lá estava a minha sereia a nadar, abanei a cabeça, como quem diz, grande maluca esta miúda.
Estávamos em Fevereiro e a água estava muito fria mas mesmo assim despi-me e fui ter com ela.
Mergulhei e dei-lhe um beijo de bom dia.
Então, a água está quentinha, não está? – perguntei eu, todo gelado.
Agora que tu chegaste, está.
Sorri e beijei-a novamente, demos mais uns mergulhos, parecíamos crianças a brincarem na água.
Saímos e vestimo-nos, fomos para o carro e de seguida para casa, na rádio tocava uma música lançada há pouco pelos Three Doors Down chamada Here Without You, aproveitei para lhe dedicar esta música, pois tem a ver sobretudo com saudade, saudade de alguém pelo qual se está irremediavelmente apaixonado, saudades que já sentia sabendo que dentro de pouco tempo me iria separar dela.
Estava com fome e perguntei-lhe se queria tomar o pequeno-almoço comigo, ela aceitou.
Parámos numa casa em Azeitão, famosa pelas tortas da região que serve. A menina pediu uma torta e um néctar de manga e eu pedi duas tortas, uma tosta mista e um sumo de pêssego para mim, porque este corpinho é de muito alimento e além disso ela partiu-me todo na noite anterior, tinha de recarregar baterias.
Fui levá-la a casa, assim que chegámos à porta, peguei-lhe na mão e demos um longo beijo.
Prometemos encontrarmo-nos na noite seguinte, ela abriu a porta da rua e mandou-me um beijo, retribui-lhe o beijo e arranquei cortando em primeira, óbvio que queimei borracha como o caralho, mas caga cenário.
Fui para casa e à medida que me ia aproximando, sentia cada vez mais frio, a sua ausência é como um Inverno para mim. Estacionei o carro, subi para casa, despi-me e deitei-me para descansar um pouco.
A cama é grande e fria, adormeço com a esperança de a ver ao meu lado quando acordar...

Segunda-feira, Julho 12, 2004

Meza Verde

Era manhã lá fora, acordei nervoso e com o corpo todo dorido. Levantei-me da cama com as marcas bem visíveis da pancada recebida na madrugada anterior, carregava no meu corpo o cheiro aromático da Patrícia, tal como o seu sangue derramado.
Abri a janela do quarto, tive a visão aterradora do pobre estado que o meu carro ficou, todo danificado, com o lado direito todo amachucado e os pneus retalhados.
Tentei não pensar no assunto e meti-me na banheira, não sem antes telefonar para a oficina e anunciar-lhes um novo presente que os aguardava.
Telefonei igualmente ao Zé Luís, agora completamente mergulhado, da cabeça para baixo, num banho turco e acompanhado por um cálice de vinho do Porto. Na noite anterior, tinha recolhido mais cedo a casa para descansar e recuperar das mazelas, ficando na obrigação, assim que acordasse, de me apresentar na esquadra de Polícia da minha zona de residência. Nem era mau de todo, é a mesma onde o pai do Zé Luís trabalha.
Combinei as coisas com ele de modo a me ir buscar à oficina, visto que iria ficar sem carro durante uns dias.
Saí do banho e fui tratar da minha vida. Pela primeira vez, em muitos fins-de-semana, saía de casa antes da hora de almoço, pouco passava das nove da manhã.
O Zé já esperava por mim à porta da oficina, deixei o carro por lá e fomos directos para a esquadra.
Comecei a entrar em stress, o interrogatório prolongava-se, contava o que sabia e o que eles queriam ouvir da minha boca. Os polícias insistiam que lhes escondia qualquer coisa mas como não formaram uma acusação contra mim, tiveram de me deixar sair em liberdade, no entanto, avisaram-me para ter cuidado com os meus passos e com quem me envolvia.
Estive duas horas retido na esquadra, sentia-me exausto e queria relaxar.
Onde queres que te deixe? – perguntou o meu amigo Zé.
Leva-me ao ginásio, se fazes favor. Estou uma merda e preciso duma massagem.
Necessitava urgentemente dumas mãos milagrosas a cuidarem de mim. O Zé foi embora para casa e disse que logo ligaria para saber qualquer coisa da investigação policial, com um sorriso cabrão nos lábios, sabendo ele que eu estava mais que fodido e enterrado até ao pescoço na palhaçada da noite anterior.
Saí dos balneários e, no corredor, avistei um rabinho que me era familiar, aproximei-me do belo naco de carne. Era a minha doce Elsa, uma doçura de mulher, ainda sentia por ela uma química enorme e a chama da nossa paixão reacendia sempre que nos víamos.
Dispensei outras mãos que não fossem as dela, qualquer outro toque seria estranho, comparado com a sua suavidade e calor característico que tanto me excitou no passado.
Trocámos dois beijos de cumprimento mas rapidamente ficámos colados ao corpo um do outro e mais beijos se seguiram... Carícias breves e um minuto depois estávamos fechados na sala de Aeróbica e sem ninguém por perto. Naquela hora não iríamos ser incomodados o quisemos meter em dia a nossa conversa corporal.
As nossas saudades eram imensas, não nos víamos há bastantes dias e os nossos corpos ferviam de excitação. Os beijos desenrolavam-se em carícias múltiplas e cada vez mais penetrantes, as roupas iam caindo no chão e a nossa linguagem corporal estendia-se a todos os horizontes que se iam redescobrindo à medida que ficavam destapados.
Por entre as carícias, obrigatoriamente falámos sobre a aventura na noite anterior, a minha querida enfermeira Elsa já sabia das novidades. O Alexandre entrou no serviço hospitalar dela, naquela madrugada, com uma bala alojada no rabo, dificilmente passaria despercebido.
Deixámos a conversa para outra altura, a excitação era tão intensa que o nosso vocabulário ficou significativamente reduzido a gemidos e gritos de prazer, queríamos dar uma foda e outra utilidade às nossas línguas.
Os nossos corpos entraram em sintonia, a enorme sensação de cansaço que me assombrava o corpo, minutos antes, deixou de existir e esse vazio rapidamente se preencheu com o calor dos curativos da minha enfermeira preferida.
Elsa tinha agora apenas umas cuequinhas brancas vestidas e eu mantinha os meus calções, ainda.
Comecei por brincar com os redondinhos seios da Elsa e apertar aqueles mamilos, estavam rijinhos e completamente espetados. Os meus lábios estavam em permanente contacto com os seus. O calor dos seus beijos aumentava vertiginosamente e estávamos embalados para mais uma maravilhosa sessão de amor.
Permanecia com uma mão no seio direito da Elsa e fazia descer a outra pelas suas costas, sentia o calor do seu corpo e excitava-a cada vez mais. Os meus lábios percorreram pelo seu pescoço e cercaram-se do biquinho dos seus mamilos.
Elsa fez cair a sua mãozinha marota pelo meio peito e penetrou nos meus calções, agarrou-me na gaita e eu baixei os calções. Via no brilho dos seus olhos, o desejo por este momento, apetecia-lhe esta foda, tal como a mim.
A sua boca apoderou-se do tolinhas e não mais o largou até quase me vir, chupava-o vigorosamente alternando com uns beijinhos doces na cabecinha da gaita. Tão querida a Elsa, certamente lembrava-se que aquele pedaço de carne do meu corpo lhe dava imensas alegrias e estava agora a retribuir o afecto.
Pedi-lhe que parasse e disse-lhe que era tempo de eu tratar dela.
Trocámos miminhos, estávamos agora sentados no chão acolchoado da sala de aeróbica, e a minha cabeça desceu para o seu colo. Retirei cuidadosamente as suas cuecas e comecei de imediato a lamber aqueles lábios vaginais. As minhas mãos continuavam nos seus seios, apertava-os e escutava com prazer os seus gemidos.
Elsa agarrou-me no cabelo e empurrou a minha cabeça na direcção da sua bonita rata, povoada por uma pequenina fila de pelinhos acima do clítoris. Lambi cada pedacinho delicioso daquela zona, chupei o seu clítoris e mantive-o entre os dentes, soprando-lhe breves lufadas de ar quente até ela se vir.
A minha enfermeira estava pronta para mais, queria ser penetrada e pediu-me que o fizesse.
Ela deitou-se de costas no chão e inclinou-me sobre o seu corpo, puxei as suas pernas para mim e levantei-as para cima dos ombros. Penetrava agora a Elsa, ela sorria e gemia, beliscando o meu corpo enquanto eu lhe beijava a palma dos pés. Estávamos num êxtase tal e sem precedentes, talvez fosse por culpa das saudades.
Não queríamos ficar simplesmente por ali nem acabar logo com aquele momento, Elsa sentou-se no meu colo e rodopiou sobre mim enquanto se deixava penetrar, encaixando na perfeição no meu corpo e ficámos ali abraçados, aos beijos e fodendo que nem animais.
O clímax estava próximo, levantámo-nos e encostei a minha doce Elsa contra a parede.
Caminhei calmamente para junto daquele corpo maravilhoso, ficava cada vez com mais tesão a cada passo que avançava na sua direcção. Ela tomou-me nos braços e saltou para o meu colo, apoiando as costas na parede.
O sexo tinha-se tornado mais selvagem e muito mais excitante, fodiamos para esgotar o resto das nossas energias e estávamos próximos desse fim. Pouco tempo mais iríamos aguentar àquele ritmo...
Tivemos um orgasmo muito barulhento, pingávamos suor por todos os poros e caímos exaustos no chão.
Aguardámos uns minutos antes de nos vestirmos e ir para os balneários, levei algum tempo para recuperar o fôlego, estávamos ambos bem saciados.
Fomos tomar um duche depois de tanto reboliço, a nossa aula de ginásio estava terminada. Se poucas forças me restavam no corpo quando ali tinha entrado nesta manhã, ainda menos me restariam agora depois da Elsa ter rebentado comigo, uma vez mais. Estava cansado mas com um sorriso nos lábios, até abrir a merda da torneira do duche me parecia uma tormenta e um esforço sobrenatural mas tinha o espírito revitalizado. O tolinhas tinha esguichado que nem um porco, estava feliz e eu também.
Elsa ia entrar no turno das quatro, não dispunha de muito tempo para almoçar mas mesmo assim insistiu que fomos juntos ao Hospital ver o meu amigo Alexandre.
A Diana telefonou-me entretanto, ainda me encontrava no balneário do ginásio. Queria ir almoçar comigo, em parte para falarmos sobre a Patrícia mas também para me agradecer o que tinha feito pela sua irmã.
Acabei de me enxugar, arrumei o saco e esperei pela bela Elsa que saiu poucos minutos depois e fomos no seu carro para o Hospital.
O Luizinho e a Diana esperavam-nos no Hall de entrada e acompanhou-nos na visita ao quarto do Alexandre. Com a influência da Elsa, entrámos pela enfermaria dentro sem que nada nos fosse perguntado.
Mal as portas do elevador se abriram no andar da enfermaria, um certo mau cheiro tomou conta do ambiente, deveria ser aqui que tinham depositado todos os desgraçados que sofreram merdas na noite anterior. Seguimos o rasto até ao quarto onde estava o Alexandre, aquela merda cheirava a adega, possivelmente dos peidos e arrotos alcoolizados que os dois animais que estavam lá dentro teriam dado de noite. Para além do intenso cheiro a vinho, este local parecia um circo de aberrações. Nele estavam dois desgraçados, o Alexandre era um deles, vitimas da atribulada noite anterior. O Alexandre, numa das camas, deitado de rabo para o ar e o outro coitado estava a dormir no chão, tinha pinta de drogado e deveria estar a ressacar.
João! Foda-se, caralho! – gritou o Alexandre, assim que me viu entrar no quarto.
Que triste figura se encontrava este gajo, deitado de barriga para baixo, rabo espetado e sem nada a tapar. Estranhei ele ter o rabo destapado. O Alexandre não parava de resmungar, estava chateado e bastante alterado.
Esse paneleiro tentou-me enrabar, filho da puta.
Está aqui um gajo com uma bala na peida e ainda nos querem foder.

Começava a perceber o porquê de ele estar com o cú destapado e a razão de tamanha agitação.
A Diana ficou boquiaberta, sem saber o que dizer. O Luís ria que nem um parvo e sadicamente com aquela situação enquanto que a Elsa tratava de cobrir o Alexandre com o lençol.
Calma lá, caralho. Conta-me o que se passou. – disse eu.
Esta manha quando acordei... A primeira merda merda que vi foi a cara sorridente desse cabrão a ressonar em cima de mim. – insistia o Alexandre, completamente revoltado.
O tal cabrão continuava a ressonar, agora no chão frio do quarto.
Com a ajuda do Luís, peguei no gajo pelos braços e deitámos o bicho em cima da outra cama do quarto.
A Elsa apressou-se a chamar a enfermeira de serviço e a Diana reconfortava o pobre Alexandre que estava todo fodido e desconfiava ter sido literalmente fodido.
Acorda atrasado! – gritei eu para o cabrão, dando-lhe duas chapadas.
O gajo finalmente acordou, após alguns chocalhos e mais duas chapadas à mistura.
Epah... o que é que queres? – dizia o gajo, babando-se todo.
Ouve lá animal...
Que fizeste ali ao rapaz?
– perguntei-lhe eu.
O que é que queres? Diz lá...
Ele não falou mais que aquilo e voltou a adormecer.
Levou mais um par de estalos, a ver se lhe passava a ressaca.
Que foste fazer para cima dele? És paneleiro ou quê? – insistia eu.
Nele?! Era um gajo?
O cú tinha pêlo... não comi.

Fiquei sem palavras, no meio desta merda toda, consegui achar piada àquele coitado e desmanchei-me a rir. Os únicos que não se riram foram os próprios envolvidos na palhaçada, o Alexandre continuava a resmungar, lançando caralhadas por tudo o que era lado e lá ia chamando de paneleiro ao outro, este nem reagia devido à quantidade de droga que ainda tinha naqueles cornos e voltou a adormecer.
Elsa regressou com algumas colegas ao quarto, fizeram um novo curativo na nalga do Alexandre e deram-lhe uma qualquer coisa para as dores. Foi tão forte que ele caiu imediatamente ferrado no sono e tínhamos agora algum descanso nas nossas cabeças sem aquela gritaria toda.
Eram horas de almoço, Diana insistia que precisava de falar comigo e pediu-me para irmos almoçar juntos, o convite foi também alargado ao Luizinho e à Elsa mas a minha doce enfermeira entrava ao serviço dentro de pouco tempo e recusou o convite.
O Luís veio connosco, pouco mais tinha a fazer ali e também ele precisava de apanhar ar fresco que aquele cheiro a adega estava a deixar todos mal dispostos.
Fomos até Setúbal, a um restaurante na avenida Luísa Todi e bem conhecido pela qualidade do seu peixe. Diana estacionou o carro junto ao cais e aquelas poucas centenas de metros que nos separavam da porta do restaurante foram percorridas sem que uma palavra tivesse sido trocada, num profundo silêncio. Era natural, as memórias da noite anterior permaneciam demasiado vivas e ninguém conhecia a melhor forma de relembrar tudo aquilo.
Diana não sabia por onde começar, penso que ela guardava alguma culpa consigo por aquilo que a Patrícia tinha feito. Reconfortei-a e trocámos as primeiras palavras e emoções ao sabor do bom vinho tinto pedido e de umas deliciosas entradas, tudo se tornou mais fácil e simples de ser revivido, tínhamos sido todos vítimas dum esquema bem montado pela Patrícia mas não lhe guardava rancor, apesar de tudo, tínhamos passado momentos maravilhosos na companhia um do outro.
Perguntei-lhe pela Patrícia... Diana foi vaga na resposta e insisti com ela para me dar alguma resposta concreta.
Algumas garfadas no prato depois e com a refeição quase terminada, Diana contou-me onde a irmã estaria. Sem adiantar muito, disse-me que tudo tinha sido planeado com antecedência e que na verdade não sabia realmente mais nada sobre a Patrícia porque a tinha visto pela última vez, na mesma altura que eu, pouco antes da polícia chegar ao armazém.
Fiquei excitado com a ideia de voltar a ver novamente a Patrícia...
Leva-me até ela! – pedi-lhe eu, afastando o prato e preparando-me para pedir a conta.
João... Sei como te sentes mas as coisas não são assim tão simples.
Por favor Diana, eu adoro a tua irmã. Leva-me contigo até ela.
– voltava eu a insistir.
Está bem, sabia que seria difícil te afastar de tudo isto.
Ontem, quando saímos do Portão, sabia que ela estaria a cometer o maior erro da vida dela e ao comprometer-te com isso deixou-me chateada mas talvez tivesse sido isso que ela quisesse, ligar-te definitivamente ao seu destino.
– disse a Diana, deixando escapar uma lágrima pelo seu lindo rosto.
Elas de facto tinham estado a discutir mas a Patrícia foi curta nas palavras assim que entrou no carro e não quis esclarecer o que se tinha passado lá fora com a irmã, agora sei do que se tratou.
Pagámos a conta e fomos rapidamente para o carro.
Diana conduzia em direcção à serra da Arrábida, ali tão perto e que nos servia de cenário de fundo. Perguntei-lhe, na brincadeira, se ainda queria ir tomar um banho numa das praias da Arrábida antes de ir ter com a Patrícia, ela sorriu discretamente e fez aquele seu olhar delicioso de mistério. Não sabia porque me levava para aqueles lados mas seria algo a ver com a Patrícia.
Tínhamos saído há pouco mais de quinze minutos do restaurante, estávamos já em plena serra e a Diana estacionou o carro na entrada do Parque de Campismo local. Fiquei curioso de saber o motivo de tal paragem.
Porque parámos aqui no Parque?
Tem calma João, já vais ver...
– respondia a Diana.
O Luizinho que tinha permanecido calado durante toda a viagem, dava agora um ar da sua graça...
Eu é que não posso ter mais calma que isto.
Estou mal da barriga. Vou ali cagar, já venho.

A Diana também saiu do carro e foi chamar alguém à portaria.
Quando voltou para o carro, vinha sorridente e desligou o motor.
Seria este Parque de Campismo escondido na serra da Arrábida o seu local de fuga caso algo corresse mal?
Na verdade, algo correu realmente de forma inesperada e possivelmente ela estaria aqui.
Uma jovem aproximou-se do carro da Diana, bateu no vidro e pediu-nos que a seguíssemos. Não era a Patrícia mas sim a amiga dela que lhe forneceu abrigo dentro do Parque. Diana ligou o motor e seguiu a jovem que caminhava devagar nas estradas de terra batida do Parque.
Estacionou agora definitivamente o carro, junto à tenda da misteriosa rapariga.
Saímos do carro e fui procurar o Luizinho, que tinha ido cagar numa das casas de banho do Parque e voltaria assim que o encontrasse.
Entrei numa das casas de banho e lá estava o Luís, ouviam-se os seus gritos à porta, o cagalhão deveria estar difícil de sair. Eram quase quatro da tarde, o almoço ainda nem me tinha assentado no estômago e já queria mandar cá para fora quilos de merda. Entrei num cubículo vazio e caguei toda a merda que me pesava na alma. Demorei algum tempo a vazar a tripa mas o Luizinho ainda continuava às voltas com a sua merda e a julgar pelos gritos do gajo, o assunto parecia demorado. Talvez tivesse ingerido cimento líquido misturado com a bebida, coitado, deve pensar que os gajos duros só cagam merda dura. Agora estava ali agarrado à sanita que se fodia.
Esperei por ele do lado de fora dos lavabos.
Todos aqueles que entretanto saíam de lá, vinham sorridentes e um deles acabou por fazer um comentário...
Chamem uma ambulância, está ali dentro um gajo a morrer!
Ele lá acabou por sair minutos depois, visivelmente mais relaxado e menos barulhento.
A Patrícia já se deveria ter revelado e saído da toca, esperava encontrá-la a qualquer momento.
Chegámos à sua presumível tenda, tinha o fecho aberto e entrei lá dentro.
Os meus olhos encheram-se de lágrimas ao ver aquela bela mulher novamente, não pensei em mais nada e abracei-a, num demorado abraço que terminou com um molhado beijo.
A amiga da Patrícia saiu lá de dentro e o Luís tomou o seu lugar, era uma tenda supostamente para seis pessoas mais não cabiam lá mais de quatro.
João, que fazes aqui?
Pensei que nunca mais me quisesses ver.
– dizia a Patrícia.
Não sejas tontinha, sabes que eu te adoro.
Precisava de te ver e dizer que te perdoo de tudo o que se passou ontem.
Apenas precisava de te ver...

Patrícia não me deixou falar mais, pegou na minha mão e levou-me a passear pelo Parque.
O Luís e a Diana juntaram-se a nós, bebemos um café na esplanada local e a Patrícia explicou-nos o que iria fazer a partir daquele momento. Tinham chegado uns tipos engravatados ao Parque, ela contou-nos que eram os compradores dos diamantes que ela desviou na noite anterior e que com o dinheiro da venda, se mudaria para um sítio bem longe, pelo menos até a situação acalmar.
Esses são os diamantes que faltavam na bolsa que deste ao Marco? – perguntei eu.
Sim, são esses. – respondeu ela, suspirando.
Sabes qu